Walter Carvalho: 'Robert Frank não morreu. Virou imagem' - EntornoInteligente
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Quando soube da notícia da morte de Robert Frank , lembrei de uma fala de Caetano Veloso no meu documentário “Raul: O início, o meio e o fim”. Ele diz assim: “Algumas pessoas não morrem”. Tive a mesma sensação agora. Robert Frank não morreu. Virou imagem.

Ele apontou um rumo para a fotografia. Sempre digo que três ou quatro questões determinam o ato de fotografar. Uma delas é “Robert Frank”.

‘Influência impossível de ser medida’ A sua influência é impossível de ser medida. Eu, por exemplo, tenho um projeto de fotografar drive inns pelo mundo. No Brasil, no Texas… Onde vou procuro esses drive inns abandonados e sei que faço isso para copiar Frank. Copio ele até hoje, e faço isso para me libertar, para me livrar dele, porque quando vejo um drive inn sei que já vi aquilo antes em uma foto dele. Frank está no imaginário da história da imagem, que passa pela fotografia.  Veja imagens de Robert Frank, principal fotógrafo de documentários que morreu nesta terça O fotógrafo Robert Frank morreu em Inverness, na Ilha Cape Breton, na Nova Escócia. Ele tinha 94 anos Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Exposição de fotos de Robert Frank em galeria de Nova York. O fotógrafo nasceu na Suíça e ganhou fama com a publicação de seu livro de referência de 1958, "The Americans", um olhar da sociedade norte-americana Foto: BRYAN THOMAS / AFP O estilo de fotografar de Robert Frank, imagens granuladas, contrariava o estilo usado na época, nítidas e bem iluminadas. Foto "Trolley – New Orleans", 1955 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT As fotos de Frank foram inicialmente consideradas deformadas, borradas, amargas. “Vista da janela do hotel – Butte, Montana”, 1956 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT O estilo de fotografar de Robert Frank lhe rendeu o apelido de "Manet da nova fotografia", da crítica cultural Janet Malcolm. "New York City, 7 Bleecker Street", setembro de 1993 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Pular PUBLICIDADE O trabalho de Frank recebeu mais definição e legitimidade em 1967, na exposição "Novos documentos", no Museu de Arte Moderna de Nova York. O programa apresentou as fotografias de Diane Arbus , Lee Friedlander e Garry Winogrand, geração mais jovens do estilo pioneiro de Frank. "City of London", 1951 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT As fotografias do livro "The Americans" foram publicadas pela primeira vez na França por Robert Delpire, em 1958. As fotografias de Frank foram usadas como ilustração para ensaios de escritores franceses". Charleston, Carolina do Sul", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Capa do livro "The Americans", publicado em 1959, obra-prima de fotografias em preto e branco tiradas das viagens de cross-country de Frank em meados da década de 1950 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Na edição americana do livro, publicada em 1960 pela Grove Press, foi permitido às figuras contar sua própria história, sem texto. "Parade – Hoboken, Nova Jersey", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT O escritor Jack Kerouac escreveu a introdução da edição americana do livro "The Americans"."San Francisco", 1956 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Pular PUBLICIDADE As fotografias de Robert Frank influenciaram a maneira como os fotógrafos começaram a abordar não apenas seus assuntos, mas também a moldura da imagem. "Estreia do filme Hollywood", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT

Ele dizia que o que mais lhe atraía nos Estados Unidos eram os banheiros e as geladeiras. Várias vezes passando por algum lugar na América, pensei: “Isso parece uma foto do Frank”. Quando lhe perguntei sobre essa sensação, me respondeu que ela tinha se tornado uma maldição para ele.

Quando caminho, na rua e percebo no mundo real uma foto, existe em mim  uma espécie de caos e tranquilidade, uma danação, um tremor que pode ser imperceptível aos olhares mais objetivos. O Frank é aquele que vê o que ninguém vê, embora esteja ao alcance de todos. E ele tem a capacidade de observar e transformar em linguagem, expressão, representação. Suas imagens não são instantâneos jornalísticos, como muitos dizem, são observações. Ele é o homem que só tem olhos de ver para olhar. Pegue essas mulheres que andam em um terreno vazio, sem ninguém, em uma foto sua. O que elas estão olhando? O que elas estão procurando?  A foto é sempre um segredo de um segredo. E você, para desvendar esse segredo, cria outro segredo.

No meu trabalho pessoal como fotógrafo, não consigo usar cor. Para mim sempre foi preto e branco. Não conseguia explicar o por quê, até que vi uma frase de Frank, que diz o preto e branco traz consigo, paradoxalmente, a esperança e a desesperança. Quando o objeto se traduz em tons de preto e branco de largado, já está propondo uma linguagem.

PUBLICIDADE Lembro que quando fui fazer uma entrevista com ele no estúdio para a série “América”, me disseram que ele tinha fama de mau humorado. Percebi isso logo na hora que coloquei uma cadeira diante dele,  enquadrei-o com a câmera, coloquei a luz e pedi para que se sentasse para começar a entrevista. Ele respondeu: “Eu não quero sentar”. O seu mau humor era dessa ordem, passava por essa vontade de não dirigir, não interagir com o que ele estava fotografando.

Eu me identifico com essa ideia. Tenho admiração, claro, pelos colegas que viram amigos dos personagens… Só que eu busco mais uma apropriação de uma imagem, daquilo que não queria ser visto. Eu não quero ser visto pelo objeto fotografado. Às vezes renuncio a alguma foto tendo identificado como sendo do mundo real para não ter um envolvimento de outra ordem. Meu processo é puramente intuitivo e emocional. Percebendo o trabalho dele, tento me aproximar disso, de não responder ao diálogo, de passar invisível pelos outros.

Junto com Christer Strömholm,  Josef Koudelka, William Klein e Sylvia Plachy, Robert Frank apontou uma forma de olhar o mundo através da fotografia e de enriquecer o próprio mundo. Graças a esses cronistas e escritores da imagem, passamos a pensar a fotografia de outra forma.

LINK ORIGINAL: OGlobo

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