"Uma indústria de morte"? Exposição no Coliseu de Lisboa associa a psiquiatria ao Holocausto e ao racismo - EntornoInteligente
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Entre os cartazes de um sorridente Marco Paulo que em breve apresenta o mais recente trabalho, o de Maria Bethânia que volta a Portugal ainda este mês ou o de Madonna a quem já perdemos a conta aos concertos que dará no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, há uma exposição a decorrer. Os grandes painéis a negro e vermelho estão preenchidos de fotografias, datas, gráficos e pequenos textos. Ao mesmo tempo, é exibido o documentário “Psiquiatria: uma indústria de morte”. Do lado de fora, à porta, em letras garrafais, anuncia-se o que ali se passa e que “mostra imagens que podem ferir a sensibilidade” dos visitantes: “psiquiatria stop de drogarem as crianças” (sic).

“Somos contra os atropelos dos Direitos Humanos”, começa logo por dizer Graça Ribeiro, médica de clínica geral e a responsável pela filial da Comissão de Cidadãos para os Direitos Humanos (CCHR), a entidade organizadora da exposição e que se apresenta como um “serviço de vigilância que dá a verdade sobre a psiquiatria”.

“Isto significa que somos contra a falta de informação e que as pessoas têm de ser informadas de que os medicamentos podem fazer mais mal do que bem. Pessoalmente, sou contra esse tipo de medicamentos [para o tratamento de doenças de saúde mental] porque acho que há outras abordagens. É só as pessoas procurarem. Há quem enverede pelo yoga, pelo reiki ou simplesmente por dar passeios à beira do mar. Quando estiver muito nervoso vá para a beira do mar, tire os sapatos, meta os pés na areia e grite se quiser.”

A entrada do Coliseu dos Recreios

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A organização garante que não tem uma abordagem extrema, mas defende que há um “exagero” daquilo que a chama “uma época dos comprimidos para tudo”. “Não advogamos: não tome a medicação. Queremos é que as pessoas tenham a livre opção de tomar ou não porque cada um sabe de si e toma as suas decisões. Por exemplo, as pessoas de idade levantam-se para ir à casa de banho, estão com medicação forte para dormir. Se caem a meio da noite, partem o colo do fémur. A maior parte deles parte o colo do fémur a meio da noite por causa disso. Desequilibram-se, perdem a força porque estão meio a dormir”.

Contactada pelo Expresso, a Ordem dos Médicos admite que uma exposição desta natureza é um risco, no entanto, lembra que os movimentos antipsiquiatria não são novos. “É um tema requentado dos Congressos Mundiais de Psiquiatria, há sempre e este ano, como o congresso é em Lisboa, a exposição está cá”, refere Miguel Bragança, presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem. Ainda não viu a que está patente no Coliseu, mas recorda que há uns anos viu outra exatamente com as mesmas ideias em Florença, precisamente quando o congresso aconteceu naquela cidade italiana. “Existem movimentos de origem duvidosa, encapuzados, e cujo objetivo a longo prazo se desconhece. Estes movimentos também criticam muito a hipermedicalização e os tratamentos prescritos”, diz. “É o preço a pagar por vivermos numa sociedade livre,até porque sem liberdade não há saúde mental. É um grande risco ter uma exposição destas? Sim, indiscutivelmente.”

Ideais nazis e racistas criadas por psiquiatras? “É uma argumentação cega” A exposição está dividida em várias partes. A visita arranca – e de acordo com dados da organização já recebeu cerca de 800 visitantes – com um vídeo de cerca de cinco minutos em que sucintamente se explica a tal “indústria da morte” e em que são apresentados uma série de casos de pessoas cujos familiares foram submetidos a tratamentos psiquiátricos ou que foram, elas próprias, forçadas a tomar medicamentos para tratar aquilo que dizem ser diagnósticos errados de doenças mentais. Perguntámos a Graça Ribeiro: tem conhecimento de situações desta natureza em Portugal? “Isso é difícil de dizer porque eu não tenho estado a fazer estatísticas, nem esses registos, mas eu escuto muita gente dizer que está pior do que estava, mas também há quem diga que está melhor”, responde.

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Seguem-se depois uma série de outros capítulos na viagem, incluindo “A destruição da criatividade”, “Controlando o homem como um animal”, “A origem da psiquiatria”, “Por trás da Eugenia e do Holocausto”, “a psicocirurgia e os tratamentos de choque”, “O uso da política para destruir vidas”, “Entrar no mundo das drogas”, “As mentes mestras da destruição”, “A traição e as drogas nas crianças”.

Um dos momentos de maior impacto é a associação de teorias psiquiátricas às ideias de eugenia racial. “Foi um psiquiatra que tentou encontrar uma forma de reduzir o mal da sociedade, eliminando os coxos, os estropiados, os atrasados mentais. O que está por trás do holocausto, o que está por trás do racismo são ideias que nasceram de mentes de psiquiatras. É só isso. Não é fácil a pessoa aceitar porque esteve oculto muito tempo, mas ela está aí para ser constatada e está documentada”, sublinha Graça Ribeiro, que se trata de uma generalização do pessoal médico da área da psiquiatria: “Só enfia o barrete quem quer porque em todo o lado há bons e maus profissionais. Acredito que haja muito psiquiatra que tenha ótimas intenções e que quer ajudar, mas foram estas as coisas que aprenderam. E se acreditam… desde que respeitem as pessoas e que as informem corretamente, as pessoas são livres de escolher.”

Confrontado com esta comparação, o presidente do colégio de Psiquiatria, considera que se trata de “uma argumentação cega, só feita por uma organização sem credibilidade”. “Um psiquiatra está por trás do holocausto como um jornalista pode estar por trás de uma série de crimes de guerra. Lá porque Lance Armstrong usava drogas não significa que todos os ciclistas estejam dopados”, diz Miguel Bragança. “Claro que há coisas que hoje são feitas que daqui a anos não vão fazer sentido. Agora não tenhamos qualquer dúvida: atualmente a pessoa mais comum tem os cuidados de saúde que um rei jamais teria há 200 anos”.

Uma “mente maestra da destruição” Entre aquelas que são classificadas como as “mentes maestras da destruição” está o médico português Egas Moniz, conhecido pelo desenvolvimento da lobotomia e galardoado com o Nobel da Medicina pela angiografia cerebral (uma técnica para detectar problemas nos vasos sanguíneos no cérebro). “A lobotomia não é mais do que meter um bisturi pelo olho dentro até ao lobo cerebral e picar de um lado para o outro, destruindo tecido cerebral. As pessoas ficam, algumas, tipo vegetal. Destruir tecido cerebral é destruir vida, por amor de Deus.”

A lobotomia como desenvolvida por Egas Moniz já não é praticada.

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Todo o material exposto está em espanhol. A filial portuguesa da CCHR é muito recente em Portugal e estão envolvidas cerca de seis pessoas. Além de Graça Ribeiro, que é médica de clínica geral, há “advogados, professores universitários, pessoas das mais variadas áreas”.

A organização optou apenas por dar a conhecer a exposição através da distribuição de folhetos pelas ruas Lisboa. Folhetos esses em que o evento e a organização se apresentam assim: “segundo centenas de cientistas, médicos, profissionais de saúde mental e grupos de direitos humanos de todo o mundo, as soluções dadas pela psiquiatria aos problemas de saúde mental parecem ser ineficazes e causam graves efeitos colaterais, às vezes também a morte das pessoas”.

O Expresso tentou contactar o Coliseu dos Recreios, mas até à publicação deste texto não foi possível obter alguma resposta. A exposição não foi divulgada no site da sala nem nas redes sociais.

“Raramente encaminho um paciente para um psiquiatra” A responsável pelo CCHR em Portugal é médica de clínica geral e exerce a profissão. Admite que “raramente” encaminha “um paciente para um psiquiatra – excepto se o doente lhe pedir diretamente. “Falo bastante com as pessoas e tento entendê-las. Por vezes, isso já ajuda. Aconselho uma alimentação mais saudável, dar passeios, sair de casa, falar com pessoas. Muitas vezes é a falta de ocupação que faz as pessoas ficarem neuróticas.”

Mesmo em situações de diagnóstico de doenças psiquiátricas mais graves, como a esquizofrenia, o CCHR não considera a medicação como solução ideal. Embora nestes casos admita alguns fármacos “mais suaves e de carácter temporário”. “Os casos muito graves contam-se pelos dedos. É certo que existem e precisam de ter uma abordagem muito específica, com muita compreensão, amor e paciência.”

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Para Graça Ribeiro, a moda da medicação leva a que se passe comprimidos só porque sim, apontando também que os próprios doentes pedem medicamentos por coisas mínimas. Ao longo da exposição, a acusação de que há maus diagnósticos de doenças psiquiátricas – uns de forma involuntária, outros nem por isso – é frequente.

A CCHR acusa a indústria farmacêutica de ser a maior beneficiada pela medicação excessiva, justificando que existe “um enorme interesse em que sejam inventadas doenças para vender mais medicamentos”.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde mental enquadra-se na categoria de saúde pública. Ou seja, é prevenida através dos esforços concertados de toda a comunidade. “A saúde mental é tão importante como a saúde física para o bem-estar dos indivíduos, das sociedades e dos países. Avanços na neurociência e na medicina do comportamento já mostraram que, como muitas doenças físicas, estas perturbações resultam de uma complexa interacção de factores biológicos, psicológicos e sociais. Embora ainda haja muito por aprender, já temos os conhecimentos e as capacidades necessários para reduzir o peso que as perturbações mentais e comportamentais representam em todo o mundo”, refere a OMS.

Questionada sobre a legalidade de um médico fazer parte de uma organização/movimento cuja informação não é validada pela comunidade médica, a Ordem assegura que não há incompatibilidade. “Um médico pode aconselhar alguém a visitar um exorcista, um padre ou, até, a experimentar a cientologia. No entanto, quando o faz, tem de já ter excluído todas as hipóteses médicas, isto é, tem de ter concluído que não há nada que a medicina possa dar àquela pessoa. Diria que é muito grave se um médico achasse que alguém está doente e o encaminha para fora da medicina. Deontologicamente, seria muito grave”, diz Miguel Guimarães.

Mais tempo, menos medicamentos? “As pessoas saem da exposição impressionadas e assustadas. Vão a pensar: não me vou deixar enganar com facilidade, vou lutar pelos meus direitos, vou querer saber para que serve determinado medicamento e quais os efeitos. Esse é o nosso objetivo maior”, assegura Graça Ribeiro. “Os extremos não podem existir, tem de haver moderação. A verdade dói. A verdade é a verdade e não vamos mentir, vamos mostrar como as coisas são: este medicamento vai ajudar, vai sentir-se mais alegre mas pode ter este efeito, pode ter aquele”, fazendo questão de sublinhar que, “apesar das estatísticas que tem, já não estão muito ajustadas” e Portugal está entre os países em que mais aumentou a venda de antidepressivos. “E isso é muito significativo.”

Portugal é o terceiro país da OCDE com maior consumo de psicofármacos e, segundo os dados oficiais do relatório anual do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), o número tem crescidos nos últimos anos. Se olharmos apenas para os ansiolíticos (efeito calmante), Portugal lidera a lista.

“É verdade que cada vez se prescrevem mais antidepressivos”, admite Miguel Guimarães, que lembra que o medicamento não serva apenas para tratar a depressão, mas que também é usado para a ansiedade ou o stress pós-traumático. “Aliás, há até discussões em curso para mudar o nome aos antidepressivos para uma designação mais abrangente”.

David Clifford

Assegurando a validade destes fármacos, o presidente do colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos acrescenta que “nenhum psiquiatra pode tratar seja quem for só com medicamentos, tem de existir a combinação da farmacoterapia com a psicoterapia”.

“Os medicamentos são um sinal do tempo. Se fossem nefastos, se não beneficiassem as pessoas, estas desistiriam. Admito que se tivéssemos mais tempo para ouvir os doentes e para os interpelar poderíamos preescrever menos. O tempo é o bem mais precioso para a Saúde Mental e o Serviço Nacional de Saúde não o tem”, diz.

De acordo com a Ordem, idealmente um doente de psiquiatria tem uma primeira consulta que deve demorar cerca de 45 minutos, as seguintes prevê-se que durem meia hora. Mas isso não acontece. “Se cumprissemos isto, as listas de espera aumentavam vertiginosamente. Se houvesse mais tempo o número de fármacos podia diminuir? Sim, mas não era uma redução radical, para isso acontecer era preciso bem mais do que isso.”

Um movimento fundado na cientologia O CCHR foi fundado em 1969 pelo psiquiatra húngaro, Thomas Szasz, que morava nos EUA, em parceria com a Igreja da Cientologia, durante uma época, argumentam, em que “os pacientes estavam a ser armazenados em instituições e despojados de todos os direitos constitucionais, civis e humanos”. “A cientologia foi um dos fundadores. É apoiante, nada mais. Não está por trás, não controla nada”, diz Graça Ribeiro.

Define-se como uma organização apolítica, não–religiosa e sem fins lucrativos, “dedicada exclusivamente à erradicação do abuso da saúde e à legalização da proteção do paciente e consumidores”. “Se vier um comunista que está contra a violação dos Direitos Humanos na saúde mental é bem vindo, se vier um fascista também é bem vindo. Se vier um muçulmano é bem vindo. Só é preciso estar de acordo com a causa”, acrescenta a responsável pelo movimento.

Atualmente, de acordo com a página da CCHR, há dezenas de filiais por todo o mundo. Em Portugal, nasceu em maio de 2019. A exposição em causa foi aberta ao público a 20 de agosto e encerra esta terça-feira.

LINK ORIGINAL: expresso

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