Um dia vamos querer votar e vão dizer que não podemos - EntornoInteligente
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A indiferença não constrói hospitais, não cria empregos e não combate as alterações climáticas. Mas tendo em conta as eleições europeias celebradas no dia 26 de Maio, a grande maioria dos portugueses parece estar convencida do contrário. Enquanto as hostes nacionalistas comandadas por Salvini agitavam a bandeira do medo, os migrantes se afogavam no Mediterrâneo e os jovens gritavam nas ruas pelo direito a um planeta habitável, 69% dos portugueses ficavam em silêncio sobre que Europa vale a pena construir .

No dia 6 de Outubro os eleitores têm um novo encontro marcado com o seu futuro . E tendo em conta o quadro político que se vive em Portugal, e a qualidade da anterior campanha eleitoral, não seria de estranhar que apenas 55% dos portugueses optassem por exercer o seu direito a voto. Se isso acontecer, temos razões para nos preocupar. Tal como é impossível ser livre sem imaginar a liberdade, é impossível viver num país melhor sem ser capaz de imaginar que país queremos.

Os portugueses que não votam desconhecem certamente o quão frágil e excepcional é o sistema político no qual não participam, mas do qual se beneficiam. A democracia fundamenta-se na ideia que todos dispomos do mesmo direito a decidir como vivemos em conjunto e a ver respeitada a nossa dignidade como seres humanos. Mas para que a democracia seja mais que um ideal, a mesma exige humildade e razoabilidade. A primeira implica reconhecer que no que diz respeito a viver em conjunto, temos muito a aprender uns com os outros . A segunda implica reconhecer que não existe uma única concepção racional do que é uma boa vida , nem logicamente, uma instituição política que a veicule. Portanto, enquanto a missão do Estado é proteger os direitos e a liberdades dos seus cidadãos, permanecendo neutral em relação aos diferentes valores daqueles que o conformam, a missão dos cidadãos é garantir que antepõem a obrigação de ser razoáveis à sua ideologia.

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Subscrever × Este exercício não é nem fácil nem natural. Mas é o preço a pagar por viver em harmonia com os nossos vizinhos e conciliar o facto que num sistema democrático a verdade é importante, mas ninguém tem direito a determinar qual é o conteúdo último da mesma . Infelizmente, há muitos cidadãos que já não estão interessados em honrar este compromisso. Alguns deles, como o presidente dos Estados Unidos, pretendem construir muros em vez de pontes, minando activamente o pluralismo. Outros abdicam do seu direito a votar, alheando-se do futuro do seu país e do bem-estar dos seus concidadãos.

Ler mais Não te ouvem? Usa o nosso Megafone Contrariar esta tendência é essencial, tanto se queremos proteger as nossas democracias daqueles que as tentam destruir desde dentro, como se queremos evitar que as mesmas se transformem em câmaras de eco . Uma democracia não pode funcionar sem uma opinião pública forte, alimentada por meios de comunicação que informem e contextualizem, que sejam capazes não só de entreter, mas sobretudo de enriquecer o debate público. Também dificilmente resistirá às campanhas políticas, hoje pouco mais do que eventos publicitários, onde se privilegia o tribalismo e a ambiguidade. Identificar problemas, apresentar soluções e procurar consensos tornou-se num erro de cálculo pronto a ser desmontado por una nova estirpe de especialistas , mais interessados em racionalizar opiniões do que em contribuir para uma troca genuína de ideias.

Mais populares A carregar… Mas sobretudo, uma democracia não pode funcionar sem os seus cidadãos. Os portugueses devem ser conscientes de que a democracia avança e retrocede e que muitas vezes colapsa. Umas vezes de forma violenta e rápida, outras vezes de forma subtil e gradual. Quando grande parte dos cidadãos não exerce o seu direito a voto, corremos o risco de desnaturalizar pouco a pouco o sentido da democracia, até ao dia em que vamos querer votar, e para nossa surpresa, nos vão dizer que não podemos. 

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