Saiba o que fazer em Cingapura, mesmo que você não seja 'podre de rico' - EntornoInteligente
Entornointeligente.com /

CINGAPURA – Em uma terça-feira de julho, cerca de 45 aposentados, turistas e trabalhadores em horário de almoço se alinhavam, silenciosos, na praça de alimentação do Chinatown Complex da Smith Street, em Cingapura. Suavam sob o sol abrasador (fazia 32°C e não tinha ar-condicionado), esperando para fazer o pedido no estande do Hawker Chan Soya Sauce Chicken Rice & Noodle .

A casa vende porções de arroz com frango no molho de soja por 2 dólares locais (SGD, ou cerca de US$1,50) e ganhou fama ao redor do mundo ao faturar a primeira estrela do Michelin para a cidade-Estado, em 2016, fazendo dela a refeição mais barata certificada pelo guia. Os mais corajosos encaram uma fila de mais de uma hora, mas a determinação do público em aguardar pelo prato favorito se repete em vários pontos locais.

É um cenário bem diferente daquele mostrado no filme “Podres de ricos”, com lançamento no Brasil previsto para novembro, de Jon M. Chu, baseado no livro que ganhou o nome de “Asiáticos podres de ricos”. Aliás, quem assiste ao longa pode pensar que a “Cidade Leão”, como é conhecida, é habitada apenas pelos ricaços bem penteados e bem vestidos (verdade, há muitos por toda parte) que moram em casarões com jardins perfeitos (é o que não falta) e vão de jatinho para as ilhas para fugir da rotina diária (também acontece muito).

Leia também:

Conheça robôs que fazem check-in e até entregam toalha no quarto

Conheça os hotéis que receberam Donald Trump e Kim Jong-un em Cingapura

Mascar chiclete na rua rende multa em Cingapura

Mas nos seis anos que moro em Cingapura, um dos pesos-pesados do PIB per capita mundial, descobri que a cena no Hawker Chan reflete melhor a vida aqui. Sim, é possível viver e se divertir na cidade sem ir à falência.

Pratos de todos os cantos da Ásia são oferecidos a preços módicos no Chininatown Complex, um Hawker Center em Cingapura – Rebecca Toh / NYT Cingapura ganhou independência em 1965, quando era basicamente um agrupamento de prédios baixos, lojinhas simples e kampongs cujas casas eram cobertas de sapê ou ferro corrugado. Uma ação do governo levou à criação do Conselho de Desenvolvimento de Moradia, que substituiu os tais vilarejos ao redor da ilha por prédios superocupados conhecidos como HDBs, edifícios simples onde 80% dos 5,6 milhões de habitantes vivem hoje.

Com uma localização estratégica na Ásia e um histórico de receber imigrantes do sudeste do continente, China, Índia e Europa, Cingapura aos poucos foi progredindo, sendo que o grande salto ocorreu nas últimas duas décadas, quando deixou de ser uma capital industrial para se tornar um centro financeiro mundial e reformulou seu estilo para atrair os ricos através de diferentes estilos de vida.

– O motociclismo e a vida de luxo passaram a ser promovidos sistematicamente como parte da paisagem, simbolizada pela icônica Marina Bay Sands – diz Liew Kai Khiun, professor assistente da Faculdade de Comunicações e Informação da Universidade de Tecnologia Nanyang.

Carros exóticos estacionados na sala de estar

Hoje há uma riqueza imensa limitada a alguns bolsões, mas dado o tamanho liliputiano do país (menor que a cidade de Nova York), ela parece habitar o dia a dia, visível nas Ferraris que vejo rodando para lá e para cá, nos condomínios luxuosos e exclusivos (um deles, Reignwood Hamilton Scotts , por exemplo, tem um elevador só para veículos, de modo que os moradores podem estacionar seus esportivos exóticos na sala de estar) e nas marinas.

O fato é que essas cenas não são a norma.

– A percepção de Cingapura como um playground de ricos causa desconforto e tensão – observa Liew – sentimentos esses que se revelaram nas reclamações (sobre estereótipos, estilo de vida, falta de diversidade étnica) dos cingapurianos devido ao trailer de “Podres de ricos”, que mostra uma cidade completamente alheia às experiências das pessoas comuns.

Cingapura é onerosa: pelo quinto ano consecutivo foi considerada a cidade mais cara do mundo, segundo uma pesquisa anual feita pela “The Economist” . Com uma renda média anual de cerca de SGD$46 mil, a maioria dos cingapurianos geralmente anda de carteira fechada, medida financeira prudente e necessária facilitada em parte pela grande variedade de opções e serviços gratuitos. Há parques para explorar, espetáculos para se ver e hospitais, tudo de graça, além de uma infinidade de endereços baratos onde comer bem. Um dia de passeio não precisa custar uma pequena fortuna.

PUBLICIDADE O Jardim Botânico de Cingapura tem entrada franca – Rebecca Toh / NYT Com mais de 74 hectares, o Jardim Botânico local (equivalente a 75% da versão nova-iorquina) foi inaugurado em 1859 e, em seus primórdios, era um centro importante de cultivo de plantas, especialmente da seringueira. Com entrada franca, foi promovido pela Unesco a Patrimônio da Humanidade em 2015. É uma área verde impecável e tranquila, cheia de gente passeando (com ou sem cães), se exercitando e observando pássaros.

O Gardens by the Bay , erguido em um terreno recuperado, é uma verdadeira maravilha de engenharia e sustentabilidade. Gosto do contraste entre suas estufas de teto abobadado e clima controlado, suas árvores gigantescas e gramados verdes e os prédios modernos do centrinho comercial ali perto. A Orquestra Sinfônica faz apresentações gratuitas ao redor da cidade (às vezes no Jardim Botânico). Os fãs de música também devem ficar de olho nas datas dos shows realizados no Esplanade, complexo de artes performáticas cuja cobertura foi inspirada no durião.

Empresas como a Monster Day Tours e a Indie Singapore oferecem tours gratuitos por Little India e Chinatown , especificamente trechos que registram a evolução desses enclaves. O ION Orchard , shopping center conhecido pelas lojas de marcas de alto luxo, tem uma galeria de arte multimídia contemporânea no quarto andar, e obras de arte pontilham a cidade aqui e ali. A minha favorita, Haw Par Villa, foi inaugurada em 1937 pelos irmãos Aw, inventores da pomada Tiger Balm; nunca me canso dos dioramas e esculturas muitas vezes macabros que mostram representações das lendas chinesas – e que incluem troncos desmembrados e empalados ou gente se afogando em poças de sangue borbulhante.

Piscinas, tobogãs, ‘rio preguiça’ e piscina de ondas

Há muitas maneiras econômicas de aproveitar Cingapura. Por exemplo, a cidade oferece uma rede de complexos de piscinas que custam apenas SGD$ 2 para adultos, e incluem versões olímpicas no Centro Aquático OCBC e uma no bairro de Jurong East com tobogã, um “rio preguiça” e uma piscina de ondas que já visitei mais de trinta vezes. Os HDBs geralmente realizam feiras livres no térreo, onde é possível comprar frutas, legumes e verduras frescos e produtos para a casa a preços mais baixos que os praticados pelos shopping centers.

Com SGD$2,50 você pega o barco que vai para Pulau Ubin , uma ilhota pequena e pouco desenvolvida pertinho da ilha principal que dá uma boa ideia de como era a vida pré-independência: coberta de mata e vida selvagem, tem apenas alguns poucos moradores que vivem em casas de telhado de ferro, sem água corrente e praticamente sem eletricidade; é um mergulho cru na natureza que comparo a uma viagem no tempo.

Populares aguardam por comida em um hawker center em Bukit Panjang, em Cingapura – Rebecca Toh / NYT Nenhuma viagem a Cingapura seria completa sem uma refeição em uma das praças de alimentação típicas daqui (os Hawker Centers), verdadeiros microcosmos do patrimônio multicultural local (por sinal, não exploradas pelo filme).

“A comida em Cingapura é mais do que um cadinho cultural; é uma fusão de sabores mundiais. Vai além de uma cultura rica de comidas de imigrantes”, diz K.F. Seetoh, embaixador da culinária local e criador do Congresso Mundial de Comida de Rua, por e-mail.

Ele observa, por exemplo, que o rojak, prato que combina salada de frutas e refogado de legumes cujo nome se traduz como “mistura eclética” e cujas origens não são muito claras, “não é nem um acoisa nem outra, mas tem um estilo todo próprio”, símbolo perfeito para as muitas culturas de Cingapura.

A população é predominantemente de etnia chinesa, mas as sensibilidades pan-asiáticas do país são inegáveis – da sinalização de rua e nos metrôs nas quatro línguas oficiais (mandarim, malaio, tâmil e inglês), às mesquitas, igrejas e templos budistas e sul-indianos, às vezes no mesmo trecho de rua. Não consigo pensar em outro lugar que ofereça uma mistura tão abrangente e profunda de culturas e culinárias asiáticas em um ambiente tão compacto.

Passo um tempão nessas praças, seja para uma refeição rápida ou bebericar uma garapa gelada e observar os mainás de bico amarelo e penas pretas feito breu piando e saltando entre as mesas, esperando um farelo esquecido.

Às vezes também dou uma volta pelas barraquinhas que vendem uma variedade infinita de pratos que representam um pouco do mix cultural local.

PUBLICIDADE – Opções do dia a dia como satay, arroz com frango, yong tau fu, curry de cabeça de peixe, prata, nasi lemak, laksa, mee siam – explica Tan Ern Ser, sociólogo da Universidade Nacional de Cingapura.

– A formação cultural do cingapuriano é um tanto complexa. É uma combinação do que há no sudeste, no sul e no leste da Ásia e uma pitada global, mas não de forma essencialista, na qual a raça é definida por traços fixos, imutáveis.

Embora esses pratos – saborosos, salgados, picantes e sedosos a ponto de serem viciantes, e baratos ainda por cima – tenham se originado em diferentes partes do continente, todos são considerados cem por cento singapurianos, meio até alimentos reconfortantes. E são muito semelhantes ao país como um todo: sem nada de podre nem universalmente rico, mas definitivamente asiático.

LINK ORIGINAL: OGlobo

Entornointeligente.com

Nota de Prensa VIP

Smart Reputation