Ricardo Laganaro, diretor de filmes de realidade virtual: 'Poderemos ficar mais humanos' - EntornoInteligente

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RIO – Há muito entusiasmo, mas também muito ceticismo, em relação às produções de realidade virtual (RV). Para os incrédulos e reativos, principalmente aqueles que acusam a tecnologia de isolar e robotizar o ser humano, pode ser inspirador e desafiador ouvir o diretor Ricardo Laganaro. Um dos pioneiros em produções deste tipo no país, ele mostra que as melhores experiências em RV são coletivas e que podem valorizar mais o corpo do que se imagina. Depois de trabalhar na O2 Filmes, o paulista se associou ao estúdio Árvore Immersive, especializado em desenvolver narrativas interativas e imersivas, onde atua como chief storytelling officer.

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Nas suas palavras, é um cineasta de narrativa imersiva. Hoje e amanhã, dois trabalhos do estúdio, “Beleaf” e “Step to the Line”, serão exibidos no R2C, evento de mídia na Cidade das Artes, na Barra. Por telefone, de Nova York, onde participa de uma produção a ser exibida no Festival de Tribeca este mês, ele deu a seguinte entrevista ao GLOBO.

O que você costuma dizer aos céticos?

Lembro de uma entrevista dos anos 1980 em que perguntavam a Steve Jobs “por que ter um computador em casa?” E ele dizia: “Não sei”. As pessoas vão descobrir o que vai ser feito. Estamos nesse mesmo estágio. Se fosse comparar, é como se estivéssemos ainda antes do VHS. A experiência do usuário ainda é capenga. Quando a tecnologia se estabelece, a gente se esquece de pensar nela. Ela se torna invisível.

E como definir o que vem por aí?

É uma nova plataforma de computação, uma nova forma de interagir com dados, vídeo, som, texto e imagem. Nos últimos dez anos, a gente deixou de usar o computador sentado numa mesa e passou a usá-lo nas mãos. Nos próximos dez, vamos deixar de usá-lo assim, e seremos envolvidos de várias formas. Seja com informações translúcidas, misturadas à realidade real, ou imersos numa realidade virtual. Os óculos tradicionais que a gente usa hoje terão tudo o que a gente vê no celular. Tudo vai estar no nosso campo de visão. E a gente vai interagir com os dados como se realmente existissem à nossa volta.

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‘Nunca acho que a tecnologia, por si só, é maravilhosa ou terrível’

– Ricardo Laganaro Diretor Em que produzir RV é diferente de produzir para outros meios?

É um processo circular, e não linear, como no cinema: você escreve o roteiro, depois vêm pré-produção, filmagem, montagem. Na RV, é mais próximo do desenvolvimento de um software. Você faz um protótipo, bota para rodar, vê como funciona, reescreve, pensa de novo na ideia. O cineasta desses novos meios não precisa ser um tecnólogo, não precisa aprender programação, mas tem que entender que o processo tecnológico tem peso para fazer sua ideia existir. É mais prazeroso entender de câmeras e lentes do que entender de um código de computador. Mas cem anos atrás, talvez também parecesse coisa de outro mundo mexer numa câmera e numa película de celulose.

E do ponto de vista do espectador?

No cinema, você tem que esquecer o ambiente e embarcar na história. Na RV, você tem que sentir que está presente. Quando se tem um corte no cinema, ele tende a ser invisível. Na RV, é o contrário. Num ambiente imersivo, todos os truques para passar de espaço ou de tempo têm que ser declarados. Tem que ser como no teatro: tem um blecaute e um estrondo que indica este blecaute, por exemplo. Quando volta a luz, o cenário mudou. É mágico, mas você foi avisado que a mágica ia acontecer. Uso elementos do teatro e dos parques de diversão, com aqueles carrinhos que te conduzem por histórias e narrativas. A linguagem da RV é um híbrido de cinema com essas coisas mais físicas, com teatro e carrinhos de parque de diversão.

Qual será a próxima fronteira?

Costumo comparar com os cibercafés na década de 90 e os fliperamas na década de 80. Quando não se tinha em casa computador com uma placa de rede boa, processamento bom, conexão para jogar ou acessar a internet, você ia para um lugar que tinha tudo isso e pagava para usar. Estamos entrando nesse estágio na RV. Estão explodindo no mundo, principalmente em países orientais, os arcades RV ou cibercafés RV. São salas em que você paga para ter uma experiência ao lado de outras pessoas. Algumas são mais gameficadas, outras são mais passivas, em que você senta e vê algo. Na Holanda, tem uma em que você paga por uma de sessão de conteúdo, que pode ser comédia, terror ou social. E como no cinema lá atrás, a maior parte dos títulos é de curta duração. Ainda não há longas de RV. Então, há sessões de uns 45 minutos, com quatro curtas.

A ideia não é mais ter os próprios óculos de RV em casa?

A gente vai ter também. Mas acho que primeiro vai fazer mais sentido usar fora de casa. Estamos no momento de abusar e mostrar o quanto a tecnologia disponível pode ser legal. Usar uma roupa que treme, uma cadeira que mexe. Um pequeno parque de diversões em RV. É uma vivência.

O que mais o futuro nos reserva?

Fala-se muito em se libertar da ditadura do retângulo. Toda a informação está emoldurada em quadro, livro, tela de TV, tela de cinema. Tudo está ali. E você acaba se esquecendo do seu corpo. Olha para aquilo, distante de você, e não interage. Quando você explode isso e começa a interagir dentro desse outro mundo da RV, começa a ter que pensar quem você é, qual o seu tamanho, que espaço ocupa, como vai agir. Tem muito a ver com a forma como o homem interagia com as coisas antes da escrita como método de aprendizado. Talvez a RV consiga fazer a gente ser mais humano de novo, e não seja uma tentativa de nos robotizar.

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É a ideia de humanizar o processo?

Talvez seja a primeira vez que surge um meio novo em que as pessoas têm essa consciência e preocupação. Duas coisas que têm a ver com isso. Uma: é uma experiência que faz muito mais sentido sendo coletiva; as experiências legais de RV, em geral, te aproximam de outras pessoas, ao invés de te isolar. Outra: trazer o corpo de volta como uma interface com o mundo, uma forma de aprender e sentir as coisas.

No novo filme de Spielberg, “Jogador Nº 1”, o protagonista prefere viver num universo paralelo de RV a encarar a vida real. Isso pode vir a acontecer?

Se há 200 anos dissessem que a gente hoje ia ter um aparelho nas mãos e passar de quatro a cinco horas do dia olhando para ele, ou que no fim de semana a gente ia achar incrível ficar de pijama em casa olhando para uma tela e fazendo maratona de série, acho que iam achar um futuro bem assustador. E para a gente não é. É normal. Acho que, no futuro, estaremos em outra realidade, sem trocadilho. Interagindo com essas informações que vão estar em volta da gente o tempo inteiro. A gente está vivendo um momento em que há muitas tecnologias que não nos ensinaram a usar. Acho que por isso estamos vivendo tantos problemas em redes sociais. Quando você era pequeno e saía às ruas, seus pais ensinavam como se comportar. Agora, nem nossos pais sabem como se comportar em redes sociais. Está todo mundo aprendendo junto, e está sendo esse caos. Acho que vai ter gente que vai confundir as coisas, mas também acho que vai ter muita coisa boa. Nunca acho que a tecnologia, por si só, é maravilhosa ou terrível. Tem os dois lados.

Ainda tem gente que passa mal com realidade virtual…

É uma combinação da questão tecnológica com a criação. Temos limitações técnicas para criar conteúdo em RV que, se não forem respeitadas, farão a pessoa passar mal. Se o criador é arrogante no sentido de fazer o que quiser, vai provocar isso. E a culpa é dele, não da tecnologia. Acontece muito isso. Ainda mais por causa dessas câmeras portáteis de 360 que as pessoas vão testando. Numa câmera normal, a pessoa faz um filme ruim ou chato, e ninguém vomita. Na RV, as pessoas passam mal. Mas estão trabalhando loucamente para acabar com esses problemas. Num festival de hoje, que tem curadoria, nenhuma experiência vai fazer enjoar.

Ricardo Laganaro, diretor de filmes de realidade virtual: ‘Poderemos ficar mais humanos’

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