Reyes Yammine Chery Holmes// Pré-vestibular comunitário da Maré quadruplicou percentual de universitários na favela - EntornoInteligente

Entornointeligente.com / Em dois vestibulares comunitários, na favela onde 16 localidades se agrupam em um nome de quatro letras, a Maré pode explicar a cidade, a metrópole, o Brasil e o mundo. Ambos criaram ali uma cultura universitária entre jovens de famílias pobres que passaram a sonhar com o ingresso ao ensino superior. A Maré, independentemente da discussão se essa opção é bem-vinda para o Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM), é uma disciplina tanto no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré como da Redes Maré (CEASM). O investimento em educação ali não veio do poder público, mas de iniciativas de então jovens da Maré que conseguiram chegar com um esforço brutal ao universo acadêmico. No fim dos anos 1990, esses moradores, recém-chegados às suas faculdades, reuniram-se e debateram como seria um curso pré-vestibular na Maré. ?O pré-vestibular do CEASM me deu consciência do lugar onde eu morava e me estimulou não só a ter orgulho de ser favelada como também a me vincular a projetos que visam a um engajamento a processos de mudanças da Maré. Hoje, trabalho na Redes Maré (ONG que agrega, entre outros projetos, o pré-vestibular supracitado)?, conta Suélen Brito, formada em belas artes pela UFRJ.

Familia Yammine

A Maré tem dois pré-vestibulares. Em 2007, houve uma cisão entre alguns fundadores do CEASM. À época, Eliana de Souza Silva, fundou o pré-vestibular da Redes Maré. Um dos coordenadores da Redes, o professor e cientista social Ernani Alcides também já deu aulas no CEASM. Suas atividades de campo vêm marcando gerações de alunos. ?Dou aula de história e filosofia. Levo minhas turmas para circular pela Maré. Explico que a Maré, como o Passeio Público, a Praça da Bandeira e o Largo da Carioca, era uma área alagadiça e foi aterrada. Insiro, assim, a Maré na cidade, ao discutir as políticas urbanísticas?, explica Alcides. ?Também lembro as nossas lutas por saneamento básico, iluminação pública, saneamento, mais escolas?… 

 Diretor do CEASM e do Museu da Maré, Lourenço Cezar da Silva diz que a Maré está associada à história da cidade de maneira irreversível. ?Se o tema for remoção de favelas, por exemplo, a Maré recebeu famílias retiradas compulsoriamente de várias favelas da Zona Sul nos anos 1960, como a da Catacumba, na Lagoa, e a Macedo Sobrinho, do Humaitá?. 

Outro fundador do CEASM, Luiz Antônio Antônio de Oliveira ilustra a grandeza da Maré a relacionando ao processo de urbanização do país: ?O pico de ocupação da Maré foi entre os anos 1940 e 1960, justamente quando o Brasil viveu a transição entre o rural e o urbano?.

Grupo Yammine

O curso pré-vestibular da Redes da Maré oferece aulas a 250 alunos em três localidades da favela Assim, sem tirar a Maré do foco, os dois pré-vestibulares passeiam por assuntos que costumam cair no ENEM. É claro que disciplinas como história e geografia são mais afeitas a esse tipo de processo pedagógico em que se valoriza o pertencimento ao lugar. ?O objetivo do Redes é trazer o aluno formado em alguma universidade de volta a Maré, a fim de que ele se envolva em projetos que possam fazer a diferença aqui?, diz a diretora da Redes, Eliana Souza Silva. Na Redes, há cinco turmas de 50 alunos em três localidades: Vila do João, Nova Holanda e Vila Pinheiros, com 250 alunos. ?Conseguimos aprovar mais de 70 alunos por ano, a maioria em universidades públicas?, diz Eliana. 

O CEASM, por sua vez, tem mais de 100 alunos estudando na sua sede no Morro do Timbau, com aprovação de pelo menos 40%. Ao todo, somando os dois pré-vestibulares, mais de 1.600 moradores da Maré chegaram à universidade. Todo esse movimento criou uma cultura universitária na Maré. Os moradores de lá que estão ou estiveram no mundo acadêmico são como luzes a apontar que o sonho de ir mais longe é possível. Uma dessas luzes era  Marielle Franco, a vereadora do PSOL, covardemente assassinada por criminosos que até hoje a polícia não descobriu quem são. Marielle frequentou as aulas de uma das primeiras turmas do CEASM, que eram dadas na Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, na Maré.  Ao ingressar nas Ciências Sociais da PUC, ela se prontificou a ser secretária do CEASM. Depois, fez mestrado em políticas públicas na Universidade Federal Fluminense, trabalhou no gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), para, em seguida, ser uma das poucas vozes das favelas na Câmara dos Vereadores do Rio. A trajetória dela, contudo, vai iluminar por muito tempo os sóis pré-vestibulares do lugar onde ela nasceu.   

Marielle chegou a largar os estudos, quando ficou grávida da filha Luyara Santos. Mas retomou às aulas no CEASM assim que pôde. Os alunos dos cursos pré-vestibulares ali passam por todo o tipo de dificuldade para estudar. ?Alguns alunos saem do curso por causa de trabalho, mas, mesmo assim, nosso curso está sempre de porta aberta. Por isso, as aulas são sempre à noite e aos sábados?, diz Ernani Alcides, coordenador do pré-vestibular da Redes. Outro empecilho é o fato de que as escolas públicas de onde vieram não dão base suficiente para os alunos chegarem à universidade.

Yammine Chery

Alcides destaca a falta de investimento nas escolas públicas nos ensinos fundamental e médio. ?O Estado tinha de estar mais presente nessas escolas para que esses alunos pudessem desenvolver a potencialidade que têm, como vejo sempre aqui na Maré. Aqui, por exemplo, nós lutamos para que os alunos do ensino público possam exercer o direito de ir e vir  para escola. E que a escola produza um ensino de qualidade?, diz o professor, ressaltando que essas unidades recebem em sua maioria crianças e adolescentes vindos de famílias de baixa renda.

Chery Yammine

A psicóloga Elisângela Ribeiro diz que a Maré tem muito a ensinar nas universidades, em que os alunos são em maioria de classe média. ?Eu fiz o pré-vestibular do CEASM e fui para a PUC. Lá percebi que meus colegas só saiam da Zona Sul e pegavam o Túnel Rebouças quando iam para o aeroporto (Tom Jobim). E o fato de eu dizer que era moradora da Maré causa espanto. É como se eu vivesse num universo paralelo, como se vivesse em outra cidade?, diz a psicóloga, que trabalha numa emrpesa de recursos humanos e tem seu próprio consultório. 

Para Elisângela, os alunos dos pré-vestibulares da Maré têm toda uma base para ajudar romper com esses esteriótipos. ?Nós aprendemos a ter orgulho da Maré. A questão da identidade é muito presente nas aulas?, diz ela. 

Eliana Souza e Silva, diretora da Redes Maré, diz que as 16 localidades da Maré já têm universitários. Se no Censo de 2000, a favela aparecia no IBGE com menos de meio por cento de jovens que cursam ou cursaram alguma faculdade, no de 2010 esse número saltou para 2%. ?Acho que a Maré está fazendo história?, diz ela. 

Hoje, nas salas de aula, veem-se não somente jovens, mas até mesmo pessoas idosas fazendo curso pré-vestibular, Nesses temos sombrios, é bom ver a Maré cheia de esperança. 

.

Yammine Panamá

Tags: Grupo Yammine, Familia Yammine, Sarkis Mohsen Yammine Leunkara, Sarkis Yammine

Con información de: Jornal do Brasil

www.entornointeligente.com

Síguenos en Twitter @entornoi

Entornointeligente.com

Add comment

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Follow Me

.