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“Quanto mais sondagens apontarem para essa combinação PP-Vox, mais se consolidará a esquerda”

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Entornointeligente.com / O presidente da Junta das Comunidades de Castela-Mancha, Emiliano García-Page, esteve em Lisboa a apresentar a programação do Festival de Teatro Clássico de Almagro , que neste ano tem Portugal como país convidado. À margem desse evento, o socialista de 52 anos falou ao DN sobre a atual situação política em Espanha, com a crise em partidos como o Podemos e o Ciudadanos e a sombra do Vox. Mas também da crise dos migrantes em Ceuta, do conceito de “Espanha vazia” ou da necessidade de os países ibéricos falarem a uma só voz na União Europeia.

Castela-Mancha é, além da Estremadura, a única comunidade onde o PSOE governa sozinho com maioria. Sente-se um privilegiado dado o contexto político?

Privilegiado não, porque estou na política para lutar contra os privilégios. É a minha ideologia. Mas dou muito valor a isso, apesar de exigir um esforço imenso porque não se conseguem maiorias por tudo e por nada. Dou valor à estabilidade. Mas acredito que é um conceito que voltará a alargar-se na política espanhola. A crise financeira de 2007, que teve como epicentro a contestação social do 15-M [protestos dos indignados], cujo décimo aniversário acaba de se celebrar, pôs contra as cordas o próprio conceito de estabilidade. Mas a realidade é que, frente à estabilidade que havia em Espanha, ninguém apresentou uma alternativa. E acredito que isso fará que, mais cedo ou mais tarde, o conjunto do país entre em abordagens maioritárias. De facto, as formações políticas que nasceram ao abrigo da crise financeira de 2007, estão em fase de liquidação.

Acha que é o final do Podemos e do Ciudadanos?

Em política nunca se pode assegurar nada a 100%. Penso que são formações muito diferentes. Têm um problema estrutural, que foi terem nascido na base do argumento “somos bons, porque somos novos”. Ou seja, não tivemos tempo ainda para estragar as coisas ou fazer algo. Mas esse é um argumento que vai caindo por si só, porque cada dia que passa são menos novos e, por consequência, menos bons. Acho que no final, vão fortalecer-se e sobreviver todas as organizações que têm estrutura, particularmente o PSOE e o Partido Popular. Talvez convenha mais estabilidade e serenidade porque isso dá mais perspetiva. Penso que o Podemos está a entrar numa fase em que, se não reage, mais do que chamar-se Podemos vai chamar-se Pudemos.

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Subscrever “Penso que o Podemos está a entrar numa fase em que, se não reage, mais do que chamar-se Podemos vai chamar-se Pudemos.”

Já está no seu segundo mandato à frente de Castela-Mancha e no primeiro governou junto com o Podemos. Como foi essa experiência?

Eu não quero governar a qualquer preço. Acho que os políticos que se aferram aos cargos a qualquer preço pagam-no caríssimo, não só no cargo, mas na sua passagem à história política. Eu governei com o Podemos porque não tinha outro remédio, mas digo-o com franqueza. Um partido normal o que procura é ter maiorias, sem necessidade de depender de ninguém, de pagar portagens. E deixei muito claro que o fazia com a clara intenção de procurar a maioria e expulsar o Podemos do parlamento. Penso que é a lógica política. Em Espanha só têm mentalidade maioritária o PSOE e o PP, que trabalham para todos, não para um nicho concreto de votos. Quase ninguém aposta que haja um presidente de governo que não seja do PSOE ou do PP. Em Espanha há muito presidencialismo. O presidente do governo faz as vezes de presidente da República, tem mais poderes do que muitos deles. Ninguém concebe que a presidência do governo, a cabeça política em Espanha, não seja do PSOE ou do PP.

Que balanço faz da coligação de governo de Pedro Sánchez?

O pior da coligação é que é insuficiente. Porque se os votos do PSOE e do Podemos fossem suficientes para avançar com os projetos, seria um problema de entendimento doméstico. O fator que distorce quase tudo é o independentismo, que se cola muito através do Podemos no governo… O melhor é um governo maioritário e se não houver um governo maioritário, que a coligação seja o mais simples possível. O mau é que, à margem de terem de se pôr de acordo, o PSOE e o Podemos têm que conseguir acordos com outras 12 ou 14 formações políticas. E isso complica tudo.

“O pior da coligação é que é insuficiente. Porque se os votos do PSOE e do Podemos fossem suficientes para avançar com os projetos, seria um problema de entendimento doméstico. O fator que distorce quase tudo é o independentismo”

Mas acha que isso pode mudar nas próximas eleições, haver menos partidos no parlamento?

Sim, claramente vamos evoluir para um modelo de estabilidade e isso significa mais peso para o PSOE e para o PP.

Nesse cenário onde fica o Vox?

O Vox é uma cisão do PP, logo quem tem que se encarregar do Vox é o PP. A existência do Vox o que faz é alimentar o Podemos e a extrema-esquerda. Eu aposto muito claramente em políticas de moderação, não só porque acho que é preciso ouvir toda a gente ou ter senso comum e sensatez, mas porque a demagogia e o populismo, seja de direita ou de esquerda, nunca trazem nada de bom. O populismo, por definição, não oferece soluções aos problemas. Cria problemas e portanto oferece soluções a problemas inexistentes. Mas os problemas de verdade não os resolve. A crise de 2007 não trouxe uma alternativa. Alguns entraram na política a querer acabar com a democracia representativa, mas agora o que querem é ser deputados. Alguns quiseram discutir a monarquia ou a república, mas não se deram conta que em Espanha o poder reside no povo, uma pessoa um voto, e a monarquia foi muito útil, e é útil, para a estabilidade do país. Nesta altura, penso que todos os elementos que levaram à convulsão social de então estão a diluir-se como açúcar em água. As pessoas procurarão um certo refúgio na normalidade política.

“O Vox é uma cisão do PP, logo quem tem que se encarregar do Vox é o PP. A existência do Vox o que faz é alimentar o Podemos e a extrema-esquerda.”

Acredita num regresso ao bipartidarismo, mas em Madrid, nas últimas eleições, o PSOE foi terceiro, atrás do Más Madrid. Não acha que o partido de Íñigo Errejón pode ocupar o espaço deixado livre pelo Podemos de Pablo Iglesias?

Pablo Iglesias é uma pessoa muito inteligente. Eu não voto nele e tento que as pessoas não votem nele, mas não posso discutir que é uma pessoa que fez história. Penso que queria ser um [Alexis] Tsipras em Espanha, ser o presidente do governo e quando se convenceu de que não podia ser presidente quis ser vice-presidente. E penso que se convenceu de que é melhor representar um papel na história recente de Espanha do que ficar frustrado. Parece-me inteligente. Já Errejón, penso que tem um problema importante. Penso que o Más País ou Más Madrid, como o queiram definir porque não está claro, vai jogar uma carta que pode captar uma parte importante das novas sensibilidades, uma carta ecologista, verde. O problema é que em Espanha há tantos partidos que já se esgotou o valor cromático. Já não há cores. Então, é um problema.

As sondagens nacionais apontam para uma possível maioria entre PP e Vox. O PSOE está em crise?

Penso que se a pergunta que se colocar aos espanhóis amanhã for se apostam num governo entre PP e o Vox, não o vão fazer nunca. Quanto mais sondagens houver que apontem para essa combinação com a extrema-direita, mais se consolidará a esquerda. Não tenho a menor dúvida. Essas sondagens podem responder a uma realidade, porque estamos num momento delicado a nível social e económico e uma pandemia que transtorna todos os momentos de análise, mas quando nos aproximamos do momento eleitoral, da hora de decidir, o espanhol normalmente decide pelo centro. E não acredito que queira passar da influência de um extremo, do Podemos, à influência de outro extremo, que não comparo, porque são distintos, que é o do Vox. De maneira que por vezes essas sondagens fabricam-se na esquerda. Não digo que é o caso, mas…

Tem ambições políticas nacionais?

Eu já estou na política nacional. Eu coloco Espanha antes de Castela-Mancha. Mas nem sequer pensei ainda se vou voltar a ser candidato em Castela-Mancha.

Emiliano García-Page no Palácio Palhavã.

© Gerardo Santos / Global Imagens

Castela-Mancha tem quase 80 mil quilómetros quadrados e dois milhões de habitantes. Costuma falar-se da ideia de “Espanha vazia”, de abandono do interior. Mas vocês apresentaram um plano para tentar lutar contra isso…

Sim, temos uma alternativa muito clara. Mas há que analisar com detalhe este fenómeno. Porque em Espanha os partidos políticos preocuparam-se com a ideia de “Espanha vazia” simplesmente por uma questão eleitoral, porque algumas províncias com pouca população acabaram por ser decisivas. É o que acontece quando uma só província pode decidir quem governa em Espanha. Não é um bom funcionamento democrático. Mas, dito isto, o fenómeno é mundial. Onde existe maior despovoamento é nas zonas rurais e para onde existe mais migrações é para as zonas urbanas. O que nós queremos combater é a desigualdade. Que as pessoas possam viver em qualquer sítio ficando à mesma distância de um hospital, em caso de enfarte, ou que possam ter acesso a uma universidade. E isso em Espanha é perfeitamente possível, assegurar que vivas onde viveres vais ter o mesmo serviço médico, educativo, social. É perfeitamente possível. Não o vejo como um drama. O que há em Espanha é uma sociedade mais esquecida. O que é preciso evitar é a segunda velocidade nos serviços públicos. Porque as pessoas vivem onde quiserem e o maior problema que agora têm as sociedades ocidentais é haver cada vez menos crianças. O problema do despovoamento tem duas formas de abordagem: uma é fazendo mais crianças e outra é igualando os serviços dos que já não são tão crianças.

Assistimos à chegada de milhares de migrantes a Ceuta. Castela-Mancha aceitou receber 14 menores desacompanhados. Esta não podia ser uma solução para o problema do despovoamento?

Não, de forma alguma. A cidadania plena, a nacionalidade, adquire-se por nascimento ou um largo período de convivência. O problema da natalidade em Espanha não se pode ultrapassar com imigrantes. E o problema da imigração tem de ser objeto de uma política de Estado que já nem é do âmbito do Estado, é do âmbito europeu. Porque Espanha é fronteira da União Europeia e na realidade a maioria dos que entram em Espanha não terminam em Espanha, vão para a Alemanha, para França… Uma vez dentro já têm liberdade de fronteiras. É preciso chegar a um grande consenso, um grande acordo, e evitar a demagogia e o populismo quando em jogo estão vidas humanas. Na realidade o que se passa em Ceuta é um problema de política externa. Antes a política externa fazia-se com diplomatas e também com armas. Agora faz-se com vidas humanas. É triste.

Veio a Lisboa para apresentar o Festival de Teatro Clássico de Almagro, que neste ano tem Portugal como país convidado. É uma maneira de melhorar a nossa ligação?

O festival de Almagro é um dos grandes eventos culturais da Europa e nesta especialidade é único. Penso que esta é uma oportunidade muito boa com Portugal. Primeiro por questões de vizinhança e depois porque realmente os dois partilhamos quase a mesma Época de Ouro [nome dado ao período entre os séculos XVI e XVII] e aos dois interessa que volte a haver uma época de ouro. Isto obriga-nos a procurar otimismo e a recuperação de mãos dadas. Almagro é um cenário extraordinário para pôr ênfase nos interesses comuns. E tirar do fundo do poço a indústria cultural, que sofreu com a covid tanto em Espanha como em Portugal. Tem de vir aí uma nova etapa. A cultura é um valor moral, um valor espiritual. Como a educação. Não se estuda só para trabalhar. Estuda-se para melhorar as condições de vida e as competências intelectuais. Quanto mais se estuda, mais cultura há, mais pessoas somos, mais seres humanos.

Falou da covid. Como está a situação em Castela-Mancha?

Está a melhorar rapidamente. Estamos num momento de transição. Mas no mês de agosto, o mais tardar, teremos 70% de toda a população vacinada. A com mais de 50 anos vai ficar vacinada em poucas semanas e isso muda totalmente o debate. Vai continuar a haver casos, haverá limitações, mas a vacinação faz-nos passar do medo à prudência.

Em Lisboa também se encontrou com o secretário de Estado das Infraestruturas. Para discutir a questão do comboio de alta velocidade?

Espanha tem todos os investimentos em matéria de alta velocidade muito avançados. Obviamente esta é uma decisão que cabe a Portugal. A comunicação ferroviária de mercadorias e passageiros é importante. Distraímo-nos muito com o conceito de alta velocidade, mas na realidade para nos entendermos o que importa é ter uma boa ligação ferroviária, nas melhores condições possíveis. Ninguém discutiu na história a ligação entre Madrid e Lisboa por comboio tradicional e, contudo, obviamente, se está em crise é por uma questão de eficácia de tempos, porque não é útil. A vida mede-se em tempo, não se mede em quilómetros. O ritmo mede-se em tempo. Mais cedo ou mais tarde deixará de haver uma discussão, haverá fundos europeus. Seria muito bom que tanto Espanha como Portugal aproveitassem o novo impulso europeu que vai haver depois da covid-19 para rematar infraestruturas que nos façam mais fortes aos dois.

Defende essa necessidade de Portugal e Espanha falarem a uma só voz na União Europeia…

Acho que em Bruxelas nos veem com mais unidade do que nós mesmos. Essa é a realidade. Não acho que no mundo alguém olhe para o mapa e não entenda que Espanha e Portugal são a mesma unidade geográfica, com diferente história e cultura, mas com uns laços de fraternidade imensos. Pertencemos ao mesmo clube militar, a NATO, ao mesmo clube político, estamos no mesmo projeto europeísta de fundar de novo uma grande sociedade europeia em que podemos caminhar rumo à globalização. Espanha e Portugal não têm um peso específico para ir atrás da globalização, precisamos no mínimo da dimensão europeia. Não há uma alternativa ao europeísmo.

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LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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