Por uma ciência aberta e acessível

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Num episódio da série Dr. House , a equipa do famoso médico confronta-se com um mistério: uma jovem é diagnosticada com a doença do sono apesar de nunca ter saído dos Estados Unidos. Como sempre, House resolve o problema recorrendo a um caso identificado por um investigador português e relatado na revista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical: o doente contraiu a doença do sono por transmissão sexual, em vez da picada de mosquito infetado.

A história foi recordada por João Neto, Diretor do Museu da Farmácia, um dos nossos mais preciosos tesouros museológicos, num painel dedicado ao «Português como Língua de Ciência», integrado no encontro Ciência22 que decorreu na semana passada em Lisboa. Promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) em colaboração com a Ciência Viva, teve este ano como mote Construir o Futuro com a Ciência . O programa integrou 6 sessões plenárias e 66 sessões temáticas, sendo um espaço de debate e interação não só entre investigadores, mas também empresários, estudantes e público em geral.

O debate sobre as línguas de ciência foi vivo e controverso, visto que se trata de uma questão complexa que, por isso mesmo, requer respostas plurais. Nessa mesma semana, foi lançado em Lisboa um estudo promovido pela OEI e pelo Real Instituto Elcano, intitulado O português e o espanhol na ciência: notas para um conhecimento diverso e acessível , da autoria do investigador Angel Badillo, elaborado com os contributos de representantes de agências nacionais, investigadores, responsáveis de repositórios e editores científicos.

O episódio do Dr. House pode levar à resposta mais simples e óbvia: se a publicação não estivesse em inglês, dificilmente chegaria ao conhecimento, neste caso dos produtores da série, mas sobretudo de outros investigadores, tornando possível um diálogo científico essencial.

O espanhol e o português representam mais de 800 milhões de falantes (…), 11% da população mundial, mas apenas 1% da produção científica indexada a nível global se publica nestas duas línguas.

Contudo, o estudo referido coloca outras questões igualmente decisivas que se cruzam com a questão das línguas de ciência. Desde logo, a tendência para o monolinguismo na ciência tende a criar uma segregação das visões do mundo, além de dificultar o contributo dos cientistas (e são muitos) que não dominam o inglês. Por outro lado, num momento em que a ciência é cada vez mais central no nosso quotidiano, como demonstrou a pandemia, importa que ela chegue aos cidadãos, em especial às novas gerações, contribuindo também para promover vocações científicas a nível global. Também por essa razão é tão relevante divulgar ciência em várias línguas e não apenas em inglês, alargando as possibilidades de inclusão de cientistas e públicos.

No passado mês de novembro, a UNESCO aprovou uma recomendação sobre Ciência Aberta, «um conceito inclusivo que combina vários movimentos e práticas destinadas a tornar o conhecimento científico disponível, acessível e reutilizável para todos, aumentando as colaborações científicas e a partilha de informação em benefício da ciência e da sociedade, e abrindo os processos de criação, avaliação e comunicação do conhecimento científico a atores da sociedade para além da comunidade científica tradicional». Recomenda ainda que se promova a bibliodiversidade (praticamente a produção científica está reduzida a artigos e desapareceram os livros) e seja incentivado o multilinguismo na prática da ciência, em publicações científicas e em comunicações académicas. Trata-se de uma proposta que altera muitos dos caminhos estabelecidos, com implicações até na avaliação das carreiras universitárias, introduzindo uma reflexão necessária sem deixar de ser complexa.

O espanhol e o português, em conjunto, representam mais de 800 milhões de falantes de duas línguas próximas, 11% da população mundial, mas apenas 1% da produção científica indexada a nível global se publica nestas duas línguas. Como sugeriu Elvira Fortunato, Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, na sessão de lançamento do estudo sobre o português e o espanhol na ciência, importa capitalizar a dimensão desta comunidade e potenciar as redes de cooperação científica. Mas, conforme sublinhado no debate, é também necessário investir em ferramentas de tradução automática com recurso a inteligência artificial, apostando no desenvolvimento das tecnologias da linguagem. Será possível, por esse meio, alcançar o objetivo de produzir ciência numa língua e divulgar em todas as línguas que a tornem mais participada. Todos ganharemos e, sobretudo, ganhará a diversidade e o direito à ciência.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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