O risco do «apartheid politicamente correto»

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Limitar a luta por uma sociedade diversa, plural e justa para todos à afirmação identitária de cada grupo, mesmo em condições de plena igualdade, não será uma espécie de «apartheid politicamente correto»?

A pergunta precisa de ser feita, face ao atual caráter fragmentário, fechado e excludente das lutas sociais. Tais características, com efeito, devem preocupar aqueles que verdadeiramente pugnam pela construção de sociedades diversas, plurais, democráticas e justas, mais do que procurar apenas reparação para os grupos ou comunidades a que pertencem.

Essa busca de reparação, obviamente, faz parte da luta em questão, mas não a esgota. O objetivo último de todas as lutas sociais legítimas deve ser restaurar a autêntica humanidade, que, na sua essência, é una, quaisquer que sejam os traços identitários de cada grupo. A tendência para limitar as lutas sociais à afirmação e defesa de identidades particulares é um obstáculo à construção de uma humanidade plena.

As afirmações identitárias, acrescente-se, são necessárias, pois é próprio das forças dominantes e exploradoras menorizar, discriminar e reprimir as identidades historicamente subalternas, mas as forças radicalmente democráticas não deverão dar-se por satisfeitas com o reconhecimento e afirmação, maior ou menor, por parte do chamado sistema, das referidas identidades, pois tal reconhecimento e afirmação nunca serão plenos sem uma alteração profunda das estruturas do próprio sistema.

Sejamos claros: o atual sistema hegemónico (planetariamente) chama-se capitalismo, que, do ponto de vista social, se baseia (ou promove, como quisermos) na diferenciação dos diferentes grupos conforme a classe a que pertencem, mas também de acordo com outros fatores, como, só para dar um exemplo, «raça»; mas esses outros fatores estão longe de ser estruturantes ou definidores do sistema capitalista, pelo que não basta, por exemplo, a existência de milionários negros para eliminar as desigualdades sociais, incluindo «raciais».

O que, antes de mais nada, explica a necessidade das afirmações identitárias é um sentimento inerente à natureza humana: o ressentimento. Lembro aqui um ditado português: – «Quem não se sente não é filho de boa gente». Ou seja, é impossível esquecer todas as políticas e atos atentatórios da dignidade humana praticados, ao longo da história, pelos grupos, classes e nações dominantes contra os «outros» (os negros, os povos originários, os colonizados, as mulheres, os homossexuais e tantos outros). Como negar a todas essas vítimas o direito ao ressentimento? Não tenho dúvidas: o ressentimento é o primeiro passo na luta pela justiça.

Assim, movimentos e campanhas pela reparação de grupos e identidades historicamente exploradas e aviltadas fazem todo o sentido ainda hoje, sem esquecer, entretanto, os contextos em questão. Isso é uma coisa. Outra é limitar a luta por uma sociedade diversa, plural e justa para todos à afirmação identitária de cada grupo, mesmo em condições de plena igualdade.

Um equívoco particular é a crença de que, no limite, cada grupo deve falar por si próprio, sendo vedado aos outros qualquer manifestação de empatia e muito menos a possibilidade de participar conjuntamente nas lutas sociais levadas a cabo por grupos de que não sejam originários. Trata-se de uma grotesca distorção do conceito de «lugar de fala», a que o grande pensador brasileiro Muniz Sodré chama «enclausuramento».

Diz ele: – «É preciso abrir espaço para a dúvida do outro, ainda que essa dúvida venha forrada por algum preconceito. Então, abrir o lugar de fala não é ser fraco, leniente. É querer dar lugar à fala do outro. Se a fala do outro é verbal, você tem de escutar. Por isso, eu acho que dizer que ´só quem fala de negro é negro´ é um enclausuramento. Pode falar equivocadamente, mas, ao escutar, você abre espaço para o diálogo se estabelecer. Você ´cancela´, porque você não suporta o lugar de fala do outro. Se você não suporta o lugar de fala do outro, a sua posição é fraca».

Escritor e jornalista angolano

Diretor da revista África 21

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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