O infame soldado Shyshimarin

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Oleksandar Shelipov . Este nome é um entre milhares. Não vamos retê-lo, como poderíamos. É só mais um dos mortos ucranianos – mais um dos muitos milhares de civis ucranianos chacinados nestes três meses. Tinha 62 anos e ia pela rua, de bicicleta, ao telefone. É o que sabemos dele. E é o que o homem – o rapaz, cara de miúdo, olhos baixos, tristes – que o matou diz que viu: um homem ao telefone que podia denunciá-lo e aos companheiros. E por isso, diz, disseram-lhe para disparar e disparou.

Um civil na rua, desarmado, distraído. Nunca saberemos se morreu porque os soldados russos tinham medo ou porque tinham armas e era possível e fácil, como num jogo de computador, disparar sobre um homem que não conheciam, de um país que estavam a invadir, como se fosse de outra espécie.

Como, mostra-nos o New York Times numa extraordinária investigação publicada quinta-feira 19 , sucedeu a vários homens feitos prisioneiros por militares russos em Bucha. Mortos por nada, só porque era possível, só porque eram ucranianos.

Abatidos num pátio, foram descobertos pelas famílias ao fim de um mês. O NYT reproduz as últimas conversas com os familiares e amigos antes de serem apanhados, quando estavam escondidos numa casa. Um disse à mulher «ligo quando ligar». Não ligou mais. Sem poderem sair à rua para os procurar, os familiares e amigos escreveram apelos nas redes sociais. Só depois de os russos abandonarem Bucha deram com eles: são deles os cadáveres que vimos, no início de abril, de mãos amarradas atrás das costas, num lugar cheio de lixo.

Talvez os que os mataram tivessem um rosto e uma voz como os do rapaz que matou Shelipov, tão difícil de odiar. Uma cara assim, de miúdo perdido, envergonhado, voz de lamento ao responder à viúva que o confrontou em tribunal , que lhe perguntou: «Vieste aqui defender-me? De quê? Do meu marido que mataste?».

«Sei que não me pode desculpar mas peço desculpa. Acho o que fiz inaceitável» , diz ele, Vadim Shyshimarin, 21 anos. O tribunal não acreditou no arrependimento, não acreditou que ele não queria matar Shelipov. Condenou-o a prisão perpétua. Há recurso disto, talvez haja até troca de prisioneiros e Shyshimarin possa voltar à Rússia e à mãe.

A viúva do homem que matou, que o olhou em tribunal aparentemente sem raiva, calma, sóbria, aceita isso. «Acho que devia ter a pena perpétua. Mas se tiverem de o trocar pelos nossos heróis de Mariupol, não estaria contra isso.»

Os heróis de Mariupol são os combatentes de Azovstal, que agora se renderam. Aqueles para os quais no parlamento de Moscovo há quem exija pena de morte, sem necessidade de prova de crimes – basta haver ali membros do famoso batalhão Azov para merecerem a morte . Porque são, alegadamente, nazis, e porque foi, alegadamente, devido aos nazis ucranianos, para desnazificar, que Putin ordenou a invasão – e Moscovo precisa talvez de provar essa motivação, se é que Moscovo acha que tem de provar alguma coisa.

O mais extraordinário é haver também fora do Kremlin e da Rússia quem, aparentemente, ache que sim, que faz sentido julgar aqueles homens e mulheres. Com base, ao que parece, na sua ideologia, nas tatuagens que revelam a sua ideologia. Foi o que me pareceu ouvir na semana passada alguém – um militar de nome Agostinho Costa – defender na TVI. Além de apelidar de «mercenários» os membros desse batalhão, o que é um pouco estranho porque uma das principais acusações que se faz à Ucrânia é tê-lo integrado, e a outros grupos paramilitares nacionalistas e de extrema-direita, nas suas forças armadas (por sinal algo que organizações como a Amnistia Internacional defendiam), discorreu, enojado, sobre as tatuagens que esses combatentes exibiriam no seu corpo.

Independentemente do que penso sobre ser-se nazi, do que, creio, qualquer pessoa que defenda os direitos humanos pensa sobre ser-se nazi e a repugnância que em relação a isso sente, quem é que pode defender sequer que combatentes devem ser julgados por esse motivo – o de terem tatuagens de suásticas ou de outros símbolos nazis? Quem é que, defendendo os direitos humanos e as leis da guerra, pode sequer insinuar tal coisa?

Algo de muito errado se passa quando perante a evidência das atrocidades e crimes de guerra russos – não há neste momento ninguém com um módico de honestidade que possa negar a insuportável avalanche de evidências de práticas criminosas , que de resto foram já provadas e condenadas por tribunais internacionais noutras ações das forças armadas russas, como a invasão da Geórgia em 2008 , e que as organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch , assim como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa , estão a denunciar – há gente que parece mais preocupada com as tatuagens dos membros do batalhão Azov, a repetir «o neonazi batalhão Azov» de cada vez que o refere, e com a existência de extrema-direita na Ucrânia.

Não porque não seja preocupante haver nazis ou gente com simpatia pela ideologia nazi nesse batalhão e noutros das forças armadas ucranianas; é-o evidentemente, como em quaisquer forças armadas ou polícias no mundo, e mais ainda num cenário de guerra. Mas porque perante crimes em catadupa, execuções como as que ocorreram em Bucha, perante o bombardeamento sistemático de alvos civis, perante as acusações de violações e toda retórica do Kremlin sobre a Ucrânia, ante a clareza da deliberação de diabolizar um país e um povo através do apodo de nazis, quem insiste no caráter nazi do batalhão Azov sem sequer apontar um crime que lhe seja imputado nesta guerra está simplesmente a repetir a propaganda do invasor; está simplesmente a ser cúmplice de uma estratégia de desumanização que, já agora, é o bê-á-bá do nazismo.

Olhemos para os crimes cometidos; olhemos para os mortos, para a crueldade desalmada da destruição de um país por desígnio imperial e colonial. Olhemos para o rosto imberbe de Vadim Shyshimarin. Que se saiba, não tem suásticas tatuadas. Não sabemos nada da sua ideologia, se tem alguma, nem do que pensa desta guerra, da Ucrânia, das ordens de Putin. Só que entrou num país num exército conquistador e matou um homem qualquer, porque achou que podia. E isso sim é imperdoável.

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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