O bicho biográfico - EntornoInteligente

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Até certa altura, o romance tem animais por todas as páginas, chega-se a pensar se Rui Cardoso Martins não escreveu uma fábula. Pombos, ratos, polvos, morcegos, lavagantes, baleias, formigas, dentes de tubarão, lagartas, caruncho, pele de porco, filhas que são burras, aspas feitas com os dedos “como orelhinhas de coelho nervoso”, etc. Depois, parece humanizar-se, aí pelo capítulo oitavo, quando é narrada a história de um aparelho de rádio que vem da II Guerra Mundial. (Primeiro desenterro, virão outros.) Mas é temporário e percebemos, com o regresso da zoologia, que a epígrafe do poeta Manoel de Barros e o título  O Osso da Borboleta  são tudo menos cândidas metáforas.

Algures a meio de Portugal, na foz dum rio, com fábricas de celulose, um homem vive refugiado num terceiro andar (“a clandestinidade cá de cima”, explica ele), com acesso ao algeroz, onde ficam presas as pombas (ou pombos) que aproveita para fazer canja, fervendo água que recolhe em alguidares. Junta-lhes o arroz que tem em abundância numa das divisões (comprou e acomodou uma tonelada, aproveitando os arrozais da região) e é ele que vai contando esta história tão altamente inverosímil que, quanto mais pormenores tem, mais alucinada parece. Um dos primeiros episódios é um pesadelo aeronáutico que o narrador parece ter contado à pomba caçada no algeroz e a quem, no fim, se desculpa: “Não tremas, pomba, e desculpa esta seca mas nunca falo com ninguém. Eu passei por esta coisa maluca e portanto existiu.”

É esse o dispositivo do romance: um realismo no limite, o retrato do inconcebível. Ou, pelo menos, não é previsível uma personagem que colecciona numa vitrine deuses da antiguidade em miniatura que, estando na companhia de bonecas Barbie, são colocados com estas em posições sexuais e depois sujeitos a sermões porque “não fodem nem saem de cima”. A normalidade quotidiana é aqui indestrinçável da loucura, mas é como se regressássemos ao mundo bizarro da pobreza cujas personagens foram os heróis de Raul Brandão.

São vidas no fim: no fim do tempo que lhes resta, sobretudo no fim de todas as possibilidades que se lhes abriram e que estão agora totalmente fechadas. O protagonista diz: “Projectos para o futuro? Tenho é bons projectos para o passado.”

É pior ainda com D. Purificação, a vizinha velha do rés-do-chão. A sua arte da sobrevivência está de tal modo desenvolvida que arranjou forma de comer sempre a mesma coisa às três refeições, uma torrada e um galão, ou melhor, porque a descrição aqui é importante: “um galão com três pacotes de açúcar, uma torrada de pão de forma em dois andares escorrendo manteiga, cortada em três secções, e as do meio comem-se no fim porque são mais manteiga do que pão, até que o queixo cintila, os olhos se fecham e não se pensa na chamada vida, só nos prazeres da gordura e do sal.”

Neste limite da sensação, avesso ao pensamento, distinguir humano de animal torna-se redundante. Ou mesmo separar quaisquer reinos viventes. D. Purificação vive um conflito perpétuo com plantas que tem no saguão da casa alugada e trata-as como se fossem pessoas que optam pelo enfezamento: “Cresce, puta, cresce! Oh que raiva, que raiva. Cresce!”, diz-lhes enquanto as rega. O narrador também testemunha as visitas de Pilar, filha de D. Purificação, e o estado da vida familiar fica à vista no começo da conversa: “Vens bisbilhotar a miséria ou estás outra vez sem telhado?”

A população deste mundo radicalmente empobrecido e imóvel é toda assim. A Cândida Peixeira, a Amélia do Ritz, o Jaime Vadio, ou o Dundum (“o homem que fala como um spray”) não são bem povo, são restos de vidas. Exemplares de uma espécie a extinguir-se que transportam consigo, não uma história completa e clara, mas o rasto de qualquer coisa que lhes aconteceu e que não sabem o que significa, ou se significa. Parte deles vive num prédio nunca acabado, conhecido como Naufrágio da Marginal. Um estudante quer estudar esta “comunidade” de sem-abrigo mas a ideia perde-se nas exigências da coordenadora do mestrado, no lapidar comentário do amigo (“Problema do caralho”) e nos ouvidos da D. Purificação que estava a ouvir a conversa e que conclui que o estudante, “como tantos virtuosos, tem alma de chantagista”.

São, em suma, seres que tudo o que têm por dentro é o que têm por fora, exosqueletos, como as borboletas. Nos versos de Manoel de Barros, “coisinhas”. E o livro soleva essa pergunta: que intenção faz narrar a vida destas “coisinhas”?

Qualquer romance digno de si indaga o que significa ser humano. No limite inferior, a indagação de O Osso da Borboleta refere-se a Portugal na era da austeridade. Para isso era preciso que sobre esta galeria de falhados pairasse uma tese. Mas não se faz uma tese com a bibliografia deste narrador fugido à polícia: a  Grande Enciclopédia Ilustrada dos Parasitas e Hospedeiros Acidentais e Obrigatórios  ou a muito necessária mas nunca escrita  Grande Enciclopédia Ilustrada dos Legítimos e Bastardos do Olimpo . O limite superior da ambição antropológica do romance é preferível. E esse, não só reconduzirá à família de Raul Brandão (Rui Cardoso Martins não costuma mencioná-lo em entrevistas, mas refere a sua admiração pelos clássicos da prosa russa), como fará sentir a importância da segunda epígrafe do livro: os versos de Emily Dickinson, aliás transcritos com erro, falam do eu como fantasma de si próprio, mais perigoso que um assassino escondido na nossa própria casa.

A segunda parte do livro revelará uma história de jogadores, de extorsionistas, de assassinos, precisamente. Manterá sempre presente a memória (esfarrapada) de judeus exilados em Portugal nos anos 40, já ela mesma uma memória de sobreviventes e uma história de objectos alienados. Sempre com uma história dentro de si, o homem é um animal narrativo, criatura que nunca vive sem (se) escrever, bicho biográfico. Mas a parte final do livro é também uma história de partos, de crianças que nascem fora de tempo e de planos. Se a zoologia que a acompanha é, de início, a de lampreias e sanguessugas, se prossegue com uma metamorfose da Borboleta capaz de matar um zangão à pazada, o crítico deixa para o leitor, com estes enigmas, o prazer de discutir o sentido ajustado para a frase final do refugiado: “Acho que vamos sair vivos desta fábula.”

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