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‘Neurônios-Gandhi’sofrem na pandemia

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Nos anos 70 da Era Analógica, o “Pasquim” entrevistou a não menos famosa atriz Rogéria, morta em 2017, que se dizia “a travesti da família brasileira”. Perguntaram à Rogéria se já havia transado com mulher. A resposta: “Uma vez, na Itália, uma lésbica me cantou”. O Pasquim: “Como foi?”. Ela: “Não deu certo. Muita gente na cama”. Décadas mais tarde, o trabalho original do pesquisador Michael Graziano, da Universidade Princeton, dá uma coloração ainda mais extraordinária à resposta de Rogéria. Graziano, autor de uma “teoria social da consciência”, diz que, numa simples conversa entre duas pessoas, na verdade, quatro estão presentes: “Temos as duas pessoas, e as versões subjetivas que cada uma projeta sobre a outra”. Interessante. Mais ainda num tempo em que as pessoas podem se encaixar em quase seis dezenas de gêneros.

No livro “Consciousness and the Social Brain” (Consciência e o cérebro social), Graziano diz que saber quem você realmente é não constitui apenas o grande desafio de um mundo hiperconectado, mas contém a chave para o mistério mais duradouro da essência humana. Em seu laboratório em Princeton, Graziano tenta entender como esse mistério poderá um dia ser transferido para um ente de inteligência artificial, da mesma maneira que hoje o funcionamento mecânico da mente, na forma de algoritmos e informação, tem sido reproduzido com crescente e preocupante sucesso por computadores.

Diz Graziano: “Nossos corpos físicos são frágeis demais e inadequados para a colonização do universo. Essa aventura terá que ser empreendida por máquinas com consciências humanas, ou seja, que saibam ser portadoras desse mistério de pertencermos a um grupo social”. Complicado? Nem tanto. Mogli, o Menino Lobo, criação do inglês Rudyard Kipling e reinventado pela Disney, é uma versão fictícia de raros casos reais registrados na Índia. Bebês abandonados criados por animais selvagens crescem sem saber que são humanos e, quando encontrados e adotados por pessoas, aprendem por imitação. Principalmente, eles aprendem com os pais o mistério da espiritualidade, da transcendência como um drible na inevitabilidade da morte, talvez o mais agregador de todos os sentimentos humanos. Conclui Graziano: “Fora as exceções patológicas, todas as pessoas são dotadas de cérebros sociais que projetam versões dinâmicas de si mesmos sobre os outros e capturam as versões também em constante mutação projetadas pelos outros”.

PUBLICIDADE “Engenheirar” esse mistério não parece missão para um laboratório de neurocientistas. A poesia, melhor ainda do que a filosofia, tem a pegada para isso. “Eu contenho multidões”, escreveu o americano Walt Whitman. “Cada um é muitos”, reverberou seu admirador, o português Fernando Pessoa. “De tantos homens, que sou? Que somos? Não posso encontrar nenhum” (Pablo Neruda) ou “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta” (Mário de Andrade).

A convivência humana é um complexo jogo de espelhos, cujas regras os cientistas da mente, porém, não desistem de tentar entender. O neurocientista norte-americano nascido na Índia Vilayanur Ramachandran é um desses abnegados. É dele o conceito dos “neurônios-espelho”, logo apelidados de “Neurônios Gandhi”, por estarem ligados ao sentimento de empatia, à capacidade de entender e compartilhar o sofrimento alheio. Seriam esses neurônios os responsáveis pelo riso contagiante, ou que nos fazem bocejar quando alguém do nosso lado boceja, ou que transformam um berçário numa cacofonia de lamentos barulhentos de bebês depois que um começa a chorar.

A preocupação da psicóloga Kimberly Quinn, Ph.D., professora do Champlain College, é que essa capacidade de aprender pela observação seja tão menor quanto maior a exposição das pessoas, em especial das crianças e dos jovens, à internet. Em artigo no último número da revista “Psychology”, a doutora Quinn levanta a hipótese de a pandemia de Covid-19, ao turbinar nosso tempo grudado nas telas digitais, estar nos transformando em “robôs-corona”. Diz ela: “São inúmeros os estudos mostrando que nossos neurônios-espelho não percebem os contatos por telas da mesma forma como os de comunicação presencial, face a face”.

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LINK ORIGINAL: OGlobo

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