Moradores do Centro protestam contra migrações do 'fluxo' da Cracolândia pela região, gerando insegurança e comércio fechado

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Eleições Onda de frio Série Musas dos Anos 90 +Milionária Homeschooling Moradores do Centro protestam contra migrações do 'fluxo' da Cracolândia pela região, gerando insegurança e comércio fechado Desde quando foram retirados da Praça Princesa Isabel pela polícia, na semana passada, os usuários de droga já ocuparam dois diferentes endereços: a rua Helvetia, entre a rua Barão de Campinas e a Avenida São João, e agora na esquina da Av. São João com a rua Frederico Steidel. Por Anselmo Caparica, SP1 — São Paulo

19/05/2022 14h42 Atualizado 19/05/2022

Moradores do Centro fazem novo ato contra migrações da Cracolândia na região

Moradores de bairros como Santa Cecília, Campos Elíseos e Barra Funda, no Centro de São Paulo, fizeram mais um protesto na noite desta quinta-feira (19) no Minhocão contra as constantes mudanças do chamado ‘fluxo’’ de dependentes químicos da Cracolândia pelas ruas do bairro.

Desde quando foram retirados da Praça Princesa Isabel pela polícia, na semana passada , os usuários de droga já ocuparam dois diferentes endereços: a rua Helvetia, entre a rua Barão de Campinas e a Avenida São João, e agora na esquina da Av. São João com a rua Frederico Steidel.

Essa constante mudança da Cracolândia têm tirado a paz dos moradores desses locais, que reclamam da falta de segurança e a sujeira causada pelo fluxo na porta de suas casas.

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A migração do fluxo também tem afetado o funcionamento do comércio e das empresas que ficam nesses endereços. A estoquista Nicole Fernandes é uma das afetadas pelo problema.

«Eles chegaram e na segunda foi isso, já na terça não conseguimos entrar [na empresa] Ficou uma coisa com medo, se eles fossem fazer alguma coisa, entrar nas lojas», disse ela.

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Sujeira, cheiro ruim e solução definitiva

Além da insegurança, quem mora no Centro também tem que conviver com o lixo deixado pelos dependentes químicos quando eles mudam de lugar. Mesmo que a prefeitura faça a limpeza do lixo, retirando bastante entulho desses locais, o mau cheiro no local permanece.

«Esse cheiro fica insuportável. mesmo quando a gente joga agua, fica um cheiro insuportável. Precisava ser feito uma bela lavagem, com produto, né? Porque é muita sujeira. eles fazem as necessidades deles na calçada… fica complicado», disse o assistente de serviços gerais, Fernando dos Santos, morador da rua Helvétia.

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A Anatiana Alves Rosa mora em um prédio nessa rua e explica como a presença do fluxo na porta de casa mudou a rotina de todo mundo.

«A gente fechou uma via do elevado pra chamar atenção do poder publico e sociedade civil do que vivemos aqui que é um caos. A vida das pessoas mudou completamente a rotina, os comerciantes não podem trabalhar, fecharam seus comércios, estão tomando prejuízo», declarou a moça.

Ela não quer simplesmente empurrar o problema para outra vizinhança. O que a Anatiana e outros moradores pedem é a solução definitiva do problema.

«O que a gente não quer pra gente a gente não quer pros outros. Não adianta sair da nossa rua e ir pra outra rua que as pessoas vão passar o que a gente tá passando. Porque a gente sabe o quanto é ruim. E também essas pessoas precisam de tratamento, não precisam de mais violência, força policial porque é uma questão de saúde publica», declarou.

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Ação do MPF

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública pedindo que a Justiça Federal obrigue o município e o estado a elaborarem um plano de ação para garantir o acondicionamento e a destinação adequados do lixo , de forma a evitar o descarte e a permanência dos resíduos nas ruas.

A ação pede ainda que a Anvisa acompanhe a evolução do risco à saúde dos pacientes, visitantes e funcionários do Hospital Pérola Byington, que será instalado em julho na Avenida Rio Branco, esquina com a rua Helvétia, em razão do acúmulo de toneladas de lixo no local.

O pedido do MPF abrange toda a região da Cracolândia, inclusive o endereço onde eles estão agora.

O que dizem as partes

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Procuradoria Geral do Município, informou que até a presente data não foi notificada processo, mas que está à disposição para prestar os esclarecimentos necessários.

Segundo a gestão Ricardo Nunes ( MDB ), a Secretaria Municipal das Subprefeituras, realiza ações diárias de zeladoria e limpeza em toda a cidade, inclusive nos endereços citados na ação, como Helvétia, Gusmões, Praça Princesa Isabel e Avenida Rio Branco.

«A região central conta ainda com 22.018 papeleiras. Além disso, em locais tidos como pontos viciados de descarte de resíduos, além da revitalização, as 32 subprefeituras realizam ações de fiscalização. Entre janeiro e março deste ano, foram recolhidas 17.825,97 toneladas de resíduos nas operações de cata-bagulho realizadas pelas equipes de Limpeza Urbana. No mesmo período, 56.145,05 toneladas de detritos foram recolhidas nos 121 ecopontos em toda a cidade», disse a nota da pasta.

De acordo com a secretaria, nos três primeiros meses de 2022, foram coletados 52.091,49 toneladas de resíduos descartados irregularmente nas ruas da capital. A gestão Nunes também diz que a atuação permanente de limpeza urbana impacto positivo para a cidade, diminuindo o número de pontos viciados de 4 mil, em 2016, para 1210 pontos atualmente.

1 de 2 O governador Rodrigo Garcia (PSDB) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) em visita ao Museu do Ipiranga, na Zona Sul da capital paulista. — Foto: Secom/GESP O governador Rodrigo Garcia (PSDB) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) em visita ao Museu do Ipiranga, na Zona Sul da capital paulista. — Foto: Secom/GESP

Já a gestão Rodrigo Garcia ( PSDB ), no governo de São Paulo, disse por meio de nota da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente que, em 2020, «o Estado tem prestado também auxílio e capacitação técnica aos consórcios de municípios com relação ao tema».

«O Estado concluiu a revisão do Plano Estadual de Resíduos Sólidos, instrumento que orienta a gestão destes resíduos nos próximos 15 anos. O trabalho foi realizado em conjunto com técnicos do poder público e recebeu 272 contribuições da sociedade civil, academia e setor empresarial na fase de consulta pública», disse a nota.

«Com relação à limpeza urbana e o descarte irregular de entulho, a destinação final de resíduos sólidos domiciliares é atribuição das prefeituras de acordo com a Lei Federal nº 11.445/2007, alterada pela Lei Federal nº 14.026/2020», completou a secretaria.

Plano de manejo do lixo

De acordo com o procurador da República Matheus Magnani, autor da ação do MPF, , usuários de crack encontram no lixo uma fonte para o financiamento do consumo da droga e os problemas humanitários e ambientais acabam sendo acentuados com o espalhamento de grande quantidade de dejetos pela cidade.

«É certo que a dignidade e saúde desses usuários devem ser objeto de grande preocupação do administrador público, todavia, quanto à temática ambiental – que é o objeto desta ação civil pública – há que se considerar que o tema está entrelaçado à má gestão de resíduos sólidos no município. Isso porque, graças à degradação na forma de vida dos usuários de crack, tais pessoas sobrevivem de revirar o lixo, contribuindo sobremaneira para um problema ambiental também bastante grave», escreveu Magnani.

2 de 2 Lixo acumulado na rua Helvétia, no Centro de São Paulo, segundo a ação do Ministério Público Federal (MPF). — Foto: Reprodução Lixo acumulado na rua Helvétia, no Centro de São Paulo, segundo a ação do Ministério Público Federal (MPF). — Foto: Reprodução

Segundo o procurador federal, a Prefeitura de SP e o governo paulista devem apresentar um plano na Justiça deve preveja a instalação de lixeiras invioláveis ou subterrâneas que comportem grande quantidade de resíduos, com maior número desses compartimentos destinado aos bairros centrais, onde o volume de lixo produzido é elevado devido à intensa atividade comercial.

Em caso de descumprimento do pedido, a ação pede que uma multa de R$ 100 mil diário seja aplicado a cada um dos entes federados.

Na ação do MPF, Matheus Magnani também propõe que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) seja condenada a acompanhar a evolução do risco à saúde dos pacientes, visitantes e funcionários do Hospital Pérola Byington, que será instalado em julho de 2022 na Avenida Rio Branco, nº 1162, esquina com a Rua Helvétia, em razão do acúmulo de toneladas de lixo no local.

«Em poucos meses será definitivamente instalado um hospital dentro da Cracolândia, ou seja, no epicentro do lixo na cidade de São Paulo. É certo que a instalação de um hospital em um edifício cuja calçada é tomada por toneladas de lixo, misturado a fezes, ratos e insetos, além de circundado por acampamentos de viciados em crack, não atenderá aos critérios sanitários mínimos de desenvolvimento da atividade de saúde, representando risco à saúde pública», declarou o procurador.

O g1 procurou a Anvisa e também não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.

Já a Prefeitura de SP diz que mantém 121 Ecopontos em operação, que estão abertos das 6h às 22h de segunda a sábado e das 6h às 18h, aos domingos e feriados, além de 145 mil lixeiras podem ser usadas para descarte correto de embalagens, garrafas de água e papéis, entre outros materiais.

«É primordial que a população não despeje lixo e entulho em vias públicas ou locais impróprios. O descarte irregular de material está sujeito a multa de até R$19.203,07, além de ser considerado crime ambiental, e quando se trata de descarte de entulho a multa pode chegar a 70 mil reais», declarou.

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LINK ORIGINAL: G1 Globo

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