Mira de Aire da indústria têxtil dá lugar a museu e fábricas familiares

mira_de_aire_da_industria_textil_da_lugar_a_museu_e_fabricas_familiares.jpg
Entornointeligente.com /

Conhecem-se há décadas, as famílias, os percursos, as datas de aniversários, tratam-se por tu, do chefe ao operário, são testemunhas dos tempos áureos da indústria têxtil em Mira de Aire e Minde (Leiria). Trabalharam na Tapetes Vitória, que nos finais do século passado não resistiu à concorrência asiática. Encerrou, como tantas outras. Há dois anos foi transformada em museu para preservar o património industrial da região e que, agora, está reduzido a unidades familiares. Resistiram duas fábricas.

O DN juntou no Museu Industrial e Artesanal do Têxtil (MIAT), inaugurado em Mira de Aire faz hoje dois anos, Dia Internacional dos Museus, seis antigos funcionários da Tapetes Vitória, fábrica inaugurada em 1924 e que resultou da Tapetes D. Fuas . Orlando Chareca, Urbano Pereira, Maria de Lurdes Costa, Maria da Conceição Andrade e João Grilo já passaram a casa dos 70 anos, enquanto Otília Rito tem 68. Recordam os trabalhos que faziam, como faziam, as vidas que ali viveram.

Nem todos tinham voltado às instalações fabris desde o fecho. «Passei, mas não entrei», justifica Maria da Conceição. Já Otília atira: «Quando soube que tinha aberto um museu, vim logo ver». Nos olhos, o mesmo brilho das boas recordações de outros tempos. As más foram os últimos anos e que levaram ao encerramento da empresa e a baixa reforma que ficou do tempo de operárias. Otília continua a trabalhar para fazer face às despesas.

Fechar Subscreva as newsletters Diário de Notícias e receba as informações em primeira mão.

Subscrever O painel A ascensão de Cristo, tapeçaria monumental fabricada na Tapetes Vitória, «única no mundo», refere um destacável sobre a peça na igreja da aldeia, onde está exposto. . Tem 12 metros de comprimento por 9,25 m, pesa 270 kg.

© Nuno Brites / Global Imagens)

A Tapetes D. Fuas foi fundada por José Dias Batista, António Batista e Manuel Amado. Os dois primeiros são o bisavô e avô de José Paulo Batista, 69 anos, empresário na área do turismo, que não descansou enquanto não comprou o edifício onde tudo começou para aí instalar toda a maquinaria do negócio de família. A fábrica encerrou definitivamente em 2010, depois do declínio desta indústria, em finais do século passado, e entrar em insolvência. Um processo de morte lenta, como aconteceu com muitas outras unidades têxteis da região.

«Mira de Aire tem cerca de 3800 habitantes, contando com os imigrantes. Temos várias comunidades: brasileiros, ucranianos, indianos, venezuelanos, moldavos. No auge do têxtil chegámos a ter 7000 residentes, vinha gente de todas as redondezas. Com a crise, deixou de haver grandes fábricas para empregar e as pessoas foram-se embora, muitos emigraram. Houve quem decidisse investir em pequenas fábricas, unidades familiares de duas ou três pessoas, que não garantem empregabilidade», explica Alcides Oliveira, presidente da Junta de Freguesia de Mira de Aire.

Mira de Aire tem cerca de 3800 habitantes. No auge do têxtil chegou a ter 7 000, a Tapetes Vitória ficava no centro da vila

© Nuno Brites / Global Imagens)

Restam duas unidades têxteis de maior dimensão, a Rosários 4, especializada no fabrico e tingimento de fios para tricô, croché e Arraiolos, e a Newplaids, maioritariamente de confeção de mantas, cobertores e colchas, mas já não empregam tanta gente. Esta última era a Têxteis Moinhos Velhos, fundada por Orlando Chareca, que esteve quatro anos na Tapetes Vitória. Os filhos, Telmo e Miguel, são dois dos sócios, investiram na maquinaria e na inovação. Tudo o que produzem é para exportação.

Existem ainda na freguesia duas fábricas de ceras e velas, a Manulena, a mais antiga e que também faz cosmética, e a Mirosa, constituindo ambas um polo de empregabilidade. Bem perto está o Santuário de Fátima, o destino da maioria dos seus artigos.

«Trazíamos os filhos» «O Urbano tinha mais 10 anos que nós, éramos novinhos, conhecíamo-nos bem», diz Orlando Chareca, 77 anos, técnico têxtil, chefe de tecelagem. Continua: «Era uma grande empresa nos anos 70/80 do século passado, tinha tudo, a fábrica, o refeitório, o infantário e até um dormitório para os que eram de mais longe. E tinha um café onde nos juntávamos. Não havia diferenças sociais, convivíamos todos» . A vila de Mira de Aire fica num vale da serra com o mesmo nome, vinham pessoas das redondezas, muitas a pé. Havia uma camioneta que passava nas localidades com mais operários, mas não era ao lado de casa.

Otília trabalhava em teares de tapetes, que começaram por ser totalmente manuais. Chegou a dormir na fábrica, numa cama de ferro, quando tinha de fazer horas para acabar uma peça. A empresa tinha dormitório, creche e refeitório.

© Nuno Brites / Global Imagens)

Otília Rito chegou a dormir na fábrica, numa cama de ferro, bem pequena. «Dormi aqui uma ou outra vez. Era de uma aldeia perto, Pessegueiro, em São Mamede [a 10 km de Mira de Aire], fazia 2 km para apanhar a camioneta, saia de casa às 06:45 . Dormia na fábrica quando fazia horas, quando tínhamos de acabar uma peça. As que pernoitavam toda a semana vinham de muito mais longe. Chegavam à segunda e regressavam a casa ao sábado. Sim, trabalhávamos aos sábados».

© Nuno Brites / Global Imagens)

Maria da Conceição Andrade ouve e acrescenta pontos. «Éramos solteiros quando entrámos, com 17/18 anos, muitos casaram-se aqui, tínhamos os filhos e trazíamos os bebés para a creche que tinha todas as condições. E a comida do refeitório era muito boa, a D. Celeste cozinhava muito bem» . Tem 76 anos e uma vida nos teares de carpetes. Começou como ajudante de tecelagem, primeiro num tear manual, depois no mecânico das carpetes. «Foi a minha segunda casa, saí com 60 e poucos anos, nunca conheci outro patrão e já vinha da casa deles, onde era doméstica».

Maria da Conceição é casada com João Grilo, da mesma idade, que veio de outra fábrica da zona. Nasceu naquela que classifica como a «cidade mais bonita do país», Castelo Branco. Chegou a Mira de Aire com 13 anos, com os pais que migraram para trabalhar. O têxtil foi para ele, como todos os jovens criados na agricultura, uma oportunidade de terem um ordenado certo ao fim do mês e, dizia-se também, com futuro. Tinham uma profissão.

João junto ao tear mecânico das fazendas, onde fazia os estofos.

© Nuno Brites / Global Imagens)

João Grilo trabalhava nos estofos, no tear mecânico das fazendas, uma das máquinas expostas. Explica como fazia: «Andávamos para a frente e para trás com um pente e depois, com as lançadeiras onde metíamos as cores, executávamos o desenho. O tempo que demorávamos a fazer cada peça dependia do ponto, se era mais apertado demorávamos mais tempo».

Otília Rito sempre trabalhou na tapeçaria. Entrou em 1967, tinha 13 anos. Foi chefe de secção. Reconhece alguns dos teares que manobrou na cave do museu. Manuais e que, na altura, foram substituídos por mecânicos, muito mais rápidos. «Fazíamos sete mantas por dia no tear mecânico, nos manuais fazíamos uma manta em quatro dias, conforme os tamanhos e os desenhos», explica Urbano Pereira, 85 anos, administrativo, responsável da contabilidade.

Orlando foi chefe de tecelagem e, em teares onde trabalhou, com Maria da Conceição, os dois demonstram como se tecia com a lã, ponto a ponto.

© Nuno Brites / Global Imagens)

Completou a instrução primária em julho e entrou na fábrica em novembro, como ajudante de puxador. Saiu 50 anos depois, quando a empresa faliu. Recorda-se bem dos anos de ouro, também do insucesso, dos problemas financeiros e da tristeza na despedida. «O dia em que os trabalhadores entram pelo escritório a pedir o pagamento dos salários em atraso foi terrível».

Maria de Lurdes Costa, 74 anos, era desenhadora. Entrou com 17 anos na fábrica e saiu com 62. «Nunca tive outro patrão, foram anos muito bons. A minha vida foi sempre mais para o criativo, personalizava as peças. Naquele tempo, o que se fazia eram cópias de desenho, aqui personalizávamos. Tínhamos encomendas de todo o lado, desde um tapete a condizer com uma almofada, sofá, etc., até aos grandes painéis e carpetes para igrejas e edifícios públicos».

Enumera alguns desses locais, em Portugal e no estrangeiro. Mas na igreja da freguesia está um dos mais emblemáticos e de maior dimensão. É o painel A ascensão de Cristo, tapeçaria monumental de fabrico manual, «única no mundo», refere um destacável sobre a peça. Tem 12 metros de comprimento por 9,25 m, pesa 270 kg. Demorou 45 dias a fazer, mais 80 para execução da maqueta e e quadrícula. Feito por 13 tecedeiras, entre elas Otília Rito.

Maria de Lurdes fazia os desenhos e personalizava-os.

© Nuno Brites / Global Imagens)

Maria de Lurdes chegou a ter seis pessoas na sua secção. No final, estava sozinha e num trabalho mais diferenciado. «Comecei a trabalhar em papel quadriculado, cada quadrado representava um ponto no tear. A certa altura, comecei a usar o computador. Tínhamos um programa, mas era eu quem executava os desenhos», conta. Muitos desses desenhos estão em exposição no Museu, no que seria o antigo escritório, bem como fotos e arquivos desses tempos. Maria de Lurdes continua a fazer arte, quadros, essencialmente para si.

Estão no primeiro piso do museu, junto ao dormitório, que reproduz o escritório. Há álbuns com fotos, que também estão espalhadas pelo museu. Reconhecem e lembram-se de muitas daquelas pessoas. Na sala ao lado, conta-se a história da Tapetes Vitória e explica-se as diferentes fases do processo de transformação da lã: tosquia, lavagem, tinturaria, cardação, fiação e tecelagem.

O piso inferior é dedicado à laboração, com as máquinas e os teares envolvidos nas etapas de produção, desde carpetes às peças de tecido para fatos, também muitos utensílios usados no século XX. Até um pequeno espaço de refeição, não faltando a bicicleta em que se deslocavam. O MIAT tem uma loja com vários artigos e produtos artesanais à venda. Só para efeitos de exposição, estão lá também as famosas mantas em lã de Mira de Aire para serem apreciadas pelo público.

Preservar a memória «Estava ligado sentimentalmente à indústria. Cresci aqui [Tapetes Vitória], acompanhei o meu pai em viagens de negócios, ele era agente da marca. Depois, na minha atividade como agente de viagens fui conhecendo museus ligados a esta área pelo mundo e sonhava em fazer a mesma coisa em Mira de Aire», conta José Paulo Batista, 69 anos, proprietário do museu.

Pensou em comprar o núcleo inicial da unidade fabril e onde tudo começou. No primeiro piso, ficava a cardagem e a fiação; no segundo, os teares. Os fios de lã vinham da Covilhã e eram ali transformados em mantas e carpetes. Quando começou a crescer ficaram nesse espaço os serviços sociais: cantina (mercearia), refeitório, infantário, berçário e dormitório. A produção passou para o edifício em frente, onde funciona a CHIcoração desde 2007, pequena unidade e que tem venda direta.

José Batista comprou o edifício sede da fábrica que a família fundou para criar o Museu Industrial e Artesanal do Têxtil.

© Nuno Brites / Global Imagens)

A concretização do sonho de transformar a antiga fábrica da família num museu começou há dez anos. Depois de várias reuniões com os bancos sem sucesso, conseguiu concretizar a compra em 2019. Não revela valores, apenas que está a amortizar os juros de uma dívida de 300 mil euros. As obras de restauro e de recuperação dos equipamentos levaram um ano, até tudo estar pronto para abrir as portas, em plena pandemia. Obrigados a fechar seis meses, só agora começam a ter um maior número de visitantes. Os mais assíduos são as crianças das escolas, e os idosos, dos lares e centros de dia. O bilhete normal custa seis euros.

Sem apoios públicos, o MIAT não tem tido vida fácil. José Batista tentou fazer uma parceria para que existisse um bilhete único na freguesia, onde incluiriam as Grutas de Mira de Aire, mas não conseguiu. «Não estou arrependido, faço gosto em poder dar continuação a um espaço de memória. Representa muito em relação ao que os meus antepassados fizeram, além do gosto em explicar o que se pode fazer a partir da lã, à semelhança do que existe em todo o Mundo».

A Tapetes Vitória entrou em insolvência e fechou definitivamente em 2010.

Concorrência asiática «O artigo manual não tinha concorrência, quando começou a vir do oriente não houve hipótese. Eles ganhavam menos e tinham menos condições do que nós, era impossível competir. Chegámos a exportar, para a Venezuela, Moçambique, Malaui – têm as nossas tapeçarias», diz Urbano Pereira.

A indústria têxtil em Mira de Aire e na freguesia vizinha de Minde cresceu nos primeiros anos do século passado, chegou a 1960 em franca expansão. Começou a regredir em finais do mesmo século.

Urbano começou num tear mas acabou na área administrativa

© Nuno Brites / Global Imagens)

«A partir do momento em que entrou o têxtil da China, Paquistão, Bangladesh, Vietname, o setor entrou em crise, aqui como em outras regiões. Na Covilhã, Guarda, fecharam todas as grandes empresas. Chamávamos à Covilhã a Manchester dos têxteis e não conseguiram competir com a mão-de-obra barata», acrescenta Orlando Chareca. São visíveis os edifícios das fábricas desativadas, muitos degradados.

Orlando Chareca não é filho da terra, mas foi lá que se desenvolveu profissionalmente. Entrou no setor pela mão do pai e com ele mudou da Covilhã para Mira de Aire, tinha um ano. Regressou à Covilhã para completar a escola primária e tirar o curso Têxtil na Escola Industrial (atual 9.º ano). Começou a trabalhar na indústria têxtil, despediu-se quando o obrigaram a picar o ponto. «Não entrava cedo, mas trabalhava até tarde», justifica.

Regressou a Mira de Aire e foi trabalhar para a Tapetes Vitória, onde foi chefe de tecelagem. Interrompeu a atividade para cumprir o serviço militar. Regressado à freguesia, compra um tear e, nas horas vagas, inicia-se por conta própria no fabrico de xailes. Sai da Vitória, onde esteve quatro anos, e funda a Têxteis Moinhos Velhos, em 1972. «Foram os bons anos da indústria», recorda Orlando Chareca. A empresa entrou em insolvência e os filhos, Telmo e Miguel Chareca, com outros sócios, pegaram no negócio em 2011. Já sem o pai, que deixou a unidade há 26 anos. Foi presidente da União Recreativa Mirense e dedica-se às artes plásticas, como conta (e ilustra) no livro Orlando Chareca, pintura que tece a malha da vida.

Reestruturar e reinventar A Têxteis Moinhos Velhos, que deu nome à rua onde se fundou, é a atual morada da Newsplaids. Chegou a ter 230 trabalhadores, agora são 100. «Estou aqui há 32 anos, desde 1990, o meu irmão também entrou e não saiu. Fizemos uma reestruturação da empresa, comprámos máquinas, lançámos novos algodões, cores e padrões», conta Miguel Chareca, 51 anos, o mais velho dos dois irmãos. «Fiz aqui a minha formação», acrescenta Telmo Chareca, 46, que tem filhos, mas dúvida que mantenham o têxtil na família.

Miguel e Telmo pegaram na Têxteis Moinhos Velhos, que o pai fundou, reestruturaram-na e inovaram-na.

© Nuno Brites / Global Imagens)

Fazem-nos uma visita à unidade fabril, grandes salas com máquinas gigantes a trabalhar sem o elemento humano. «No mesmo tempo em que se passava uma malha nas máquinas manuais passam-se agora 220», explica Miguel. E as máquinas automatizadas ajudam a minorar a dificuldade em conseguir mão de obra qualificada.

Nas fábricas atuais, como na Newplaids, as máquinas quase não precisam da mão humana

© Nuno Brites / Global Imagens)

O início do ciclo de produção começa na urdissagem (preparar o sistema de fios para desenrolar a teia de tecido). O tecido, que é feito com teia e trama – a partir do qual fazem mantas, cobertores, toalhas de mesa, artigos de criança, mantas para bebé -, passa depois para a confeção e as últimas etapas são a laminagem e os acabamentos, secções com mais mão de obra por artigo: costureiras que cortam e fazem as bainhas; funcionárias que controlam qualidade e a etiquetagem. É a empresa que faz a expedição das encomendas.

Continuam a usar a lã e misturas de lã, além de algodão e acrílicos. Trabalham em dois turnos, muitas vezes 24 horas por dia, fabricam 2400 peças por dia. Não têm stock, tudo o que produzem é por encomenda e só para exportação. «O nosso grande forte sempre foi a exportação. Todas as empresa da região estavam dependentes do mercado nacional e, com a crise, acabaram por encerrar. Com a exportação, focámo-nos na qualidade», justifica Telmo Chareca.

Trabalham para grandes cadeias internacionais, nomeadamente dos EUA, Canadá, Europa, Japão. Os grupos nacionais preferem continuar a abastecer-se na Ásia, embora muitas das mantas que a Newplaids fabrica chegue a Portugal através das cadeias de lojas espanholas e americanas.

Os acabamentos e a etiquetagem são as últimas fase de produção da Newplaids

© Nuno Brites / Global Imagens)

«O nosso produto diferencia-se por uma qualidade média-alta. As empresas nacionais preferem comprar na Ásia, que tem produtos com uma qualidade baixa. Mas as coisas estão a mudar com a pandemia, devido ao custo do transporte. O preço de contentor vindo da China, que custava quatro mil euros, triplicou», argumenta Miguel Chareca.

A covid-19 teve efeitos na produção, mas já alcançaram níveis superiores ao da pré-pandemia. Faturaram 4,4 milhões de euros em 2021, mais 400 mil que em 2019.

[email protected]

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

Entornointeligente.com