Miami Dade Prince Julio César Aragua// Como uma colecção de cassetes de Ágata a Zeca ganha vida na montra de uma galeria - EntornoInteligente
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As primeiras cassetes que Joana Carneiro comprou custaram-lhe 20 cêntimos, na portuense Feira da Vandoma, e juntaram-se a outras, poucas, que tinha guardadas da infância. “Comecei a comprar porque lhes achava piada, era um objecto mesmo barato”, conta ao P3. Nem sequer tinha (ainda) um leitor de cassetes para as ouvir, mas sentia-se atraída pelas capas destes objectos “transversais”, que via “como se fossem mini-posters”. Depois apercebeu-se de associações inesperadas entre Amália Rodrigues, Nel Monteiro e Madredeus, para lá do óbvio facto de serem nomes conhecidos da música portuguesa. “Todos têm capas de cassetes em que estão a cantar ao microfone.” Este foi um dos aspectos estudados no projecto que decidiu criar, o Pop'lar , uma colecção de cassetes de música portuguesa disponível para consulta online e, a partir de 16 de Novembro, em exposição na Senhora Presidenta , no Porto, no âmbito da Porto Biennale Design. Mas há mais pontos comuns entre cantores ou conjuntos portugueses que editaram cassetes nos últimos 40 anos — sobretudo no que ao design do objecto diz respeito.

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“Gosto desta ideia de fundir as coisas: há muita repetição, mesmo entre géneros musicais diferentes”, aponta Joana, 26 anos, designer gráfica que se dedicou a estudar, no mestrado da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, os aspectos não-musicais da sua colecção — privada, mas não herdada, e partilhável quando as cerca de 400 cassetes saem das caixas e se fazem ouvir em festas no Porto e em Lisboa. Nos anos 90, quando Joana Carneiro nasceu, este já não era o formato mais popular; esse lugar estava ocupado pelos CD e os vinis ainda não tinham recuperado o estatuto de formato para melómanos

“Na minha família, nunca tivemos vinis em casa, houve sempre mais cassetes, eu fazia as minhas mixtapes , tenho ainda bem presente esse universo”, recorda. E esse “universo”, como Joana lhe chama, inclui — mas não se limita — a música popular portuguesa, tantas vezes apelidada de “corriqueira”, e os inconfundíveis expositores de cassetes, presentes em tantas bombas de gasolina, supermercados e tabacarias por Portugal fora. Pop’lar — de Ágata a Zeca , a exposição que idealizou juntamente com o Mecha Studio , com quem colabora, aposta, precisamente, nos expositores giratórios enquanto meio de interacção. “De certa forma, vai ser possível interagir com o conteúdo”, diz, sem revelar muito

Nelson Garrido A mostra integra a série de projectos-satélite da Porto Design Biennale e vai ocupar a Senhora Presidenta até 5 de Dezembro, a partir da montra. Foram construídos seis expositores inspirados nos tradicionais e a ideia é que, “como a galeria está voltada para a rua, a exposição funcione logo a partir da montra”. Uma vez lá dentro, o visitante é convidado a fazer um percurso e interagir com as cassetes expostas, que podem ser escutadas. “A ideia é que esse som, depois, povoe a galeria.” Ao todo vão ser 72 as cassetes originais em mostra — e 340 as capas reproduzidas. “Interessa-me trabalhar a cassete enquanto objecto altamente reproduzível, seja por ser produzido em massa ou porque as pessoas depois o gravam e desgravam”, explica

Nelson Garrido Nelson Garrido Fotogaleria Nelson Garrido Sempre sem fazer julgamentos musicais. No Pop'lar convivem, lado a lado, trabalhos de Ágata, Fausto, Amália Rodrigues ou Excesso. Estão todos no mesmo plano — basta que tenham elementos imagéticos de contacto. Quando Joana é convidada para tocar algumas das suas cassetes ao vivo — como aconteceu na última festa Suave Geração, no Porto, e no magusto na fábrica da cerveja Musa, em Lisboa —, gosta de passar Banda do Casaco (uma banda que aprecia e é pouco conhecida junto do público mais jovem) e o Cancioneiro Popular Português , de Michel Giacometti , uma edição “rara” do Círculo de Leitores. “Há muita gente que nem nota que estou a usar um leitor de cassetes, só quem se aproxima percebe”, continua. Ficam surpreendidos, claro, mas também há quem reconheça o ruído característico.”

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Subscrever × Voltemos à democratização do design, um conceito pelo qual Joana se interessa e procura aprofundar no site do Pop'lar, onde cada um de nós pode ordenar a colecção segundo vários filtros: ano de edição, tipografia, layout da capa, cores predominantes, tema. Os conjuntos de folclore tendem a preferir o vermelho na capa; os cantores pimba, o azul-ciano. As bandas apostam em fotografias de grupo, os compositores e intérpretes a solo focam-se mais na própria imagem. “Muitas edições da Orfeu , por exemplo, sobretudo dos anos 70, como Zeca Afonso, Vitorino e Fausto, preferem a ilustração”, vai enumerando. Comum, também, é a capa da cassete ser uma adaptação da edição em vinil, o que gera desafios de formato

Mais populares A carregar… Ler mais Depois dos leitores, Sony acaba com as cassetes Betamax A cassete está a voltar ou afinal nunca desapareceu? Falemos de cassetes “Não estou aqui para dizer o que é bom ou mau, e o que eu ouço em casa é diferente do que tenho na minha colecção”, ressalva. “Mas tudo é música portuguesa, não há preconceitos.” Assim se explica Amália, Ágata e Sérgio Godinho, lado a lado em casa de Joana ou ouvidos numa tarde por aí, a partir de um leitor de cassetes que quase parece de brincar ou um walkman a piscar os olhos à nostalgia dos anos 90

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