Marcelo Barreto: Guerra e paz nas arquibancadas

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Quando vocês da imprensa se metem a falar do torcedor, estão sempre a um passo de ceder às tentações que o assunto oferece. Uma delas é pensar que é possível falar em nome do torcedor. Outra, a de querer ensinar o torcedor a torcer. Mas talvez a mais comum seja aquela em que este parágrafo de abertura incorre propositalmente: tratar o torcedor como se ele fosse não o resultado de uma coletividade, mas sim um ser uno e indivisível.

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O estádio fica mais eloquente, para o bem ou para o mal, quando grita em uníssono. Mas a arquibancada é lugar de disputa. Nem mesmo usar torcida, no lugar de torcedor, ajuda muito na missão de descrever o comportamento de milhares de pessoas que ocupam o mesmo espaço — ainda que seja por um objetivo comum. No jogo contra o Goiás, a torcida do Flamengo vaiou ou aplaudiu Hugo? Apoiou ou condenou Paulo Sousa depois da treta com Diego Alves? Fez tudo isso, e também apoiou incondicionalmente o time. É multitarefa, o torcedor.

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Em sua brilhante coluna de sábado, avaliando o olhar estrangeiro dos treinadores portugueses sobre o futebol brasileiro, Gustavo Poli citou alguns dos importantes estranhamentos que Jorge Jesus, Abel Ferreira e seus sucedâneos trouxeram sobre as mazelas às quais nos acostumamos: o calendário inchado, os gramados ruins. Seria possível acrescentar a arbitragem à lista. Já sobre o jeito de torcer deste lado do Atlântico, os novos colonizadores não falam tanto. Claro que há aí uma influência das campanhas vencedoras que fizeram com que o Mister e Abel tivessem seus nomes gritados carinhosamente nas arquibancadas, mas eles parecem trazer na bagagem a convicção de que no comportamento dos adeptos não se mexe.

Quem cruzou essa fronteira foi Fabián Bustos, espantado com as vaias aos jovens jogadores do Santos na Vila Belmiro — o estádio que ele fez questão de reverenciar como a casa de Pelé quando chegou ao Brasil. «O torcedor tem que estar do nosso lado. A pressão tem que ser sobre o adversário», disse o treinador argentino, indicando pensar no modelo corrente em seu país: gritar e cantar palavras de incentivo enquanto a bola estiver em jogo, independentemente do que estiver acontecendo em campo; vaiar, só no apito final, em caso de derrota com má atuação (se faltar um desses itens, troca-se o apupo por um aplauso comedido).

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Aqui não rola, professor. Não me incluo entre os muitos brasileiros que admiram e até invejam o jeito argentino de torcer. Nossos estádios sentem o jogo, e isso pode incluir o silêncio quando o time da casa está tomando o sufoco e a reclamação quando o desempenho está ruim. Respeito quem passa 90 minutos girando a camisa no ar e berrando «no te deja, no te deja de alentar», mas aprendi a torcer em arquibancadas que não têm uma única voz.

Se a torcida do Fluminense ainda não decidiu se o time é de guerreiros ou sem vergonha, se o torcedor de organizada que botou o dedo na cara do técnico Zé Ricardo estava em São Januário fazendo festa na vitória sobre o Bahia, é porque torcedores e torcidas são muitos. Acertam e erram — entre eles há até os violentos e os racistas, que parecem ter se multiplicado nesta temporada. Mas, acima de tudo, torcem.

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