Kéré, pássaro, Noé e o dilúvio

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Conheci Mestre Pássaro quando, há seis anos, fui viver para a Ilha de Moçambique . Mestre Pássaro é capaz de resolver qualquer problema numa habitação, desde infiltrações a infestações. Eu, pelo contrário, demonstrei desde muito cedo um imenso talento para produzir e avolumar desastres domésticos, nunca para os resolver. Desta forma, Mestre Pássaro acabou se tornando numa presença habitual em minha casa.

Prêmio Pritzker 2022: Diébédo Francis Kéré, mostra um trabalho inspirador, movido pela força ancestral de um continente

A Nuhi (Noé, em árabe), conheci-o na rua. Ele tinha na altura 13 anos, e passeava um romance de Mia Couto. Meti conversa, surpreendido por encontrar um garoto tão jovem interessado em boa literatura. Passei a emprestar-lhe e a oferecer-lhe livros, sobretudo de ficção, que ele devora em poucos dias.

Encontrei os dois na manhã seguinte à passagem do ciclone Gombe , sexta-feira, dia 11. A Ilha acordou atordoada, com as ruas e praças cobertas por um tapete úmido de folhas verdes, cacos de vidro, chapas de zinco e metais retorcidos. Vi coqueiros tombados, árvores imensas com as raízes expostas, entre as quais uma figueira-da-índia com mais de 300 anos, e um baobá igualmente centenário.

A Ilha de Moçambique, uma das mais antigas cidades da África Austral, declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, em 1991, divide-se em duas partes: a cidade de pedra, onde se erguem as igrejas e mesquitas, os palacetes e os casarões coloniais, construídos com o coral arrancado à outra metade, a cidade de macuti, a qual se estende por um imenso buraco, com as tradicionais casas de pau a pique, barro, e cobertura de colmo (macuti). A maioria foi, entretanto, substituída por casas de blocos de cimento e chapas de zinco.

Mestre Pássaro dormia na sua casa, no continente, na noite em que o ciclone nos atropelou. Deixara os três filhos pequenos ao cuidado de um avô, na Ilha. Ao perceber que a casa não resistiria à fúria dos ventos teve apenas tempo de sair, arrastando a mulher. As paredes tombaram, enterrando tudo, incluindo a moto que costumava usar nos seus deslocamentos. Desesperado, partiu a pé para a Ilha, atravessando sozinho a frágil ponte, com três quilômetros de comprimento. Posso imaginar o que terá sido essa travessia, em pleno temporal, com rajadas de vento de cem quilômetros por hora, porque cruzei a ponte dois dias depois, e vi os postes torcidos e derrubados. Na Ilha, Mestre Pássaro encontrou os três filhinhos refugiados debaixo de uma mesa, em meio ao violento caos da intempérie.

PUBLICIDADE Nuhi também perdeu a casa, no bairro de macuti. Uma das paredes caiu-lhe em cima, enquanto tentava proteger os irmãos mais novos. Valeu-lhe a estrutura física adquirida durante os vários anos em que treinou artes marciais. Infelizmente, ficou sem nada, incluindo a pequena biblioteca.

As casas com paredes de barro e cobertura de macuti resistiram muito melhor à tempestade. Lembrei-me delas ao receber a notícia de que o Prêmio Pritzker será este ano entregue a Diébédo Francis Kéré , arquiteto africano cuja obra valoriza a utilização de técnicas e materiais tradicionais.

Espero que o triunfo de Kéré possa servir para reabilitar alguma da arquitetura tradicional africana, particularmente harmoniosa, resistente e adaptada ao calor. Por vezes, a melhor tecnologia do futuro está no passado. É o caso.

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