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As ditaduras terminam com revoluções e golpes de Estado. As democracias acabam de forma difícil de definir no tempo: primeiro devagar, depois muito rapidamente. As instituições democráticas continuam a funcionar nos EUA. Mas, desde janeiro de 2017, elas têm dado provas constantes de resistência para continuarem a prevalecer, perante um Presidente que pisa os outros poderes, desdenha os procedimentos legais e reduz o espaço das minorias.

Mais populares Humanos modernos chegaram à zona onde hoje é Portugal 5000 anos antes do que se pensava Nove em cada dez recuperados da covid-19 ficam com sequelas, diz estudo i-album Ilustração Vamos celebrar Quino como ele viveu, de lápis na mão Donald Trump mentiu mais de 20 mil vezes desde que entrou na Casa Branca. Mais de mil delas foram sobre o coronavírus . Quase todos os políticos mentem? Certo. Mas não com o descaramento e a quantidade inacreditável do atual Presidente dos EUA. Como é que isso ainda não comprometeu a sua reeleição? Porque a sua base (minoritária no todo da sociedade, mas muito significativa na participação eleitoral) não se importa de consumir essas mentiras – e não as julga enquanto tal.

A base Trump não se move pela verificação do mérito ou da coerência do seu campeão. Para os apoiantes de Trump basta receber a legitimação de ver o seu candidato no poder – e o que isso representa para a perturbação do sistema político, mediático, científico, académico. A imunidade do atual Presidente dos EUA a todo e qualquer escândalo, polémica, contradição ou facto inaceitável em que possa estar envolvido tem a ver com isso: a reação dos seus eleitores não é a de mudar o julgamento em relação ao Presidente, mas a de destruir os argumentos de quem detetou a falha.

A vitória Trump 2016 foi o triunfo de um populismo que prefere recusar as evidências científicas e o bom senso. Que optou pelas crenças sem verificação, movidas pela suposta superioridade de uma “maioria silenciosa”, que assistira, na década anterior, entre a surpresa, a irritação e a raiva, ao crescimento e à afirmação de diversas minorias (raciais, comportamentais, sexuais), durante os dois mandatos de Barack Obama.

O ” Make America Great Again ” de Trump 2016 era, na verdade, um ” Make America White Again “. O triunfo Trump baseou-se na imposição pelo ódio e a divisão de uma espécie de anti-clímax dos anos Obama: esqueçam o ” Yes We Can ” e o ” Bring the Country Together ” – a América de Trump acredita no homem providencial que iria rebentar com supostas ingenuidades de reconciliação e imporia a vontade da maioria branca, nativista e supostamente legítima. Os “verdadeiros americanos”.

Esta é também, por isso, uma eleição que coloca em confronto duas visões do que (ainda) é e pode ser a América: aberta ou fechada ao mundo; diversa ou homogénea; globalista ou nacionalista; pelo Acordo de Paris ou a continuar num misto de negacionismo ou exclusão egoísta do combate às alterações climáticas.

Está quase tudo em jogo : a resistência do sistema eleitoral e judicial americano; o futuro do sistema bipartidário, pelo menos do modo que o conhecemos nas últimas décadas.

Sobreviverá o Partido Republicano a Donald Trump, depois de quatro anos de capitulação a uma via populista, protecionista e personalista? O que será melhor para o que resta da direita clássica americana, que prezava os grandes acordos internacionais e reconhecia importância a instituições como a ONU: que venha agora Biden, para repensar um possível ” back to basics “, ou um segundo mandato de Trump, para uma reconversão definitiva?

Joe Biden tem jogado pelo seguro : confia na vontade de todo o espaço político à sua esquerda de evitar uma reeleição de Trump, conta com a maioria dos independentes e ainda alguma direita moderada (o que possa ter sobrevivido ao turbilhão populista). Aposta na ideia de recolocar a América numa normalidade decente, retomando o essencial da agenda Obama – mas sem um décimo do carisma e do poder retórico do seu antigo número 1.

A idade avançada (78 anos à data da tomada de posse) não deve ser ignorada para quem poderá iniciar um arco temporal de oito anos na Presidência. Biden devia ter a coragem de se assumir como “Presidente de transição”, de apenas um mandato e com missão patriótica de final de carreira política de mais de meio século: a de devolver à Presidência americana a dignidade que Trump vandalizou. E devia sinalizar que Kamala Harris tem dimensão política e capacidade para assumir, a qualquer momento, o “glorioso fardo” da Presidência .

Martin Amis afirmou ao The Guardian  que “mais do que um referendo a Trump, será o caráter da América que irá a referendo”. Não iria tão longe. Os Estados Unidos são e continuarão a ser um grande país. Fundado e afirmado em valores e pressupostos que, em muitas dimensões, lhe conferem uma história única, inspiradora e singular.

Os últimos 12 anos mostraram que na América cabem coligações de vontades e visões do mundo tão diversas que são capazes de eleger para a Presidência duas personalidades tão diferentes e antagónicas como Barack Obama e Donald Trump.

Os eleitores americanos votarão em função do que considerarem vir a ser o melhor para as suas vidas nos próximos quatro anos. Mas terão, no seu direito de voto, um poder muito maior: evitar ou confirmar um caminho potencialmente sem retorno para uma América menos democrática, menos tolerante e com muito menor capacidade de servir de exemplo Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter Uma reeleição de Trump seria a avalização de uma presidência divisiva, que toma decisões em relação aos estados atendendo à cor política dos governadores, que ‘flirta’ com extremistas e faz ‘ bully ’ aos representantes eleitos e cientistas reputados. Ou já será tarde para acreditar num regresso à normalidade de uma América decente, confiável, que não tenha dúvidas em preferir aliados permanentes e em condenar líderes autoritários?

Biden é favorito mas Trump ainda pode ganhar. E o voto por correspondência (crucial para consumar as atuais vantagens do democrata nos Estados decisivos) tem tudo para dar confusão . Os Estados Unidos em 2020, e depois de quatro anos de uma presidência que em vez de sarar feridas as agrava, são uma sociedade fragmentada e com fortes sinais de desagregação.

Os eleitores americanos votarão em função do que considerarem vir a ser o melhor para as suas vidas nos próximos quatro anos.

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Isto não pode ser a América.

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