Iara Xavier, administradora: "Precisamos valorizar o que está perto" - EntornoInteligente

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“Éramos administradores de empresa. Trabalhávamos 14 horas por dia para satisfazer desejos materiais. Mas tínhamos inquietações, e decidimos iniciar essa jornada. Desde então, são mais de 400 mil quilômetros rodados, ou dez voltas ao mundo dentro do Brasil. Já visitamos quase mil cidades e pra lá de 1.500 projetos.”

Conte algo que não sei.

Existem três formas de solidariedade. A caridade, que é vertical. Eu tenho, eu te dou. Doação de alimento, de roupa, de brinquedo. É muito legal, mas não muda, não transforma. O segundo tipo, nos projetos sociais, é aquele horizontal. É o “cara, estamos juntos”, “o que nós podemos, juntos, construir?”. Não é interferir numa comunidade, porque isso fere, é influenciar de dentro para fora, deixar fluir. Por isso dá certo. O terceiro modo são os negócios sociais, essas empresas, sobretudo jovens, que vêm com uma visão de lucro não apenas para o próprio bolso, mas com um desejo de, com esse lucro, impactar a sociedade. O sócio ganha como se fosse um colaborador comum.

Como vocês se mantêm?

A gente vive integralmente de uma economia solidária colaborativa. Em 2013, nosso dinheiro acabou. Passou uma reportagem sobre o projeto na TV e recebemos milhares de mensagens. Pensamos: “Que doido! Estamos cheios de dívidas, e várias pessoas querendo ajudar financeiramente”. Só que viramos a chave. Resolveria o nosso problema, mas não mudaria o mundo de ninguém. Aí, fizemos o seguinte: vamos aceitar o apoio das pessoas no nosso caminho. Se é dono de um posto de combustível, abasteço o carro. Se tem um hotel, nos acolha, para termos um pouco mais de conforto. Se é proprietário de uma loja de calçados, dá um sapato. E assim vai.

E as pessoas ajudam de fato?

Hoje, quem paga o diesel é um rapaz que viu uma palestra nossa. Quando acabou, ele perguntou: “Aceitam um presente?” Aí pegou a carteira e entregou um cartão corporativo. “Abasteçam onde vocês quiserem no país”. Não temos patrocínio da montadora, mas tem um outro rapaz, que a gente sequer conhece pessoalmente, que vai se responsabilizando pela revisão do carro. De dez mil em dez mil quilômetros, ele entra em contato e a concessionária de onde a gente estiver faz. É uma corrente do bem.

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Que história mais marcou essa jornada de vocês?

São muitas. Tem um cara que matou outro com 16 facadas. No presídio, recebeu um abraço e um beijo de uma pessoa. Naquele momento, lembrou que o sonho da vida dele era ter piolho, para a mãe fazer um carinho na cabeça dele. E foi pensando em tudo de ruim que fizeram com ele, e tudo de ruim que ele fez às pessoas. Chegou à conclusão de que era inteligente, mas usava isso para o mal. A partir daí, decidiu passar a fazer o bem. Há 15 anos, ele atende 125 crianças em Sorriso (cidade no Mato Grosso). Aulas de yoga, meditação, reforço escolar, alimentação… Aliás, veja só: Sorriso é a capital do agronegócio, mas as crianças que estão com ele passavam fome.

Como é viver na estrada?

É muito difícil, o corpo pede arrego. Um casal dentro do carro 24 horas por dia também é complicado. O maior desafio, porém, é lidar com as emoções. Vemos o melhor e o pior do ser humano. Não é na televisão, ou alguém contando. Você sente na pele a criança que foi estuprada, o idoso que foi maltratado…

O “Caçadores de bons exemplos” acaba de estrear a segunda temporada de um quadro em um programa TV. Estar na TV fez diferença?

Temos o costume de valorizar o que está longe, mas precisamos valorizar o que está perto, bem na vizinhança. Tentamos jogar luz nesses heróis invisíveis. Quando passa na televisão, as pessoas ajudam mais. Além disso, só conseguimos nos manter na economia solidária por conta da visibilidade.

Iara Xavier, administradora: “Precisamos valorizar o que está perto”

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