'Graças a Robert Frank, descobri que queria ser fotógrafo'  - EntornoInteligente
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Aos 17 anos, como a grande maioria dos desafortunados que acabam o colegial e não têm nenhuma predestinação profissional clara, eu estava totalmente perdido sobre qual profissão escolher. Tão sem rumo que, mesmo tendo cursado o colegial na turma de “Humanas”, escolhi (e passei) no vestibular para Engenharia na USP. 

Não durei seis meses nas aulas de cálculo e, com um pouco mais de certeza sobre o que eu não queria ser, comecei a cursar as faculdades de Jornalismo de manhã e de Fotografia à noite.

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Foi na biblioteca do curso noturno do Senac, com vários livros ainda no plástico (era a primeira  turma da primeira  faculdade de Fotografia da América Latina) que eu conheci os “Roberts”: Capa e Frank. 

Veja imagens de Robert Frank, principal fotógrafo de documentários que morreu nesta terça O fotógrafo Robert Frank morreu em Inverness, na Ilha Cape Breton, na Nova Escócia. Ele tinha 94 anos Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Exposição de fotos de Robert Frank em galeria de Nova York. O fotógrafo nasceu na Suíça e ganhou fama com a publicação de seu livro de referência de 1958, "The Americans", um olhar da sociedade norte-americana Foto: BRYAN THOMAS / AFP O estilo de fotografar de Robert Frank, imagens granuladas, contrariava o estilo usado na época, nítidas e bem iluminadas. Foto "Trolley – New Orleans", 1955 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT As fotos de Frank foram inicialmente consideradas deformadas, borradas, amargas. “Vista da janela do hotel – Butte, Montana”, 1956 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT O estilo de fotografar de Robert Frank lhe rendeu o apelido de "Manet da nova fotografia", da crítica cultural Janet Malcolm. "New York City, 7 Bleecker Street", setembro de 1993 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Pular PUBLICIDADE O trabalho de Frank recebeu mais definição e legitimidade em 1967, na exposição "Novos documentos", no Museu de Arte Moderna de Nova York. O programa apresentou as fotografias de Diane Arbus , Lee Friedlander e Garry Winogrand, geração mais jovens do estilo pioneiro de Frank. "City of London", 1951 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT As fotografias do livro "The Americans" foram publicadas pela primeira vez na França por Robert Delpire, em 1958. As fotografias de Frank foram usadas como ilustração para ensaios de escritores franceses". Charleston, Carolina do Sul", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Capa do livro "The Americans", publicado em 1959, obra-prima de fotografias em preto e branco tiradas das viagens de cross-country de Frank em meados da década de 1950 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Na edição americana do livro, publicada em 1960 pela Grove Press, foi permitido às figuras contar sua própria história, sem texto. "Parade – Hoboken, Nova Jersey", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT O escritor Jack Kerouac escreveu a introdução da edição americana do livro "The Americans"."San Francisco", 1956 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT Pular PUBLICIDADE As fotografias de Robert Frank influenciaram a maneira como os fotógrafos começaram a abordar não apenas seus assuntos, mas também a moldura da imagem. "Estreia do filme Hollywood", 1955 – "The Americans" Foto: Robert Frank / Reprodução NYT  

Pelo primeiro era fácil de se apaixonar. Sócio da mais importante agência de fotojornalismo do mundo (a Magnum), namorado de estrelas de Hollywood, fotógrafo de guerra… Ele representava o estereótipo do que um moleque perdido na vida e encantado com as possibilidades da profissão queria ser. 

Mas quem me conquistou mesmo foi Robert Frank. A emoção que senti ao abrir pela primeira vez seu livro clássico, “The Americans”, foi reveladora. Nesta obra-prima da fotografia (e de qualquer outra mídia), Frank viajou de carro pelos Estados Unidos para documentar o cotidiano dos… americanos. 

Com um estilo cru e direto, as 83 imagens mostram o país sem romantismo. De casais adolescentes, pessoas solitárias, operários a passageiros na janela de um ônibus, Frank conseguiu mostrar a diferença entre o sonho americano que era vendido na época e a realidade. Foi uma quebra nos paradigmas de tudo que era feito antes: fotos de guerra, instantes decisivos e composições clássicas foram deixadas para trás por ele. 

PUBLICIDADE No prefácio da edição americana, o autor beatnik Jack Kerouc escreveu que “Essa sensação louca na América quando o sol está quente e a música sai da jukebox ou de um funeral próximo, foi capturada por Robert Frank enquanto ele viajava na estrada com agilidade, mistério, gênio, tristeza, como cenas que nunca foram vistas antes em um filme”  

Meses depois dessa noite decisiva na biblioteca fui a um workshop de fotografia onde tive a oportunidade de mostrar meu portfólio para o editor de fotografia da “Folha de São Paulo”, João Bittar. Com a atenção e gentileza aos estranhos que lhe eram características, João me disse: “Seu trabalho é muito cru ainda, mas tem uma grande vantagem em relação aos fotógrafos da sua idade: você é decidido e sabe o que quer”. 

Mal sabia o João que eu devia isso (e devo até hoje) ao Robert.  

LINK ORIGINAL: OGlobo

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