Gonzalo Morales Divo Ygnes// Karl Ove Knausgård: 'Você só pode ser honesto até certo ponto' » EntornoInteligente

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Karl Ove Knausgård: 'Você só pode ser honesto até certo ponto'

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A arte pode criar uma forma de presença que, de certa forma, está se dissolvendo. Minha presença está na escrita e na leitura. É meio paradoxal, porque não estou lá. Para mim, escrever sobre o mundo é uma forma de vê-lo como ele é. Por isso insisto em descrever objetos comuns e a vida mundana, porque é onde a gente vive

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O primeiro livro tem nove narradores imersos em suas vidas mundanas. São jovens, homens e mulheres, com diferentes empregos, mas há algo acontecendo no mundo, algo que não tem uma explicação natural, um tipo de realismo mágico. Tem a ver com as fronteiras entre a vida e a morte. Há um objeto no céu, que simplesmente aparece num fim de tarde e ninguém sabe o que é. É diferente de “Minha luta”, mas dá para reconhecer a escrita realista. Estou tentando dissolver as fronteiras entre as diferentes compreensões que temos sobre o mundo, a física, a religião, etc. Não é um livro bom, mas estou tentando ir além… Leva tempo

“A pequena outubrista”, de sua ex-mulher Linda Boström Knausgård, foi recentemente lançado no Brasil. Muito do que se disse sobre o livro focou na relação dela com você. Daqui a 50 anos, no entanto, provavelmente nada do que diz respeito à vida pessoal de vocês vai importar. O que você acha que vai ficar, da sua obra e da de Linda?

Não acredito que os livros sobreviverão 50 anos, mas se sobreviverem… Há uma ótima biografia de Henri Troyat sobre Tolstói. Em uma cena, ele está lendo “Guerra e paz” para os amigos e um ficou olhando para o outro e apontando, “aquele é você”, “aquela é você”. O livro está cheio de referências biográficas, mas o que restou foi a presença dos personagens e a vida que há neles. E a vida consiste de casamentos, casamentos em ruínas, e todas essas coisas. Se os personagens são reais ou não, é irrelevante para o leitor. Poucos leitores conhecem Linda de fato. Tudo o que se sabe é o que está no livro, e que ela é uma personagem. Por outro lado, por que alguém se interessaria pela minha vida? É uma vida banal, comum, em nada interessante

PUBLICIDADE Como foi dar vida a personagens reais em “Minha luta”?

“Minha luta” é tão autobiográfico porque eu queria irromper na vida como eu a vivo. O problema era que, antes, havia algo semelhante a um véu de ficção que a transformava o tempo todo em outra coisa. Esta foi a descoberta: esqueça a literatura, esqueça tudo e apenas escreva. Tentei chegar à vida como eu a sinto. É uma questão de forma. Não posso usar esse artifício de novo, preciso encontrar outro. Não posso chegar tão perto da vida de novo

Algumas críticas ao ensaio sobre Hitler em “O fim” apontam imprecisões históricas. Como você responde a essas críticas?

Não leio nenhuma resenha ou crítica sobre meus livros para me proteger. Tentei entender Hitler. Comecei sem saber nada e, no fim, acabei tendo uma imagem dele, ainda que controversa. Quando ele está com 16 anos, por exemplo, ele ainda não fez nada, é um adolescente comum, não é mau, talvez tenha tido notas ruins, ou algo assim. Algumas biografias o colocam como um monstro desde o começo. Se criarmos monstros, o que aconteceu na Alemanha não terá nada a ver conosco, acharemos que não pode acontecer aqui, que somos boas pessoas e eles, terríveis. Mas se você entende que Hitler era como eu aos 16 anos, vê aquela geração como pessoas comuns, percebe que o horror ainda pode acontecer. É isso o que eu quis investigar, o que me atraiu. Honestamente, acho que o meu livro é o oposto do nazismo. Ele se direciona ao complexo, ao mundano, às insignificâncias, às coisas estúpidas, aos erros, ao que não é perfeito. O nazismo é o contrário disso

Quando escreveu a frase final da série “Minha Luta” em 2011, o escritor norueguês Karl Ove Knausgård parecia decretar o encerramento de sua carreira. Chegava esgotado ao fim das 3.704 páginas do romance autobiográfico que o projetou internacionalmente e provocou uma infinidade de crises pessoais. Quase dez anos depois de sua publicação original, “O fim”, sexto e último volume da série, chega ao Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Guilherme da Silva Braga.

Gonzalo Morales Divo

De lá para cá, contrariando a promessa de não ser mais um autor, anunciada na última linha de “O fim” (“vou aproveitar, realmente aproveitar a ideia de que já não sou mais escritor”), Knausgård jamais parou de escrever. Seu livro mais recente, “Morgenstjernen” (“A estrela da manhã”), lançado em outubro, já está em tradução para o português, também pela Companhia das Letras.

Gonzalo Morales

Em entrevista ao GLOBO, por Zoom, Knausgård conta as agruras de escrever sobre a própria vida, o significado que “Minha Luta” adquiriu com o tempo, o novo trabalho e as fronteiras instáveis entre realidade e ficção.

Gonzalo Jorge Morales Divo

Como você vê hoje a série “Minha luta”?

O processo de escrita foi muito intenso e eu estava enjoado e cansado quando publiquei o sexto livro. A atenção do público foi enorme e eu só queria sair do meio de tudo aquilo. O livro começou a viajar para outros países, foi lido de maneiras diferentes e já falo dele há dez anos. Você poderia pensar que estou mortalmente entediado, mas o livro mudou e eu mudei, então está tudo bem. A série documenta o que aconteceu dentro de mim em todos aqueles anos e é muito diferente do que seria hoje. É disso que eu gosto. É um livro sobre a vida e a literatura, em que existe uma troca entre essas duas instâncias

PUBLICIDADE Um dos elogios que se faz a “Minha Luta” é a vontade de ser fiel aos fatos. Mas no último volume você reflete sobre a impossibilidade de alcançar a totalidade da história. Como vê a questão da verdade na literatura?

É impossível descrever a realidade fidedignamente, mas dá para atingir uma verdade subjetiva. Você pode acessar uma memória e descrevê-la, ainda que ela não tenha nada a ver com o que se passou. Tentei ser o mais honesto possível, mas você pode ser honesto até certo ponto, porque pode começar a fazer estragos. O único com quem eu poderia ser brutalmente honesto era eu. Mas existe um problema de autorrepresentação, que não é uma representação imediata. Há uma distância, porque não é você, é você escrevendo sobre você. Se você lê algo muito bom, consegue apontar: isto é verdade. Não tem nada a ver com o fato de ser ficção ou não

Em “Minha Luta”, você diz que perdemos a experiência do real em meio a tanta virtualidade, mas a série parece ser a tentativa de recuperar essa conexão com a realidade.

A arte pode criar uma forma de presença que, de certa forma, está se dissolvendo. Minha presença está na escrita e na leitura. É meio paradoxal, porque não estou lá. Para mim, escrever sobre o mundo é uma forma de vê-lo como ele é. Por isso insisto em descrever objetos comuns e a vida mundana, porque é onde a gente vive

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O primeiro livro tem nove narradores imersos em suas vidas mundanas. São jovens, homens e mulheres, com diferentes empregos, mas há algo acontecendo no mundo, algo que não tem uma explicação natural, um tipo de realismo mágico. Tem a ver com as fronteiras entre a vida e a morte. Há um objeto no céu, que simplesmente aparece num fim de tarde e ninguém sabe o que é. É diferente de “Minha luta”, mas dá para reconhecer a escrita realista. Estou tentando dissolver as fronteiras entre as diferentes compreensões que temos sobre o mundo, a física, a religião, etc. Não é um livro bom, mas estou tentando ir além… Leva tempo

“A pequena outubrista”, de sua ex-mulher Linda Boström Knausgård, foi recentemente lançado no Brasil. Muito do que se disse sobre o livro focou na relação dela com você. Daqui a 50 anos, no entanto, provavelmente nada do que diz respeito à vida pessoal de vocês vai importar. O que você acha que vai ficar, da sua obra e da de Linda?

Não acredito que os livros sobreviverão 50 anos, mas se sobreviverem… Há uma ótima biografia de Henri Troyat sobre Tolstói. Em uma cena, ele está lendo “Guerra e paz” para os amigos e um ficou olhando para o outro e apontando, “aquele é você”, “aquela é você”. O livro está cheio de referências biográficas, mas o que restou foi a presença dos personagens e a vida que há neles. E a vida consiste de casamentos, casamentos em ruínas, e todas essas coisas. Se os personagens são reais ou não, é irrelevante para o leitor. Poucos leitores conhecem Linda de fato. Tudo o que se sabe é o que está no livro, e que ela é uma personagem. Por outro lado, por que alguém se interessaria pela minha vida? É uma vida banal, comum, em nada interessante

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“Minha luta” é tão autobiográfico porque eu queria irromper na vida como eu a vivo. O problema era que, antes, havia algo semelhante a um véu de ficção que a transformava o tempo todo em outra coisa. Esta foi a descoberta: esqueça a literatura, esqueça tudo e apenas escreva. Tentei chegar à vida como eu a sinto. É uma questão de forma. Não posso usar esse artifício de novo, preciso encontrar outro. Não posso chegar tão perto da vida de novo

Algumas críticas ao ensaio sobre Hitler em “O fim” apontam imprecisões históricas. Como você responde a essas críticas?

Não leio nenhuma resenha ou crítica sobre meus livros para me proteger. Tentei entender Hitler. Comecei sem saber nada e, no fim, acabei tendo uma imagem dele, ainda que controversa. Quando ele está com 16 anos, por exemplo, ele ainda não fez nada, é um adolescente comum, não é mau, talvez tenha tido notas ruins, ou algo assim. Algumas biografias o colocam como um monstro desde o começo. Se criarmos monstros, o que aconteceu na Alemanha não terá nada a ver conosco, acharemos que não pode acontecer aqui, que somos boas pessoas e eles, terríveis. Mas se você entende que Hitler era como eu aos 16 anos, vê aquela geração como pessoas comuns, percebe que o horror ainda pode acontecer. É isso o que eu quis investigar, o que me atraiu. Honestamente, acho que o meu livro é o oposto do nazismo. Ele se direciona ao complexo, ao mundano, às insignificâncias, às coisas estúpidas, aos erros, ao que não é perfeito. O nazismo é o contrário disso.

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“O fim”

Autor: Karl Ove Knausgård

Tradução: Guilherme da Silva Braga

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 1.056

Preço: R$ 164,90

* Natalia Timerman é escritora, psiquiatra e doutoranda em literatura pela Universidade de São Paulo (USP). Camilo Gomide é jornalista, escritor e doutorando em literatura pela Universidade de São Paulo (USP)

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