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EntornoInteligente | Lawrence Ferlinghetti (1919- 2021), poeta best-seller , fundador da City Lights Books e editor de Allen Ginsberg

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Formou-se em jornalismo e, mais tarde, em Literatura Inglesa. Alistou-se na Marinha, a participação na Segunda Guerra Mundial fez dele um pacifista tendo sido preso, em 1967, por protestar contra a Guerra do Vietname.  Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, em 1950, e nessa cidade Lawrence Ferlinghetti, juntamente com Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, era frequentador da livraria Shakespeare and Company, fundada por George Whitman

Lawrence Ferlinghetti, um dos nomes decisivos para a cultura Beat, escritor e poeta best-seller , editor do livro Howl , de Allen Ginsberg ( U ivo ) cuja publicação o levou a tribunal, pintor e fundador em 1953 da livraria City Lights Books, morreu aos 101 anos, a 22 de Fevereiro, na sua casa em São Francisco, nos Estados Unidos.  A causa foi doença pulmonar intersticial, divulgou o seu filho  Lorenzo. 

Quando fez 100 anos, em 24 de Março de 2019,  Lawrence  Ferlinghetti lançou nos Estados Unidos o romance Little Boy ,  que em Portugal está publicado pela Quetzal como Rapazinho e e m que trabalhou durante duas décadas. Por lá passam também as suas memórias. ” Rapazinho é o derradeiro testemunho e testamento literário do maior poeta da Geração Beat – parte autobiografia, parte recordação dispersa, parte torrente de linguagem e sentimento, e sempre com o tom mágico da escrita de Ferlinghetti. No livro, há reminiscências biográficas entrelaçadas com explosões de energia e de recordação, reflexões, reminiscências e profecias sobre o que podemos esperar da vida no futuro. Rapazinho é uma fonte de conhecimento literário com alusões ao mundo e à vida literária do autor, à sua geração, erros e descobertas – e um convite ao maravilhamento”, escrevia a editora portuguesa no seu lançamento. 

Foi editor de Allen Ginsberg, que ouviu a fazer a primeira leitura pública do poema Howl  / Uivo na Six Gallery de São Francisco em Outubro de 1955, mas também de Charles Bukowski, Paul Bowles e de Sam Shepard. Nunca se considerou um escritor Beat e não se importava muito com esta literatura, escreve Elaine Woo no obituário do Los Angeles Times , lembrando que o editor rejeitou os manuscritos de On The Road , de Jack Kerouac ( Pela Estada Fora , na tradução portuguesa) ou de Naked Lunch,  de William S. Burroughs. Mas Jesse McKinley, no obituário do The New York Times , chama-lhe “o padrinho espiritual do movimento Beat“.

Era o quinto filho de um casal de descendentes de italianos, franceses e portugueses, mas quando nasceu em 1919 o seu pai italiano, Carlo Ferlinghetti, já tinha morrido. A sua mãe, Clemence Albertine Mendes-Monsanto, viria a ser hospitalizada mais tarde com um esgotamento nervoso. Por isso, Lawrence Monsanto foi aos dois anos de idade viver com o tio Ludovic Monsanto e a sua mulher Emily, que levou a criança para França quando mais tarde se separou do marido. Viveram lá quatro anos, lê-se no obituário do L os Angeles Times , e quando regressaram a Nova Iorque  Ferlinghetti esteve um tempo num orfanato até ir viver com Emily na casa da família Bisland, em Bronxville. Foi esta família que o criou e lhe passou a paixão pelos livros.

Formou-se em jornalismo e, mais tarde, em Literatura Inglesa. Alistou-se na Marinha, a participação na Segunda Guerra Mundial fez dele um pacifista tendo sido preso, em 1967, por protestar contra a Guerra do Vietname.  Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, em 1950, e nessa cidade Lawrence Ferlinghetti, juntamente com Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, era frequentador da livraria Shakespeare and Company, fundada por George Whitman.

Em 2011, o poeta Nuno Júdice recordava ao PÚBLICO alguns dos momentos em que se cruzou nessa livraria com Ferlinghetti, que é o autor do livro de poesia A Coney Island of the Mind (1958), escrito  para ser lido com acompanhamento de música Jazz e que se tornou  um dos livros de poesia mais vendidos de sempre nos EUA. Teve a primeira tradução em português em 1972 com o título Como Eu Costumava Dizer, nos Cadernos de Poesia da D. Quixote. 

Foi o espírito boémio que se vivia na livraria Shakespeare and Company, de Paris, que quis replicar na livraria City Lights Books, que fundou em 1953,  na Califórnia,  com Peter D. Martin, que um ano depois viria a abandonar o projecto. Foi a primeira livraria no país a vender só  paperbacks , impulsionando o formato de bolso, livros de qualidade a preço acessível. Era também conhecida por ficar aberta até altas horas da madrugada e por ninguém ser importunado por estar a ler um livro sem o comprar. Era conhecida também por vender literatura LGBT. Na porta de entrada, conta o  Los Angeles Times,  havia um aviso para os clientes deixarem o desespero lá fora: “Abandon All Despair, Ye Who Enter Here”.  Em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque fechou a sua livraria em protesto. 

​ Em 1955, Lawrence  Ferlinghetti  lançou a editora  City Lights , que começou por publicar as  Pocket Poets  Series, que se inaugurou com um livro seu,  Pictures of the Gone World . Mas foi a publicação em 1956 do quarto livro dessa colecção,  Howl & Other Poems,  de Allen Ginsberg, traduzido em português por  O Uivo e Outros Poemas , que fez com que fosse detido por vender “material obsceno” e tenha ido a tribunal defender a liberdade de expressão e a Primeira Emenda conseguindo estabelecer um precedente.

Na editora Relógio D’Água foi publicado em 2016 o seu ensaio  A Poesia Como Arte Insurgente ,  cujo título original é  Poetry as insurgente art. Nele escreveu trechos como este: “Se te consideras poeta, não fiques aí sentado. A poesia não é uma ocupação sedentária, não é uma prática do género ‘sente-se, por favor’. Levanta-te e diz-lhes o que pensas.”

Nessa altura, na divulgação do livro a Relógio D'Água recordava o que Larry Smith escreve no livro Lawrence Ferlinghetti: Poet-at-Large : “O que resulta do panorama histórico em que Ferlinghetti se envolveu é um padrão social envolvente de experimentação literária”, acrescentando que o papel de Ferlinghetti foi muito superior ao de editor e de organizador: “Além de ter moldado a ideia do que é ser um poeta no mundo, criou uma forma poética que é ao mesmo tempo retoricamente funcional e socialmente vital.”

Em 2010 foi realizado o filme Uivo , de Rob Epstein,  em que o actor Andrew Rogers interpreta Ferlinghetti e James Franco é Allen Ginsberg.

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