EntornoInteligente | Dia do médico: quatro especialistas contam como é viver sete meses no ‘front’ da Covid-19 » EntornoInteligente
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PUBLICIDADE Fiz ‘plantões-coringa’ na UPA do Complexo do Alemão, no Hospital Estadual Carlos Chagas e na rede particular. Hoje trabalho apenas na Clínica da Família Anna Nery, no Rocha, Zona Norte do Rio, para ter tempo de estudar para a prova de residência

RIo — Em pouco mais de sete meses, o Brasil viu os casos de Covid-19 passarem dos 5 milhões e o número de vidas perdidas alcançar a triste marca de 150 mil. O país experimenta agora uma lenta desaceleração da pandemia, tendo no horizonte as incertezas de uma possível segunda onda, do prazo para uma vacina eficaz e de como ficarão nossas rotinas em meio a esse “novo normal”. Mas uma coisa é certa: as taxas de infecção e mortalidade seriam muito maiores caso não houvesse profissionais na linha de frente da maior pandemia do século.

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No Dia do Médico, celebrado hoje, O GLOBO traz depoimentos de quatro deles, que vêm atendendo pacientes da Covid em diferentes frentes: a pneumologista Elnara Márcia Negri, pioneira ao documentar a associação do coronavírus a tromboses; o intensivista André Miguel Japiassú, que ainda se emociona com os aplausos na alta dos pacientes; o infectologista José Pozza, que não se esquece do choque ao comunicar a morte a uma família que já havia perdido cinco membros em um mês; e Yashmin Borges, que teve a formatura antecipada justamente para atuar no enfrentamento à pandemia.

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‘2020 está sendo um rito de transição na minha carreira’ Médico diz ficar emocionado com a prontidão de colegas na crise: “Num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente” Muitas coisas me emocionam. Ver um paciente ganhando alta, por exemplo. Sabe que até hoje a despedida dos pacientes do hospital é com aplausos? Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo André Miguel Japiassú, 47 anos, intensivista e professor da Fiocruz PUBLICIDADE  

‘Embora eu já tenha 22 anos de profissão, 2020 está sendo um rito de transição na minha carreira, sem dúvida. Às vezes, vejo a noite cair e não percebo, porque estou atendendo ou fazendo pesquisa. Aí lembro que tenho que ir para casa. Minha esposa repete: ‘Não sei como você faz caber tudo isso num dia’. Mas é a urgência da hora. Se eu não fizer agora, não haverá outro momento.

Muitas coisas me emocionam. Ver um paciente ganhando alta, por exemplo. Sabe que até hoje a despedida dos pacientes do hospital é com aplausos? Aquelas cenas que víamos no início da pandemia continuam acontecendo. Volta e meia estou passando no corredor quando ouço aplausos. Quando dou por mim, estou batendo palma também, mesmo se é um paciente que nem acompanhei. Antes (da pandemia) é que nós comemorávamos pouco.

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O que também me emociona é a prontidão dos profissionais de saúde, em geral. Tivemos que afastar muitos no início da pandemia, porque vários eram do grupo de risco ou então tinham ficado doentes. Mas rapidamente, num tempo recorde, muitos profissionais se apresentaram espontaneamente. Muitos de nossos ex-residentes e médicos afastados de hospital havia muito anos vieram nos procurar. Nunca vi isso, até me arrepio quando falo. Estamos hoje com uma equipe dez vezes maior do que tínhamos. Somos referência para o tratamento de várias doenças infecciosas, recebemos casos de ebola, por exemplo. E, em vez de as pessoas se assustarem e se afastarem, elas fazem o oposto. Isso me emociona muito.

Duas coisas me atraíram para trabalhar em CTIs e UTIs como médico intensivista. A primeira foi que sempre me fascinou poder tratar de pacientes graves, ter a chance de impedir que eles morressem. A segunda é poder trabalhar sempre em equipe. Nenhum intensivista atua sozinho. Tenho ao meu lado enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, psicólogos… É como se estivéssemos em cima de uma rosa dos ventos, e no meio há o paciente. Essa coordenação entre diversos profissionais que cuidam do paciente que me move hoje.

PUBLICIDADE Trabalhar com terapia intensiva exige muita resiliência. A gente tem que dar a notícia de um óbito para uma família e, no minuto seguinte, voltar para o CTI porque há outras pessoas lutando pela vida. A especialidade de intensivista é relativamente nova no Brasil, tem cerca de 30 anos de reconhecimento, mas ela nunca foi tão necessária quanto na pandemia. A percepção da sociedade sobre o trabalho do intensivista cresceu. Antes, minha mãe tinha que explicar para as amigas o que eu fazia. Agora, já não precisa.”

‘Me formei já vendo ao menos duas mortes por plantão’ Médica lembra que pegou o diploma numa quinta — em uma cerimônia “drive thru” — e no domingo seguinte começaria no Hospital Albert Schweitzer Fui encarregada de cuidar só de pacientes com Covid. Em uma sala onde deveriam ter 15 pacientes, havia 27. A partir daí, fiz uma série do que chamamos de ‘plantões-coringa’. Foto: Arquivo pessoal Yashmin Borges, 25 anos, recém-formada PUBLICIDADE  

‘Comecei 2020 achando que concluiria o curso de Medicina em junho. A pandemia veio, no entanto, para mudar todos os planos. Com a disseminação da Covid-19 gerando um cenário cada vez mais grave, a minha formatura na Universidade do Grande Rio (Unigranrio) acabou sendo antecipada para abril. Não havia mesmo por que esperar.

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O diploma eu peguei numa cerimônia ‘drive thru’. Isso foi numa quinta-feira, e já no domingo seguinte eu dava meu primeiro plantão, no Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, Zona Oeste do Rio. Fui encarregada de cuidar só de pacientes com Covid. Em uma sala onde deveriam ter 15 pacientes, havia 27. A partir daí, fiz uma série do que chamamos de ‘plantões-coringa’, quando não se é funcionário da unidade de saúde, mas, sim, contratado apenas para o plantão, em geral para cobrir a ausência de algum médico. Isso acontecia com frequência porque, nos primeiros meses de pandemia, muitos médicos estavam adoecendo e precisando ficar de quarentena.

PUBLICIDADE Fiz ‘plantões-coringa’ na UPA do Complexo do Alemão, no Hospital Estadual Carlos Chagas e na rede particular. Hoje trabalho apenas na Clínica da Família Anna Nery, no Rocha, Zona Norte do Rio, para ter tempo de estudar para a prova de residência.

O que acho mais desafiador em relação a esse vírus é a incerteza sobre como ele ataca o corpo. Em cada paciente, ele parece agir de maneira diferente, às vezes até oposta, o que me deu muita insegurança. Uma pneumonia bacteriana, por exemplo, você sabe que conseguirá um resultado bom do paciente se der o antibiótico certo. Com a Covid-19, a insegurança ainda é grande.

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Lembro que, nos meus primeiros plantões, ficava quase paranoica sem querer encostar em nada, porque tinha muito medo de levar o vírus para casa. Moro com minha mãe e minha avó de 80 anos. Além de idosa, ela é hipertensa. Tinha mais medo de contaminá-la do que de me infectar. Ainda bem que nenhuma das duas coisas aconteceu. Até hoje, quando volto do trabalho para casa, entro pela garagem, levando todos os meus pertences separados em sacolas, e vou direto para o banheiro.

PUBLICIDADE Nesses sete meses de pandemia no Brasil, acho que ainda estou meio anestesiada. Eu não senti exatamente a alegria de quem se forma, nem o medo de quem tem que começar a dar plantão em meio a uma pandemia. Já me formei vendo pelo menos duas mortes por plantão. Mas acho que a ficha ainda não caiu.”

‘Estamos trocando o pneu com o carro andando’ Desde março, Negri não tem fim de semana: “Trabalho 12, 14 horas por dia, às vezes varando a noite estudando para entender melhor essa doença” Pesquisando a doença, vi que aproximadamente 15% dos doentes desenvolvem trombose. Esse problema aparece, geralmente, no sexto dia da doença e pode surgir em qualquer órgão Foto: Arquivo pessoal Elnara Márcia Negri, 53 anos, pneumologista do Sírio-Libanês PUBLICIDADE  

‘No dia 25 de março, uma paciente chegou até o Hospital Sírio-Libanês (em São Paulo) com síndrome respiratória, e, enquanto eu a atendia, um dedão do pé fez uma trombose bem na minha frente. Ali, entendi que a Covid-19 não era apenas uma síndrome respiratória grave, mas um fenômeno trombótico. Nesse caso, um tratamento com anticoagulantes, feito bem no início, podia ser a diferença entre viver ou morrer, entre recuperar a qualidade de vida ou ficar com sequelas.

Pesquisando a doença, vi que aproximadamente 15% dos doentes desenvolvem trombose. Esse problema aparece, geralmente, no sexto dia da doença e pode surgir em qualquer órgão. Publiquei um estudo preliminar sobre o tratamento com anticoagulantes em 15 de abril, e essa pesquisa foi destacada pouco depois em uma edição da revista Science como uma das mais inovadoras sobre o coronavírus. Porém, antes de a publicação da Science sair, teve gente que chegou a me acusar de charlatanismo. Muitos pensavam que eu estava inventando o tratamento, querendo aparecer. O fato de eu afirmar que o novo coronavírus poderia provocar trombose era como mexer com um dogma.

PUBLICIDADE Aquilo acabou comigo, cheguei a pensar em abandonar a medicina. Mas aí, em maio, saiu a edição da Science definindo minha pesquisa como uma ‘virada de jogo’, e isso me deu respaldo, inclusive psicologicamente. Mais tarde, trabalhos de outros pesquisadores corroboraram minha descoberta. A pesquisa avançou e foi aceita para publicação, em breve, na revista Frontiers in Physiology.

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A sensação que tenho é de que estamos trocando o pneu com o carro andando. Em 30 anos de profissão, nunca passei por um momento tão desafiador. Cheguei a pensar em tirar umas férias mais longas neste ano, parar de atender por um tempo para descansar… Mal sabia o que 2020 nos aguardava! Desde março, não tenho fim de semana, trabalho 12, 14 horas por dia. Às vezes varando a noite estudando, tentando entender melhor essa doença. Mas o companheirismo de toda a equipe no hospital é enorme, o que é muito bonito. Ninguém solta a mão de ninguém.

Já encontrei aquela mulher que atendi em 25 de março. Ela se recuperou bem, está ótima. A gente sempre brinca que foi o dedão dela que me iluminou. Eu sempre a agradeço.”

‘Cresceu a percepção de que o SUS é importante’ Segundo especialista, cotidiano da UTI mudou muito nos últimos meses: “Vejo pessoas mais jovens que eu morrendo mesmo sem fator de risco” Vejo pessoas mais jovens do que eu morrendo mesmo sem ter fator de risco. A cada novo estudo, vamos tentando acompanhar, nos aprimorar, para tratar melhor esses pacientes, mas o dia a dia é difícil. Foto: Hermes de Paula / Agencia O Glob / Agência O Globo José Pozza, 37 anos, infectologista da Fiocruz e do Hospital Clínica Grajaú PUBLICIDADE  

PUBLICIDADE ‘Uma das situações mais marcantes até agora nesta pandemia, para mim, foi quando, em agosto, tive que comunicar a morte de um paciente para sua família, e, quando terminei de falar, eles pareciam já resignados. Era o quinto familiar deles que morria de Covid-19 naquele mês. Isso me chocou muito.

Trabalho como infectologista especificamente em UTI há oito anos, e o dia a dia da unidade intensiva mudou completamente nos últimos meses. Vejo pessoas mais jovens do que eu morrendo mesmo sem ter fator de risco. A cada novo estudo, vamos tentando acompanhar, nos aprimorar, para tratar melhor esses pacientes, mas o dia a dia é difícil. Há, ainda, questões práticas bem incômodas, como o fato de termos que trabalhar durante todo o tempo paramentados. Antes, usávamos capote, máscara, luvas só no momento em que estávamos dentro da UTI. Agora, esses equipamentos ficam conosco o tempo todo. Chegam muitas vezes a ferir a pele. Já fiz plantão de 24 horas, por exemplo, e, desse total, fiquei ao menos 22 horas paramentado. A exceção é apenas nos intervalos para refeição.

Uma característica marcante dessa pandemia é que, além de aumentar o número de plantões, aumentou também o número de atividades dentro de cada plantão. Isso porque o paciente com Covid demanda vários atendimentos no mesmo dia: é preciso ajustar o bloqueador neuromuscular, verificar se melhorou oxigenação, aumentar a fração de oxigênio, reduzir a dieta. O quadro do paciente pode mudar muito rapidamente. Às vezes ele está bem e, de repente, tem uma súbita piora na coagulação, faz trombose. E temos que fazer o diagnóstico rápido, inclusive para evitar sequelas.

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É o momento mais desafiador da minha carreira. Fazia residência quando veio o (vírus) H1N1, que achávamos que tinha risco de virar uma pandemia, mas acabou não sendo tão forte. Nem se compara ao que estamos vivendo.

Por causa da pandemia de Covid, a percepção geral de que o SUS é importante cresceu. A rede privada não comportaria atendimento no ápice da pandemia. O SUS, mesmo com os hospitais sucateados, teve como dar um suporte, porque há protocolos muito eficientes, e os profissionais são muito gabaritados, estão acostumados a trabalhar com a adversidade a longo prazo.”

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