Desmatamento cai no Cerrado, mas áreas devastadas e sem uso se expandem - EntornoInteligente
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BRASÍLIA — Os alertas de desmatamento no Cerrado , o segundo maior bioma brasileiro, apontam uma redução da devastação até agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Um fenômeno, no entanto, vem chamando a atenção de pesquisadores que acompanham os mapas de satélite das áreas de fronteira agrícola: a derrubada da vegetação para não colocar absolutamente nada no lugar.

Isto vem ocorrendo principalmente na região chamada Matopiba , uma área de Cerrado mais preservada no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e que vem se transformando em uma nova fronteira agrícola para a expansão do cultivo de soja.

A prática de desmatar “para nada” foi detectada por uma pesquisa em curso no Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Pesquisadores notaram que a derrubada da vegetação do Cerrado não tem dado lugar a nada na mesma área Foto: Lapig/UFG

O Lapig é responsável por fazer o trabalho de validação dos dados de desmatamento do Cerrado produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Hoje, 11 de setembro, é o Dia Nacional do Cerrado.

Ao contrário da Amazônia, cujos alertas de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) mostram que a devastação quase dobrou no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, o Cerrado vem passando por um processo de redução dos desmatamentos.

Os alertas do Deter, formulados pelo Inpe, servem para orientar a fiscalização em campo, e não correspondem aos dados oficiais e consolidados de desmatamento. Eles indicam, porém, as tendências em curso nos dois biomas.

Na Amazônia, conforme o Deter, foram desmatados 6.404,4 km² entre janeiro e agosto deste ano, ante 3.336,7 km² no mesmo período do ano passado, um aumento de 91,9%.

PUBLICIDADE No Cerrado, a destruição somou 3.931 km² até agosto deste ano, enquanto no mesmo período no ano passado foram 4.391 km² — uma diminuição de 10,4%.

Desmatar sem ocupar Muitas das áreas abertas permanecem sem qualquer uso. É o que ocorreu em Sebastião Leal (PI), conforme constataram os pesquisadores do Lapig. Na região, eles acompanharam uma área desmatada de 127 km².

Imagens de satélite de 2015, 2016 e 2018 mostram que a área permaneceu sem uso consolidado durante todos esses anos.

Um drone sobrevoou a área e fez a mesma constatação, inclusive com regeneração de parte da da vegetação.

O fenômeno é comum no Piauí e é replicado em outros lugares de Matopiba.

Uma área de 13 km² em Loreto (MA) foi desmatada e queimada, mas para nada.

Em Dianópolis (TO), um sobrevoo em março deste ano constatou a mesma realidade.

Os pesquisadores também encontraram pequenos desmatamentos em Senador Alexandre Costa (MA) e São João do Soter (MA) sem finalidade alguma. Especulação fundiária é uma das hipóteses para os desmatamentos que são substituídos por nada Foto: Lapig/UFG

Pesquisador no Lapig e responsável pelo estudo, objeto de um doutorado em Ciências Ambientais em curso, Sérgio Nogueira aponta a especulação fundiária como uma hipótese para os desmatamentos que são substituídos pelo nada.

Especular em cima de uma área aberta explicaria os altos custos para se desmatar e abandonar em sequência grandes territórios.

PUBLICIDADE — Outra hipótese é o alto risco climático da região, bem suscetível a quebras de safras. Além disso, há muitas áreas de pastagem com boa aptidão para a agricultura, e há uma discussão sobre como aumentar a produtividade dessas áreas, seja para a agricultura ou a pecuária — diz Nogueira.

Agronegócio contra o desmate Os alertas do Deter mostram uma queda expressiva do desmatamento do Cerrado em todo o Matopiba: de 3.476 km² entre maio e agosto de 2018 para 1.452 km² entre maio e agosto deste ano.

Nogueira aponta que o agronegócio já foi considerado um dos principais responsáveis pelo desmatamento, mas que a pressão de grandes empresas, que buscam diferentes certificações ambientais para seus produtos, levou a uma mudança de postura.

— A ideia de que o desmatamento não é vantajoso ao setor agropecuário já começa a se consolidar nas discussões que envolvem ONGs, produtores, traders, governo e varejistas — afirma o pesquisador no Lapig da UFG. —Discute-se muito como fazer a agricultura avançar sobre áreas de pastagem, por exemplo.

Os dados consolidados do Prodes, que traz o desmatamento oficial em um ano, apontam uma estabilização da devastação do Cerrado nos últimos três anos e uma redução expressiva a partir de 2006.

Uma outra explicação para essa redução é o já elevadíssimo índice de perda de cobertura vegetal do Cerrado. Mais da metade do bioma já foi devastada, o que diminui, por razões lógicas, a quantidade de áreas com possibilidade de serem desmatadas.

PUBLICIDADE Na Amazônia, a perda é de 15%, levando-se conta a vegetação derrubada em nove países sul-americanos.

— No Cerrado, os acessos são mais fáceis e as estações de chuva, mais amenas. Os desmates são bem mais pulverizados do que na Amazônia. Mas, mesmo com estoques menores de vegetação, a velocidade de perda no Cerrado é similar à da Amazônia — afirma Cláudio Almeida, coordenador do programa de monitoramento da Amazônia e demais biomas do Inpe.

Apesar da queda do desmatamento em todo o Matopiba, os alertas do Deter mostram aumentos expressivos da devastação neste ano em Formosa do Rio Preto (BA) e Luís Eduardo Magalhães (BA), cidades que se constituem como os principais polos da fronteira agrícola em curso.

Entre maio e agosto deste ano, os alertas mostram um desmate de 100 km² em Formosa do Rio Preto, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado.

Em Luís Eduardo Magalhães, foram 31,9 km², quase o triplo do que ocorreu nos mesmos meses de 2018.

LINK ORIGINAL: OGlobo

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