De Alvalade a Angola, Portugal fortíssimo em Locarno

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Depois da vaga portuguesa que marcou a última edição de Cannes, o Festival de Locarno, que começou ontem, também aposta no cinema de autor nacional. Trata-se de outro comprovativo da qualidade e poder de exportação do cinema português, precisamente numa altura em que Veneza e San Sebastián também anunciam os novos de Sérgio Tréfaut, Cláudia Varejão e Marco Martins.

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Em Locarno, festival de lista A, Carlos Conceição está em competição com Nação Valente , obra de várias camadas que reflete sobre a guerra colonial em Angola. Filme de enorme beleza plástica que confirma o crescimento de um cineasta que cruza uma noção de artificialismo com um discurso sobre um outro lado da memória. A história começa em 1974 e acompanha o percurso de independentistas a reclamar territórios ao mesmo que se foca num grupo de jovens soldados portugueses retidos num acampamento e alheados da realidade.

Para Conceição cada plano parece apresentar uma crença de um olhar que é sempre um ato de cinema. A composição dos planos é de um rigor supremo, notando-se uma segurança de estilo que já se pressentia do anterior Um Fio de Baba Escarlate (tem estreia marcada para breve). De certa forma, a guinada para a sugestão de género, o filme de terror, ganha uma carga de mensagem política: os fantasmas da guerra colonial como zombies .

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Subscrever «Há um lado de ambição que temos quando esta profissão nos escolhe: sermos certificados por um destes festivais. Locarno tem esse poder e, por isso, mais do que um motivo de orgulho pela seleção, há uma sensação de confirmação e de que valeu a pena o esforço. Sinto também que completei e fechei um ciclo… A primeira vez que estive num festival grande foi em Locarno como técnico de som há dez anos e, depois, um ano depois, estive aqui com uma curta…», conta o realizador que hoje apresenta este filme também marcado pelo brilhante trabalho de atores como Vicente Gil, Leonor Silveira, Diogo Nobre, Miguel Amorim, João Arrais, Anabela Moreira ou André Cabral. «O filme teve vários pontos de partida que depois se foram encontrando e emaranhando uns nos outros. Se calhar, começou na minha infância, nomeadamente pela minha infância entre Angola e Portugal, duas forças que nessa altura pareciam antagónicas, como azeite e água. Mais recentemente, percebi que este era um filme urgente de se fazer, sobretudo quando surge este ressurgimento dos nacionalismos e dos ideais de extrema-direita pelo mundo fora. E a nossa História não está livre desses fantasmas de ideias velhas…», refere. Aconteça o que acontecer, Nação Valente é filme para em Portugal poder causar uma valente discussão sobre os horrores cometidos pelo exército português em Angola…

‘Onde fica esta Rua ou Sem Antes nem Depois’ – Um filme onde a vida e o cinema acontecem ou uma espécie de compêndio do que se pode fazer as revisitações cinéfilas…

Fora de competição, já dia 7, espaço para João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, Onde fica esta Rua ou Sem Antes nem Depois , ensaio sobre a memória de Os Verdes Anos , de Paulo Rocha. Na prática, é um filme de fantasmas a partir de uma ideia tão radical como simples: colocar hoje a câmara nos mesmos locais de Alvalade em que Rocha filmou o clássico do Cinema Novo português. Mas a Alvalade de hoje tem a paranoia da covid, a moda das trotinetes e uma nova forma de desejo. Uma Alvalade reinventada por dois cineastas que voltam a colocar Isabel Ruth no «local do crime» e que sabem que as assombrações da ficção ficam em película. Nesse sentido, é um filme inapelavelmente a partir dos sons das memórias entre a nova e a velha Lisboa. Cinema sofisticado de conceito mas também aberto a uma liberdade dos sentidos, neste caso a fluir para um humor à Tati. Uma instalação que é uma homenagem em movimento à própria ideia de um cinema português. Se terá uma vida para além da reverência cinéfila em festivais, é uma outra história…

Também da memória cinéfila se faz o documentário ficcionado Objetos de Luz , de Acácio de Almeida e Marie Carré, produção de Rodrigo Areias, igualmente fora de competição. Um objeto sobre as fontes de luz no cinema português que é sobretudo um testamento de Acácio de Almeida, diretor de fotografia histórico e cheio de histórias. Vale quase sobretudo pelos encontros e confrontações com o passado de Isabel Ruth e Luís Miguel Cintra.

Nas curtas há ainda Please Make it Work , de Daniel Soares, cineasta português que fez este filme a partir de uma residência de cineastas do próprio festival. Passa na secção Leopardos de Amanhã.

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LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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