Como o debate sobre a volta às aulas impacta a vida das mães solo - EntornoInteligente
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Desde a segunda quinzena de março, quando as aulas presenciais na escola particular onde o filho de 7 anos estuda foram suspensas, a empreendedora carioca Caroline Reis se viu desamparada.  Mãe solo, assim como outras 11 milhões de mulheres brasileiras , ela é única responsável pelo sustento do filho e da casa e, com o fechamento da escola , perdeu o único apoio que tinha para dividir a carga de cuidado com a criança.

— Antes da pandemia, a única ajuda que eu tinha vinha da escola. Antes ele estudava em período integral enquanto eu trabalhava e fazia faculdade — diz a empreendedora.

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Sem poder parar de trabalhar — Caroline toca sozinha uma empresa de comida orgânica —, ela passou a levar o filho com ela nas entregas. A empreendedora afirma que, em função disso, os dois não puderam fazer o isolamento social como recomendado pelas autoridades de saúde. Há pouco mais de um mês, ambos tiveram Covid-19.

— A gente não pode fazer isolamento, porque a empresa não pode parar. Eu me sustento e sustento o meu filho com o rendimento da minha empresa. Não pude parar e ele passou a fazer tudo comigo. Tivemos Covid, mas apenas os sintomas mais leves. Fiquei com a empresa fechada durante uma semana e depois continuei trabalhando — conta.

Em meio ao debate sobre o retorno das aulas presenciais, Caroline se vê em um dilema: embora tema pela segurança em relação à pandemia , não vê alternativa para sua situação. A escola onde seu filho estuda ainda não divulgou uma data para o retorno das atividades.

— Eu toco a empresa sozinha, faço as compras, cozinho, entrego. Eu não queria mandar ele de volta para a escola, mas não tenho outra opção. Estou ansiosa pela volta às aulas — afirma.

PUBLICIDADE A suspensão das aulas deixou em casa cerca de 641 mil estudantes da rede municipal do Rio de Janeiro, 700 mil da rede estadual e 418 mil da privada. Somando alunos, professores e auxiliares, são cerca de dois milhões de pessoas diretamente envolvidas no processo educativo no estado.

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Mas a discussão sobre a retomada das aulas presenciais tem impacto particular sobre a rotina de mães solo como Caroline. Uma pesquisa feita na Espanha mostrou que a reabertura das escolas é uma das principais causas de estresse emocional para as mães durante a pandemia, além da sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados com o filhos. Para as que não trabalham por conta própria, mas em empregos convencionais que começam a retomar ou prever a retomada das atividades presenciais, a situação é especialmente complexa.

É o caso da professora Míriam Louback, de 36 anos. Mãe solo de uma filha de 4 e um filho de 2 anos, ela trabalha como professora em Angra dos Reis. Segundo informações divulgadas pela prefeitura da cidade no início do mês, 17 de agosto é data provável para a retomada das aulas presencias do ensino médio e fundamental da rede municipal. Caso tenha que voltar para a sala de aula, Míriam conta que não terá com quem deixar os filhos, que ainda estão na educação infantil.

PUBLICIDADE — Moro sozinha com eles, sou a única responsável pelo cuidado e sustento dos dois. Antes da pandemia, eles passavam o dia na creche, o pai só levava e buscava. Agora eles estão em casa direto comigo e não tenho nenhuma ajuda. Não há previsão para a volta das aulas deles. Ouço falar que a educação infantil não volta esse ano. Se eu tiver que voltar a trabalhar presencialmente, não sei o que farei com as crianças. Estou muito preocupada com isso — conta.

Entre a necessidade financeira, a falta de uma rede de apoio e a insegurança em relação à Covid-19, muitas mães já sofrem com o dilema de enviar ou não seus filhos de volta às aulas presenciais quando elas forem retomadas, caso o retorno dos alunos seja voluntário. Para Ana Pimentel, integrante do Movimento de Mães, Pais e Responsáveis pela Escola Pública Municipal Carioca (Movem-Rio), esta não deveria ser uma decisão individual.

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— Esse é um dilema real, mas que não deveria existir. Essa não é uma decisão que deve ser tomada individualmente pelas escolas ou pelas mães. O grande responsável é o Estado. Defendemos que as escolas permaneçam fechadas enquanto não for seguro retomar as aulas e que as mães tenham o direito de permanecer em casa com os seus filhos, sem ser prejudicadas financeiramente — afirma.

PUBLICIDADE Ela ressalta a importância do fornecimento mensal cestas básicas ou vales alimentação pela prefeitura nesses casos, uma vez que a escola é fundamental para a alimentação de muitas crianças que estudam na rede municipal.

— Não adianta mandar as pessoas ficarem em casa de quarentena se elas não têm alimentação. Ou morre de Covid, ou de fome. O correto seria que as famílias fossem auxiliadas pela Secretaria Municipal de Educação, porque as crianças já recebem essa alimentação da escola. Não é uma responsabilidade nova da escola — diz a ativista, que considera a distribuição feita atualmente pela prefeitura insuficiente.

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A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informou que, nos últimos quatro meses e meio, distribuiu 400 mil cartões e cestas básicas para os estudantes, além de 241 mil litros de leite para alunos dos segmentos de creche, ensino infantil e pré-escola. A rede municipal tem 641 mil alunos. A prefeitura afirma que todos os alunos serão atendidos.

A prefeitura também anunciou na semana passada que, a partir do próximo dia 3 de agosto, as instituições privadas no município que tiverem a intenção de retornar às atividades presenciais terão autorização para voltar, de forma voluntária.  À reportagem, a Secretaria Municipal de Educação informou que não há data para a retomada das aulas na rede municipal e que o decreto que autorizou o retorno a partir do dia 16 de agosto traz apenas uma “previsão ou referência”, que pode ser alterada de acordo com o monitoramento das curvas de contágio da Covid-19 no município. Na rede estadual, ainda não há previsão de retorno.

LINK ORIGINAL: OGlobo

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