Com controle da quadrilha em disputa, maior milícia do Rio já não tem policiais no comando

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RIO — Criadas por agentes egressos de forças de segurança, as milícias envolvidas na guerra interna pelo controle da Zona Oeste do Rio não têm, hoje, policiais ou ex-policiais em seu primeiro escalão. As disputas pela sucessão na última década acabaram levando ao topo da hierarquia atual somente civis sem histórico nas polícias Civil e Militar ou em outros órgãos da área — alguns são até mesmo ex-traficantes. Entretanto, muitos policiais seguem, segundo investigações, integrando os grupos paramilitares em outras funções, como seguranças dos chefes, armeiros e até apoiando as quadrilhas em ataques e invasões.

 

As duas principais quadrilhas envolvidas na guerra são comandadas por ex-aliados que romperam no fim de 2020. Luis Antônio da Silva Braga, o Zinho, domina os bairros de Campo Grande e Santa Cruz, na Zona Oeste. Já seu desafeto Danilo Dias Lima, o Tandera, responsável pela expansão do grupo em direção à Baixada Fluminense, controla Nova de Iguaçu e Seropédica. Os dois fazem parte de uma geração de milicianos que não passaram por forças de segurança, tendo sido recrutados por paramilitares até ascenderem de funções subalternas à chefia da quadrilha.

Os grupos de Zinho e Tandera são oriundos de uma mesma milícia, criada no início dos anos 2000 por agentes de segurança que moravam em Campo Grande e batizada com um nome que faz referência a um famoso grupo de super-heróis. Na época, os irmãos Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e Natalino José Guimarães, inspetores da Polícia Civil e lideranças comunitárias locais, juntaram outros policiais que viviam na região — como o então PM Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman — e passaram a cobrar taxas da população a pretexto de enfrentar traficantes e ladrões.

Milicianos na política

Na época em que chefiavam a milícia, Jerominho e Natalino eram menos discretos do que os atuais chefes e, inclusive, chegaram a ser eleitos: o primeiro foi vereador; o segundo, deputado estadual. Entre 2007 e 2008, com a mudança de rota no enfrentamento aos grupos paramilitares gerada pela CPI das Milícias, da Assembleia Legislativa do Rio, a dupla acabou presa — e o comando do grupo passou para as mãos de uma série de PMs, que se sucederam na chefia.

Entre 2008 e 2014, comandaram a milícia os policiais militares — que acabaram expulsos — Ricardo da Cruz, Toni Ângelo Souza de Aguiar e Marcos José de Lima Gomes, o Gão, um após o outro, sempre após a prisão do antecessor. O perfil da organização criminosa mudaria a partir da prisão de Gão, em 2014. Com todos os policiais do topo da hierarquia na cadeia, não havia substituto natural. Abriu-se, assim, uma guerra pelo controle do bando.

PUBLICIDADE Um dos postulantes à chefia era Carlos Alexandre da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes. Ele era um ex-traficante que agia na comunidade cujo nome virou seu apelido, em Santa Cruz. Quando a milícia começou a expandir seus domínios pela Zona Oeste, traficantes de favelas alvo da cobiça dos paramilitares eram seduzidos e trocavam de lado.

Foi assim que Carlinhos e seus dois irmãos Wellington Braga, o Ecko, e Luis Antônio Braga, o Zinho — que, mais tarde, o sucederiam no comando — entraram para a quadrilha. Três Pontes virou uma espécie de braço direito do então chefe, o ex-PM Toni Ângelo, que defendeu seu nome na sucessão de Gão. Os outros ex-chefes presos, no entanto, não aceitavam um ex-traficante e usuário de drogas no comando e foram contra.

Para garantir o controle da milícia, Três Pontes passou a tirar do mapa os concorrentes. Em menos de um mês, cinco integrantes da cúpula da milícia, sendo dois PMs, foram mortos ou desapareceram em circunstâncias suspeitas. Pela primeira vez, a milícia tinha um chefe sem nenhuma ligação com forças de segurança.

No topo da hierarquia, o ex-traficante abriu as portas do bando para a venda de drogas — negócio que não era comum entre milicianos à época, mas que, a partir de então, também passou a ser explorado. Três Pontes foi morto em um confronto com a polícia em 2017, mas o controle da milícia seguiu na família: Ecko seguiu os passos do irmão, neutralizou possíveis ameaças à bala e assumiu o posto — em que permaneceu até o ano passado, quando também foi morto durante uma operação da Polícia Civil. Com Ecko, o grupo mudou de nome, já que este remetia ao período de primazia policial.

PUBLICIDADE Os dois candidatos à sucessão de Ecko eram seus homens de confiança, que ascenderam ao lado dele, sem ligação com as polícias. Zinho, seu irmão, era uma espécie de «gerente de finanças»: controlava as empresas usadas para lavar o dinheiro da quadrilha e operava as contas por onde passava o dinheiro sujo. Já Tandera era seu principal soldado, a quem delegou a tarefa de expandir o grupo rumo à Baixada, invadindo favelas violentamente.

Hoje, tanto Zinho quanto Tandera não têm policiais em seus primeiros escalões. O homem de confiança do primeiro é Rodrigo dos Santos, o Latrel, preso mês passado em São Paulo. Apesar de ter servido no Exército e ser considerado o braço «operacional» de Zinho — o miliciano tem até um fuzil tatuado no peito —, Latrel não fez carreira em nenhuma força de segurança. Tandera também só tem civis entre seus subordinados mais próximos, como Emanoel da Silva de Lima, o Grande, também preso recentemente. Grande era chefe do «grupo de ações táticas» da milícia, responsável por patrulhar as áreas sob controle da quadrilha na Baixada.

Atuação mais discreta

Policiais ainda atuam nesses grupos, mas em funções mais discretas. Uma investigação da Corregedoria da PM, por exemplo, revela que quatro policiais fardados e de serviço facilitaram a invasão pela milícia da favela do Rola, em Santa Cruz, em julho de 2018. Segundo a apuração, os agentes, que tiraram fotos com os paramilitares no dia da ação, «permitiram que milicianos saíssem da comunidade, após confronto armado com traficantes, sem que fossem incomodados e, ainda, se deixaram fotografar junto aos mesmos». No último dia 18, a PM abriu processo administrativo para expulsar os quatro.

PUBLICIDADE — O número de egressos de forças de segurança realmente diminuiu, mas ainda estão lá. A participação fica mais restrita a outras funções, como o vazamento de informações sigilosas, o que prejudica muito o trabalho da polícia. A rede de contatos desses grupos tem uma capilaridade enorme — diz o delegado Thiago Neves Bezerra, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

A terceira milícia envolvida na guerra também não tem agentes de segurança entre seus chefes, mesmo tendo sido criada por policiais. O grupo que domina as favelas do Campinho, na Zona Norte, e da Praça Seca, na Zona Oeste, selou uma aliança com Tandera e, atualmente, auxilia o miliciano com armas e homens.

A mudança no perfil da quadrilha, contudo, não aconteceu à bala: a chefia do grupo passou de pai para os filhos. O sargento da PM Goulart Vital Pereira, morto em 2011, foi um dos fundadores da milícia e é pai dos atuais chefes: Leonardo Luccas Pereira, o Leléo, e Diego Luccas Pereira, o Playboy, atualmente preso. Os dois não viraram policiais, mas mantêm laços com agentes de segurança. Em seus celulares, apreendidos pela Polícia Civil, investigadores encontraram contatos de dezenas de PMs.

— Hoje, ao contrário do que acontecia há duas décadas, autoridades não falam abertamente de modo favorável sobre esses grupos em público. Os elos tornaram-se mais discretos, só não quer dizer que não existam. E essa lógica vale tanto para policiais quanto para o sistema político-partidário. Você pode não ter vereadores e deputados no organograma, mas os vínculos persistem — afirma Daniel Hirata, sociólogo e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da UFF.

PUBLICIDADE Procurada, a PM afirmou que ações da Corregedoria «resultaram na exclusão de envolvidos e desestimularam o engajamento neste tipo de prática criminosa». A corporação informou que expulsou 428 homens entre 2018 e 2021, mas não precisou quantos por ligação com milícias. Já a Polícia Civil informou que a força-tarefa de combate a grupos paramilitares tem inquéritos abertos sobre a participação de agentes públicos nas quadrilhas. Segundo o órgão, o grupo de investigação já prendeu 30 PMs associados a milícias.

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