BRASIL: Viúva de homem morto na Rocinha acusa PMs de terem atirado - EntornoInteligente

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RIO – A viúva do ajudante de pedreiro Davidson Farias de Sousa, de 28 anos, morto com um tiro, na Rocinha, na tarde de quinta-feira, quando estava com o filho de seis meses no colo, acusou ontem homens do Batalhão de Choque de terem confundido o bebê com uma arma. Aos prantos, Adriana Santos da Silva contou ao GLOBO que o marido costumava deixar o menino apoiado num dos antebraços, voltado para cima, o que pode ter causado a impressão, para policiais que estavam a cerca de 150 metros, de que Davidson segurava um fuzil. A morte do ajudante de pedreiro, baleado quando estava na varanda da casa da mãe, é a 12ª registrada este mês na Rocinha, comunidade que sofre com uma guerra desde setembro do ano passado. Somente no último sábado, oito pessoas foram assassinadas na favela.

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A revolta de Adriana é ainda maior porque os policiais militares, que segundo ela atiraram contra Davidson, tinham armas com lunetas, que ajudam a identificar melhor os alvos, mesmo à distância.

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– Como confundir uma criança com uma arma? Não tem lógica. Por que atiraram lá de baixo numa pessoa que estava no alto? Além do meu marido e do meu filho, tinha mais duas pessoas na varanda, o irmão do Davidson e um senhor. Se viram os três adultos, não perceberam que um deles estava com uma criança no colo? Hoje em dia veem um guarda-chuva e já confundem com arma. Mas confundir um bebê? Será que lá de baixo não deu para enxergar? Eles tinham lentes, como não se deram conta? – disse Adriana, em estado de choque, mas precisando manter a calma para cuidar de seu bebê.

PRIMEIRO E ÚNICO NAMORADO

Na sexta, a viúva do ajudante de pedreiro passou o dia na casa que dividia com o marido, seu primeiro e único namorado, e o filho, na localidade da Rocinha conhecida como Vila Verde. O imóvel fica a cerca de 50 metros da casa da sogra dela, Marlene da Silva, onde Davidson estava quando foi morto. Ele havia ido à casa da mãe para começar a preparar a caldeirada de frutos do mar com os peixes que pescara. O prato seria servido na Sexta-Feira Santa, quando a família comemoraria também os 6 meses do bebê. Adriana, que trabalha como cuidadora de idosos, já se perguntava como contará ao menino, quando ele crescer, sobre a morte do pai:

Desespero. Adriana chora, junto de uma amiga, enquanto vela o sono do filho – Marcio Alves / Agência O Globo – O que vou dizer para o meu filho quando ele crescer? Como explicar que o pai dele foi atingido por um tiro quando o segurava no colo? – indagava a viúva, num pequeno cômodo da casa, onde o bebê dormia, com uma camisa de Davidson perto do rosto, em uma cama com colcha de retalhos. – Há cerca de um mês, separei uma camisa do meu marido para que meu filho cheirasse e se lembrasse do pai quando ele estivesse trabalhando.

A morte do marido é a segunda perda da cuidadora de idosos em menos de um mês. O pai dela, Sebastião da Silva, também morreu há pouco, vítima de um edema cerebral aos 58 anos:

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– Até agora estou perguntando para Deus por que estou passando por isso. Por que que eu perdi meu pai? Por que perdi meu marido? Os dois tinham uma ligação tão forte que Davidson, quando meu pai morreu, mandou fazer uma camiseta com uma foto em que aparecíamos nós três. Fico olhando e me dá muitas saudades.

Adriana quer justiça e teme que os autores dos tiros não sejam punidos.

– Me dói muito a possibilidade de a pessoa que fez isso não pagar pelo crime. Estar passando por tudo isso, essa dor, e nada acontecer.

A mãe de Adriana, Severina Ramos, de 55 anos, também atribui a morte do genro à falta de preparo dos policiais.

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– Os policiais têm que prestar atenção porque aqui moram pessoas. São crianças, senhoras e velhos que têm famílias e filhos. Aqui em casa não tem bandido. Todos são trabalhadores, pais de família que ralam todos os dias para dar o pão para a mulher, para os filhos. Dava para ver que o Davidson estava com uma criança no colo, eles não são cegos. Foi uma covardia. Foi Deus que botou a mão na criança, que poderia ter sido atingida também – criticou Severina.

IRMÃOS TENTARAM SOCORRO

Tia de Davidson, Rosenete Farias da Silva disse que as atrocidades da polícia têm se tornado cada vez mais comuns em ações na Rocinha:

– Já chegam atirando nas pessoas, esculachando as mulheres, não querem nem saber. Já chegam metendo bala. Só porque usam uma farda acham que têm o direito de chegar matando na frente de todo mundo – afirmou, frisando que Davidson não tinha envolvimento com criminosos.

Veja também Testemunhas da violência do Rio são escolhidas para representar apóstolos na cerimônia do Lava-pés Secretário anuncia que PMs farão cursos de reciclagem nos próximos dias Com filho no colo, ajudante de pedreiro é morto na Rocinha Ontem, o dia também foi de dor na casa de dona Marlene. Os três irmãos de Davidson, todos mais velhos, passaram o dia na varanda onde o ajudante de pedreiro foi atingido, tentando entender o que havia acontecido. E contavam a todo instante o que fizeram para tentar salvar a vida do caçula.

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– Quando ele foi atingido, caiu com a cabeça para dentro da sala. Tivemos que usar o tapete para arrastá-lo. Os tiros continuaram. Pegamos logo nosso sobrinho do chão. Ele estava muito assustado e chorava – dizia um dos irmãos, enquanto outro mostrava marcas de tiro de fuzil num estabelecimento próximo ao imóvel.

A Delegacia de Homicídios investiga o caso e ontem fez uma perícia na casa onde Davidson foi morto com um tiro no lado esquerdo do peito. As armas dos policiais do Batalhão de Choque que faziam uma operação na Rocinha no momento em que o ajudante de pedreiro foi atingido não foram, no entanto, recolhidas. Procurada, a Polícia Militar não se pronunciou sobre a acusação feita pela família de que Davidson foi morto por um membro da corporação.

Davidson será sepultado hoje no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Ontem à noite, a polícia reforçou o patrulhamento no entorno da Rocinha temendo protestos por causa da morte do ajudante de pedreiro.

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