BRASIL: O pai determinado que pegou Linda Brown pela mão e fez História - EntornoInteligente

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WASHINGTON – Em setembro de 1950, um homem negro pegou sua filha de 7 anos pela mão e caminhou de forma brusca por quatro blocos até uma escola exclusiva para brancos na sua vizinhança, em Topeka, capital do estado americano do Kansas.

Sumner era a escola primária mais próxima à casa deles, mas Linda Brown não era autorizada a frequentá-la por causa da cor de sua pele.

O reverendo Oliver Leon Brown estava destemido naquele dia de setembro, como recordaria sua filha mais de 50 anos depois, durante um discurso na Universidade de Michigan, em 2004. Ela lembrou que as mãos do pai eram fortes, de boxeador. Ele era um homem corpulento que fora campeão de competições amadoras de boxe, e aquela era uma luta que ele estava determinado a ganhar.

Brown, pastor assistente de uma igreja metodista e trabalhador da Santa Fe Railway, queria que a filha pudesse se inscrever na escola primária exclusiva para brancos – não porque este colégio fosse superior à escola para negros que ela frequentava, distante mais de três quilômetros – mas porque era uma questão de princípios.

– Essas eram as circunstâncias que tanto irritavam pais negros – Linda contou à plateia na Universidade de Michigan. – Meu pai perguntou: “Por quê? Por que nós temos que dizer aos nossos filhos que eles não podem ir à escola perto da casa deles porque a pele deles é negra?”

Linda Brown, que depois se tornou Linda Brown Thompson e trabalhou como professora do programa Head Start, morreu esta semana, em Tapeka, aos 75 anos (alguns jornais afirmam que ela tinha 76). Ela perdera o pai décadas antes.

SUPREMA CORTE

Oliver Brown caminhou com um senso de urgência naquele dia. Ele não sabia que o que ele e a filha estavam prestes a fazer mudaria a História, levando à decisão da Suprema Corte “Brown versus Conselho de Educação”, que poria fim a décadas de segregação nas escolas públicas.

Ela lembrou que tentava acompanhar o pai.

– Sendo muito pequena, os passos pareciam muito grandes e altos, e nós entramos em um prédio – ela disse durante uma entrevista no documentário “Eyes on the Prize”.

Dentro da Sumner School, Oliver Brown disse a Linda para se sentar no saguão, enquanto ele ia até o escritório do diretor a fim de exigir igualdade para a filha.

Linda Brown podia ouvir as vozes do pai e do diretor ficando mais altas:

– Eu sabia que algo estava deixando meu pai muito aflito.

Depois de um tempo, o pai saiu do escritório e pegou a mão da filha novamente, e eles caminharam para a casa.

O pai de Linda não disse o que aconteceu naquele escritório, mas ela sabia que ele estava chateado.

– Eu podia sentir a tensão na mão dele, a tensão de seu corpo culminando na minha mão, porque ele estava muito contrariado com alguma coisa – lembraria.

Ela não sabia o que o diretor havia dito para o pai. Sendo uma criança de 7 anos, sua única esperança era que ela pudesse ir para a escola no ano seguinte com seus amigos brancos.

Fotos de arquivo mostram Linda Brown vestida com um casaco de lã abotoado até o pescoço, segurando sua merendeira enquanto atravessava a cerca de Sumner.

‘Pais negros em Topeka sentiam que já havia passado da hora de inscrever seus filhos na escola mais próxima de casa’

– Linda Brown Americana cujo pai entrou na Justiça para que pudesse estudar em escola frequentada por brancos – Pais negros em Topeka sentiam que já havia passado da hora de inscrever seus filhos na escola mais próxima de casa – disse Linda Brown à plateia da Universidade de Michigan.

O pai dela chegava em casa e encontrava a esposa triste “porque eu (Linda) tinha que caminhar, assim como ela havia feito tantos anos antes, pegar o ônibus escolar e ser levada por três quilômetros pela cidade” até a escola destinada a negros, Monroe Elementary School.

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Alguns dias, a caminhada até o ônibus era congelante, pois ela precisava enfrentar o inverno que varria a pradaria do Kansas.

– Eu ainda me lembro daquela caminhada difícil e do frio terrível que fazia com que minhas lágrimas congelassem no meu rosto – Linda contou no discurso.

Oliver Brown e outros pais negros que tentavam inscrever seus filhos em escola apenas para brancos em Topeka recebiam recusas descaradas.

Então, em fevereiro de 1951, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) da cidade, liderada pelo advogado Charles S. Scott, entrou com uma ação contra o distrito escolar na corte federal.

Em julho do mesmo ano, o painel de três juízes do tribunal federal ouviu o testemunho de Oliver Brown e de outros pais negros, que argumentaram que escolas segregadas para crianças negras eram desiguais.

A corte federal decidiu a favor do Conselho de Educação de Topeka e suas escolas segregadas.

Em 1952, o caso teve recurso à Suprema Corte, que o consolidou com outros casos de segregação em escolas ao redor do país. A corte combinou cinco ocorrências de Delaware, Kansas, Carolina do Sul, Virgínia e da capital dos EUA, Washington, em um único processo, que ficou conhecido como Brown v. Conselho de Educação.

Os outros casos incluíam: Bolling v. Sharp, em Washington; Briggs v. Elliot, na Carolina do Sul; Belton v. Gebhart (Bulah v. Gebhart), em Delaware; e Davis v. Conselho de Educação do Condado de Prince Edward, na Virgínia. Mas Oliver Brown se tornou o querelante principal.

Thurgood Marshall, conselheiro-chefe para o Fundo de Defesa Legal & Educação da NAACP, liderou os argumentos a favor dos direitos das crianças negras de frequentarem escolas para brancos, desafiando a doutrina legal “separado, mas igual”, que vigorava desde 1896 com a aprovação da Suprema Corte, no caso Plessy v. Ferguson.

Em Kansas, a família Brown acompanhava o caso de longe.

– Nós vivíamos na calmaria do olho do furacão, observando a tempestade ao nosso redor e nos perguntando quando isso iria acabar – Linda contou na Univerdade de Michigan. – Eu não acho que meu pai tenha desanimado alguma vez. Naquele momento, nem eu nem meus pais sabíamos quão longo o processo se tornaria.

No dia 17 de maio de 1954, a Suprema Corte anunciou sua decisão unânime, declarando que “instalações educacionais separadas eram inerentemente desiguais”.

‘Vivíamos na calmaria do olho do furacão, observando a tempestade ao nosso redor e nos perguntando quando isso iria acabar’

– Linda Brown . O chefe de Justiça Earl Warren entregou a decisão: “Nós concluímos que, no campo da educação pública, a doutrina do ‘separado, mas igual’ não tinha lugar.”

Em Topeka, Linda Brown estava voltando da escola quando soube da notícia. Quando chegou em casa, ela se lembra:

– Havia lágrimas nos olhos de meu pai.

A turbulência tomou conta dos distritos escolares em todo o país, incluindo uma “grande resistência” na Virgínia, onde o governador fechou escolas públicas para impedir a integração.

De acordo com Linda Brown, em Topeka, a integração aconteceu de forma calma no outono de 1954:

– Nem eu, nem minha família sofremos o abuso e o conflito racial que aconteceu em tantas partes do país – contou Linda. – Meu pai acreditava firmemente que Deus faria as pessoas fazerem a coisa certa.

A seu pai foi oferecido um cargo na Igreja Metodista Episcopal Africana, em Springfield, no estado do Missouri, e a família se mudou.

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– Revistas começaram a fazer matérias sobre o que estava acontecendo comigo e com a minha família – contou Linda. – Foi durante esse período que eu herdei muito do reconhecimento do meu pai.

Oliver morreu aos 42 anos, em 1961, enquanto eles moravam no Missouri.

– Mal sabia ele que anos depois – disse a filha -, quando saiu do banco de testemunhas, entraria para as páginas da História.

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