BRASIL: Cinquenta anos após morte de Martin Luther King, a luta persiste - EntornoInteligente

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SELMA, MONTGOMERY, BIRMINGHAM, MEMPHIS, LITTLE ROCK e FERGUSON, EUA – Os passos de Martin Luther King continuam sendo renovados por negros em todos os Estados Unidos. Por pessoas como Daniel Henry, estudante de 21 anos, que foi de Houston (Texas) a Selma (Alabama) refazer a travessia da Ponte Edmund Pettus, palco da luta pelo voto livre, marcada pela liderança do líder assassinado em 4 de abril de 1968. O ato do universitário não é apenas uma homenagem, mas o reconhecimento de que o sonho do dr. King, como é chamado, está longe de ser uma realidade: os americanos ainda convivem com graves problemas raciais.

— Temos o dever de continuar a luta iniciada por eles. Os negros ainda são discriminados. A luta dos direitos civis está longe do fim — disse Henry, que, com uma bandeira Pan-Africana, liderou a travessia do grupo de 30 estudantes, que havia encarado mil quilômetros de ônibus refazendo a rota dos direitos civis e que em sua marcha entoavam: “O que queremos? Justiça! Quando? Agora!”.

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O racismo não está definido em lei como na época da luta de Luther King, mas segue enraizado no cotidiano, na falta de oportunidades e nos bolsos dos negros americanos. A segregação silenciosa é notada de qualquer ângulo que se olhe: há mais negros que brancos nas cadeias, a pobreza os castiga com o triplo da força que aflige os descendentes de europeus e — apesar de Barack Obama ter chegado à Casa Branca — a política nacional não reflete a demografia nos postos de comando do país. Os Estados Unidos continuam sendo injustos com um quinhão importante de sua população.

— A situação piorou nas escolas — disse Lecia Brooks, diretora de divulgação do Southern Poverty Law Center, uma das principais organizações de direito dos negros e que mantém o Museu dos Direitos Civis em Montgomery.

Luther King na varanda do Lorraine Motel, com Jesse Jackson, na vésperade sua morte – AP/3-4-1968 A cidade é a capital do estado do Alabama, e foi o ponto final da marcha iniciada em Selma pelo direito ao voto, além do local do boicote de mais de um ano ao transporte público, entre 1955 e 1956, em protesto contra a lei que dava aos brancos a primazia para se sentar nos assentos dos ônibus.

— Aqui, no Alabama, praticamente só negros frequentam as escolas públicas, que perderam qualidade. Os brancos vão a escolas particulares ou aprendem em casa. Na Califórnia, a qualidade do ensino das escolas frequentadas pelos negros é pior que a média nacional dos anos 60.

A garçonete Latoya Williams, de 33 anos, afirma que Selma está longe do modelo que o local de uma luta histórica deveria ser: quase não há negros sócios do Country Club, quase não havia brancos no jubileu dos 50 anos da travessia histórica da ponte, comemorado em março de 2015.

— Há os que não me cumprimentam, mas dão “bom dia” a outros brancos — disse ela, que tem esperanças de que a nova geração seja mais justa. — O racismo é silencioso, mas segue presente.

Luther King, pastor da Igreja Batista, foi o líder mais conhecido do movimento pelos direitos civis dos negros americanos, entre os anos 1950 e 60. Com um discurso poderoso de fé, amor e pacifismo — mas pregando a desobediência civil —, recebeu o Nobel da Paz em 1964. Foi assassinado quando tinha 39 anos, em Memphis, no estado do Tennessee, onde apoiava a greve dos negros do serviço de saneamento da cidade. Sua morte é cercada de mistério. James Earl Ray confessou e foi condenado a 99 anos de prisão, mas sempre houve rumores de uma suposta conspiração de racistas e do próprio governo. Como líder, viu cair leis de segregação em escolas, nos transportes, aderiu ao boicote à Guerra do Vietnã e fez o clássico discurso “Eu tenho um sonho” na Marcha a Washington, em 1963.

— Quando era pequeno, toda a vez que minha mãe me levava ao médico, sonhava em ser atendido por um médico negro. Ora, eu vivi para ver um presidente negro — conta Jake Williams, que participou da marcha que atravessou a ponte de Selma quando tinha 13 anos. — O voto é a chave de tudo. Essa é a nossa força.

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Sociedade dividida

A economia, contudo, é uma das fraquezas. Segundo o Censo, em 2016 havia 22,7% de negros vivendo abaixo da linha da pobreza, contra apenas 7,8% de brancos não hispânicos. O salário médio anual de uma família negra era de US$ 38.555, muito abaixo da média nacional (US$ 57.617) e de todos os grandes grupos sociais, como latinos, asiáticos, indígenas e, claro, brancos (US$ 80.720).

— É muito bom ver a luta e as conquistas, mas a pobreza é a pior forma de segregação. As leis fazem a gente pensar que todos somos iguais, mas um negro tem muito menos oportunidades — afirmou Connie Grayson, que visitava o Museu Nacional dos Direitos Civis, em Memphis.

A batalha pela igualdade Locais que marcaram luta pelos direitos civis Montgomery 1 Boicote a ônibus entre 1955 e 1956 contou com apoio de Luther King 2 Selma Marcha pelo direito ao voto, em 1965, pelos 85 km de Selma a canadá Montgomery, com Luther King. Somente na terceira tentativa chegaram ao Capitólio do Alabama 3 Birmingham eua Local onde Luther King foi pastor e foram realizados grandes protestos em 1963 indiana 4 Memphis 6 illinois Marcada pela greve dos trabalhadores de saneamento, em 1968. Na missouri cidade, Luther King foi assassinado em 4/4/1968 kentucky 5 Little Rock tennessee arkansas Em 1957, o governo federal envia tropas federais para garantir a nove 4 5 estudantes negros o direito de estudar alabama 3 6 Ferguson, Missouri 2 louisiana Em 9/8/2014, o assassinato do jovem negro Michael Brown, 18 anos, 1 desarmado, por um policial branco gerou uma onda nacional de mississipi 100km protestos e projetou o Black Lives Matter A batalha pela igualdade Locais que marcaram luta pelos direitos civis indiana 6 illinois missouri kentucky tennessee arkansas canadá 4 5 alabama 3 2 eua louisiana 1 mississipi 100km Montgomery 1 Boicote a ônibus entre 1955 e 1956 contou com apoio de Luther King 2 Selma Marcha pelo direito ao voto, em 1965, pelos 85 km de Selma a Montgomery, com Luther King. Somente na terceira tentativa chegaram ao Capitólio do Alabama 3 Birmingham Local onde Luther King foi pastor e foram realizados grandes protestos em 1963 4 Memphis Marcada pela greve dos trabalhadores de saneamento, em 1968. Na cidade, Luther King foi assassinado em 4/4/1968 Little Rock 5 Em 1957, o governo federal envia tropas federais para garantir a nove estudantes negros o direito de estudar 6 Ferguson, Missouri Em 9/8/2014, o assassinato do jovem negro Michael Brown, 18 anos, desarmado, por um policial branco gerou uma onda nacional de protestos e projetou o Black Lives Matter

Ela é de Jackson, Mississippi, estado que tem o maior percentual de negros na população e onde um em cada cinco moradores vive na pobreza.

Terri Freeman, presidente do museu, que funciona no antigo Lorraine Motel — onde King foi assassinado —, afirma que a luta pela igualdade e por oportunidades permanece tão presente quanto em 1968. Para ela, o racismo se sedimentou: quase ninguém se choca com a existência de empregos, bairros, escolas apenas para negros. Pelo contrário, muitos sofrem duplo preconceito por isso.

— Ouvimos sempre que os negros se segregam, que eles criaram uma cultura, uma sociedade própria. Isso é o mesmo que tentar culpar a vítima por um crime. Os negros criaram comunidades próprias por sobrevivência. A maior parte de nós não se sente à vontade no resto da sociedade, onde nos veem como ameaças — disse.

E os problemas cresceram. Para Nancy Thompson, moradora de Little Rock, no Arkansas — cidade que viu o governo enviar tropas federais para garantir que nove alunos negros pudessem estudar em uma escola de brancos em 1957, episódio que acabou com os políticos brancos simplesmente fechando a escola para não obedeceram a ordem —, o cenário político atual não ajuda:

— Trump não condenou os racistas que se manifestaram ano passado em Charlottesville, na Virgínia. Ele dá voz aos grupos de ódio. Nunca vi em meus 45 anos uma situação de tamanha tensão e separação como agora.

Desigualdade social e econômica Diversos indicadores mostram que a separação continua nos EUA Renda Rendimento anual familiar por grupo (2016) Brancos não-latinos Asiáticos Nativos do Havaí Latinos Indígenas Negros Média dos EUA 57.617 (em us$) 80.720 63.155 57.112 46.882 39.719 38.555 em US$ Pobres Porcentagem das famílias abaixo da linha da pobreza (2016) Brancos não-latinos 7,80% 10,10% Asiáticos Latinos 19,40% Indígenas 21,90% Negros 22,7% 12,70% Média dos eua Desequilíbrios (em %) Latinos Outros Brancos não-latinos Negros 80,2 7,3 9,3 3,2 Congresso 61,3 17,8 13,3 7,6 Sociedade 30 23 33 14 Cadeias Fonte: Censo e Pew Research Center Desigualdade social e econômica Diversos indicadores mostram que a separação continua nos EUA Renda Rendimento anual familiar por grupo (2016) Média dos EUA 57.617 (em us$) Brancos não-latinos 80.720 63.155 Asiáticos Nativos do Havaí 57.112 46.882 Latinos 39.719 Indígenas 38.555 Negros Pobres Porcentagem das famílias abaixo da linha da pobreza (2016) Brancos não-latinos 7,80% 10,10% Asiáticos Latinos 19,40% Indígenas 21,90% Negros 22,7% 12,70% Média dos eua Desequilíbrios (em %) Latinos Brancos não-latinos Outros Negros 80,2 7,3 9,3 3,2 Congresso 61,3 17,8 13,3 7,6 Sociedade 30 23 33 14 Cadeias Fonte: Censo e Pew Research Center

Além da economia, a violência é outro ponto marcante. Embora sejam 13,3% da população, negros somam 33% dos presidiários, percentual maior que o de brancos não latinos (30% nos presídios e 61,3% da sociedade). A violência policial sistemática de policiais brancos contra negros fez surgir o Black Lives Matter (Vidas negras importam), movimento que ganhou envergadura após o assassinato de Michael Brown, jovem negro de 18 anos desarmado, em Ferguson (Missouri) em agosto de 2014.

— Trouxe meu filho aqui para ele ter a consciência da luta dos negros e para que a morte de Brown não seja em vão — disse Amber Johnson, professora de Comunicação da Universidade de St. Louis, que estava ao lado de Matthew, de 11 anos, diante da placa no chão, cercada de flores e um urso de pelúcia, que marca o local do crime que chocou o país e gerou protestos. — Os movimentos negros precisam falar mais de futuro, de propostas, não da segregação, conhecida por todos nós.

No local do crime, uma cidade satélite de St. Louis, o clima ainda é de descontentamento.

— Quase nada mudou. Continuamos sendo mal vistos pela polícia, que apenas têm mais medo de fazer algo errado — explicou Robert Sharp, que mora na rua do crime.

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O caso fez com que St. Louis se tornasse um polo para movimentos progressistas, a capital dos movimentos sociais do Meio-Oeste americano. O Black Lives Matter se tornou modelo para outros movimentos, com sua estrutura descentralizada, como foi visto na Marcha das Mulheres e na Marcha Pelas Nossas Vidas, contra as armas, onde a neta de King, Yolanda Renee King, de 9 anos, discursou.

— A ironia é que St. Louis é a cidade que abraça pessoas do mundo, é um polo para a recepção de refugiados. Há uma onda de sírios, tivemos bósnios, africanos. Mas ela ainda não consegue abraçar da forma correta os negros que nasceram aqui — afirmou Minerva López, californiana de origem mexicana, dona de restaurantes e que apoia o Black Lives Matter com dinheiro e comida nas manifestações. — Este país ainda está muito longe do que queremos, do que Martin Luther King sonhava.

Compare livros, filmes e intelectuais ícones do movimento negro na década de 1960 e agora Capa do livro "O Sol é para todos" (1963), de Harper Lee Foto: Reprodução O que liam “Da próxima vez o fogo” (1963), de James Baldwin; “O Sol é para todos” (1963), de Harper Lee; “As confissões de Nat Turner” (1967), de William Styron; “Sei porque canta o pássaro na gaiola” (1969), de Maya Angelou; “Letter from Birmingham Jail” (1963), de M. L. King Capa do livro "Undergorund railroad – Os caminhos para a liberdade", de Colson Whitehead Foto: Reprodução O que leem “Entre o mundo e eu” (2015), de Ta-Nehisi Coates; “The underground railroad — Os caminhos para a liberdade” (2016), de Colson Whitehead; “O ódio que você semeia” (2017), de Angie Thomas O cantor, guitarrista e compositor Chuck Berry no palco do show coemorativo de seus 60 anos no Fox Theatre, em St. Louis, em 17 de outubro de 1986 Foto: James A. Finley/AP/17-10-1986 / AP Quem ouviam Nina Simone; Sam Cooke; Curtis Mayfield; Chuck Berry (foto); Charles Mingus; Ray Charles; John Coltrane; James Brown; Sly Stone.; Marvin Gaye A cantora Beyonce no palco do MTV Video Music Awards de 2006 em Nova York, em 31 de agosto de 2006 Foto: Gary Hershorn / Reuters/31-08-2006 Quem ouvem Beyoncé (foto); Janelle Mónae; Jay Z; Pharrell; Kendrick Lamar; Lauryn Hill O escritor americano James Baldwin em 1953 Foto: Arquivo Quem liam James Baldwin (foto); Maya Angelou; Amiri Baraka; Richard Wright; Alice Walker O jornalista americano Ta-Nehisi Coates, autor de "Entre o mundo e eu" Foto: Gabriela Demczuk / The New York Times Quem leem Ta-Nehisi Coates (foto); Cornel West; Colson Whitehead; Angie Thomas Cena do filme "Adivinhe quem vem para jantar", de 1967 Foto: Reprodução O que viam “No calor da noite” (1967), de Norman Jewison; “Adivinhe quem vem para jantar” (1967), de Stanley Kramer (foto); “O Sol é para todos” (1962), de Robert Mulligan; “Crisis: behind a presidential commitment” (1963), de Robert Drew Cena do filme "Corra!", de Jordan Peele Foto: Reprodução O que veem “Pantera Negra” (2018), de Ryan Coogler; “Corra!” (2017), de Jordan Peele (foto); “Selma – uma luta pela igualdade” (2014), de Ava DuVernay; “A 13ª emenda” (2016), de Ava DuVernay

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