BRASIL: A Belfast morena - EntornoInteligente

OGlobo / Os ventos que açoitaram a cidade ao longo da semana, derrubando árvores e assustando os cariocas, bem podem ser um aviso de Iansã, um necessário “presta atenção” da deusa das tempestades. Tomara. A terra carioca está precisada da força de todos os orixás, diante de uma tragédia que se desenha a cada dia mais intensamente. O fantasma da intolerância religiosa atormenta uma das capitais da cultura afro-brasileira (ao lado de Salvador e São Luís), ameaçando os seguidores das religiões de matriz africana, numa espiral de brutalidade empreendida, em especial, por fiéis e sacerdotes de igrejas neopentecostais.

A cidade que ainda sangra pelo tráfico de drogas e assiste impotente ao crescimento das milícias se vê agora às voltas com nova mazela explosiva. Ainda não há casos fatais, mas o Rio faz uma espécie de vestibular para virar Belfast, a capital da Irlanda do Norte, endereço de explosivas batalhas entre católicos e protestantes, que deixaram centenas de mortos nas décadas de 1960 a 1990.

Aqui, conflitos em torno da fé — onde, na verdade, se desenvolve uma luta por poder político — ganham espaço crescente na crônica policial, e as vítimas pagam por pecados que não cometeram. Além do óbvio sofrimento pela repressão às suas escolhas, só contam mesmo com o axé dos orixás para socorrê-las. Entre os humanos são praticamente ignoradas — principalmente por quem tem a obrigação de zelar pelas liberdades individuais de todos.

Jogo jogado: um grupo religioso se impõe, sofistica ações e estratégias, espalha sua presença por variados setores, acumula prestígio e força política, enquanto outro míngua, sufocado pela violência. Para piorar, as ocorrências mais frequentes acontecem lá longe, naqueles confins cariocas onde o filho chora e a mãe não ouve.

— Ser macumbeiro e morar numa favela hoje é um risco de vida — resume a pesquisadora Rosiane Rodrigues, autora da dissertação de mestrado em antropologia (para a UFF) “Quem foi que falou em igualdade?”, estudo sobre a intolerância religiosa no Rio.

Durante 14 meses, ela acompanhou a rotina do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine) e, esta semana, deu perturbadora entrevista a Octavio Guedes e Lilian Ribeiro, na Rádio CBN, detalhando a profundidade do problema. As igrejas neopentecostais encaram as religiões afro-brasileiras como o mal a ser exterminado, levando seus seguidores a trocar o axé pelo louvor a Jesus.

A destruição de imagens dos orixás e a repressão ao uso de guias e roupas brancas é apenas a face mais visível da guerra. Os neopentecostais, revela Rosiane, estão cada vez mais presentes no movimento negro, em busca de se legitimar como a verdadeira religião desta parcela dos cariocas. Jamais por acaso, ela encontrou ativistas defendendo que candomblé e umbanda viraram “coisa de branco”.

— É, na verdade, uma disputa de mercado que passa também pelos presídios — aponta a pesquisadora. — Os programas sociais que beneficiam pobres e negros aumentaram essa cobiça.

(Rosiane faz importante distinção: ao contrário do que muita gente imagina, neopentecostal é uma coisa, evangélico outra. Assim, segundo ela, denominações como a Igreja Batista, a Presbiteriana e a Assembleia de Deus estão fora do estudo — e da truculência.)

Da teoria à prática, as histórias se multiplicam, para comprovar o acerto da pesquisadora. Segunda-feira, 28 de agosto, um aluno de 12 anos chegou à Escola Municipal Francisco Campos, no Grajaú, mas foi barrado pela diretora da instituição, que, na frente de todos, vetou a entrada por ele estar usando guias de candomblé e bermuda branca. (O prefeito Eduardo Paes apressou-se em receber o garoto e sua mãe para pedir desculpas e mandou abrir a protocolar sindicância — mas é pouco.)

Esta semana, o delegado Henrique Pessoa, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, acabou preso ao reagir à perseguição de fiéis e do pastor Tupirani Lores, fundador da igreja Geração em Cristo. O policial atirou e feriu um seguidor que o assediava. Passou uma noite na cadeia e, ao sair, alegou ter apertado o gatilho “no desespero”. No episódio, os religiosos vestiam camisetas com inscrições como “Bíblia sim, constituição não”. Na internet, divulgam libelos preconceituosos em vídeo, com frases como “todo pai de santo é homossexual” e “centro espírita é lugar de invocação do diabo”.

Apenas um par de exemplos da prática que ameaça incluir o Rio na triste lista das cidades onde há derramamento de sangue em nome da fé. Haja axé para estancar tanto ódio.

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