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Audiências de Bolsonaro com 'ministério paralelo' antecederam apologia ao tratamento precoce

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Entornointeligente.com / RIO — As reuniões do chamado “ministério paralelo”, apontado por membros da CPI da Covid como responsável por orientar o presidente Jair Bolsonaro em assuntos relacionados à pandemia, não apenas tiveram espaço em 29 agendas oficiais do presidente e de integrantes do governo, como parte delas antecedeu momentos de escalada no posicionamento de Bolsonaro e da gestão federal sobre o uso de medicamentos sem eficácia no tratamento da doença e contra medidas de isolamento social. É o que indica um levantamento do GLOBO a partir de documentos enviados à CPI e das agendas de integrantes do governo.

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Entre as principais defensoras do uso da cloroquina contra a Covid-19 no país — tratamento que não tem eficácia contra a doença —, a médica oncologista Nise Yamaguchi, que será ouvida pela CPI na terça-feira, encontrou-se com Bolsonaro em momentos-chave do posicionamento do governo no ano passado sobre o medicamento. Ao todo, Nise Yamaguchi teve cinco agendas com o presidente.

Em 15 de maio, mesmo dia em que o presidente anunciou um novo protocolo para o uso de cloroquina contra Covid-19, ocorreu uma reunião com Nise. A utilização da droga passaria a ser indicada também em casos leves. No mesma data, o então ministro da Saúde Nelson Teich pediu demissão, alegando conflitos com Bolsonaro sobre o uso da cloroquina contra a doença. O novo protocolo recebeu críticas da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, que divulgaram posicionamento conjunto em que sugerem a não utilização do remédio.

 

Nos dias 6 e 7 de abril de 2020, Nise Yamaguchi foi recebida no gabinete do presidente, antes de Bolsonaro voltar a defender o uso da cloroquina para tratamento da Covid-19 em um pronunciamento oficial na TV em 8 de abril. Na ocasião, o presidente chegou a mencionar que consultou “médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países” para divulgar a possibilidade de tratamento da doença com a hidroxicloroquina desde sua fase inicial. Em 8 de setembro do ano passado, Nise também se reuniu com o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo e com o chefe da assessoria internacional de Jair Bolsonaro, Filipe Martins, apontado como um dos conselheiros mais próximos do presidente.

Entre os integrantes do comitê investigado na CPI, o ex-ministro e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) lidera em número de reuniões no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde. Foram ao todo 16 encontros, 11 deles com Bolsonaro. Para se ter uma ideia, o presidente só se encontrou com deputados 20 vezes para tratar da pandemia, segundo dados entregues pelo governo ao Senado.

PUBLICIDADE CPI da covid: veja os principais acontecimentos na comissão até agora Em depoimento à CPI, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que Brasil poderioa ter sido pioneiro na imunização: "Já tínhamos as doses, já estavam disponíveis. E eu, muitas vezes, declarei em público que poderíamos ser o primeiro país a começar a vacinação" Foto: PABLO JACOB / Agência O Globo Presidente da CPI Omar Aziz (PSD-AM) e o vice Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Comissão votou por convocar Queiroga e Pazuello, novamente – o atual e o último ministro da Saúde –, além de governadores de nove estados Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 26/05/2021 A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, também conhecida como 'capitã cloroquina' à CPI: "A orientação é para todos os médicos brasileiros, não só para Manaus", sobre o tratamento precoce com cloroquina Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 25/05/2021 Pressionado por senadores a responder pela falta de oxigênio em Manaus, em janeiro, o ex-ministro da Saúde Pazuello disse que responsabilidade era do governo estadual e da empresa fornecedora Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 20/05/2021 Sessão foi da CPI da Covid foi suspensa depois de Eduardo Pazuello passar mal durante um intervalo. A Comissão deve retormar depoimento do ex-ministro na quinta-feira (20) Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 19/05/2021 Pular PUBLICIDADE Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello negou receber ordens diretas do presidente para usar cloroquina no combate à Covid-19 e destacou sua qualificação em logística e gestão: "Eu me considero sim, senhor, plenamente apto a exercer o cargo de ministro da Saúde" Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 19/05/2021 Ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chega para depor na CPI da Covid, depois de solicitar ao STF o direito de permanecer em silêncio diante da Comissão Foto: PABLO JACOB / Agência O Globo Assim como Fabio Wajngarten, ex da Comunicação, o ex das Relações Internacionais, Ernesto Araújo, negou falas polêmicas diante da CPI da Covid: "Eu não entendo nenhuma declaração que tenha feita como anti-chinesa", esquivou-se o ex-chanceler Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 Presidente da CPI, Omar Aziz, alertou Ernesto sobre dizer a verdade à CPI e lembrou declarações anti-chinesas: "Na minha análise, Vossa Excelência está faltando com a verdade. Peço que não faça isso. Escreveu no seu Twitter, escreveu artigo" Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 Ex-chanceler Ernesto Araújo chega ao Senado para depor na CPI da Covid Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 Pular PUBLICIDADE O gerente-geral da farmacêutica Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, revelou que o Brasil poderia ter recebido 4,5 milhões de doses a mais de vacinas contra a Covid-19 até março deste ano Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 13/05/2021 Bate-boca entre senadores Flávio Bolsonaro e Renan Calheiros marcou sessão em que Wajngarten foi ouvido. Para o relator, governo tem "proximidade com milicianos" e, para o filho do presidente, “não tem moral” para dar voz de prisão Foto: Marcos Oliveira e Leopoldo Silva / Agência Senado Depois da aparição de Flavio Bolsonaro, em defesa de Wajngarten, sessão da CPI da Covid foi interrompida Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Flávio Bolsonaro fala com repórteres depois de interromper a sessão da CPI para reclamar dos pares sobre o pedido de prisão de Wajngarten por ele ter mentido à CPI Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 12/05/2021 "Por favor, não menospreze nossa inteligência, ninguém é imbecil aqui", disse o presidente da CPI da Covid, o senador Omar Aziz (PSD-AM) Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Pular PUBLICIDADE Fabio Wajngarten se esquivou de respostas diretas e foi advertido pela mesa e acusado, pelo relator Renan Calheiros de mentir à CPI por negar declarações dadas à revista Veja – que logo divulgou áudios comprovando as declarações do ex-chefe da Secom Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Relator Renan Calheiros (MDB-AL) trocou a placa que o identificava pelo número de vidas perdidas para a Covid-19 no Brasil disse que pediria a prisão do ex-secretário de Comunicação Social Fabio Wajngarten Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 12/05/2021 O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, confirmou que esteve em uma reunião no Palácio do Planalto, no ano passado, na qual foi cogitada a possibilidade de mudar a bula da cloroquina para que o medicamento fosse indicado no tratamento da Covid-19: "não tem cabimento", classificou Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 11/05/2021 Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se esquivou de perguntas e não disse se concorda com Bolsonaro sobre uso de cloroquina: "Eu estou aqui na condição de testemunha, o senhor quer que eu emita juízo de valor", respondeu ao relator da CPI Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 06/05/2021 Omar Aziz (PSD-AM) ironizou a resposta do ministro da Saúde: "Até minha filha de 12 anos falaria sim ou não", sobre concordar com o uso da cloroquina, conforme prega o presidente Bolsonaro durante toda a pandemia Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 06/05/2021 Pular PUBLICIDADE "Não há pressão nenhuma", disse Queiroga quando questionado sobre atuação do Planalto para incluir a cloroquina no tratamento de Covid-19. Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 06/05/2021 Ex-ministro da Saúde Nelson Teich presta depoimento na CPI da Pandemi. Segundo ele falta de autonomia quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19 motivaram sua saída Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado – 05/05/2021 Otto Alencar (PSD-BA) recomenda vacina 'antirrábica' a senador governista que defendeu cloroquina Foto: Jefferson Rudy / Jefferson Rudy/Agência Senado Governistas questionam prioridade da bancada feminina e geram bate-boca na CPI Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado – 05/05/2021 Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta sustentou discurso de que seguiu sempre orientações ténicas à frente da pasta Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 05/05/2021 Pular PUBLICIDADE Senadores Otto Alencar (PSD-BA) e Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) conversam durante primeira sessão da CPI da Covid Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 27/04/2021 Senador Renan Calheiros (MDB-AL) foi indicado como relator por Aziz Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 05/05/2021 Senador Omar Aziz (PSD-AM) é eleito presidente da CPI Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 27/04/2021  

Os encontros com Osmar Terra também ocorreram em momentos importantes sobre a liberação da cloroquina no país. Três delas foram, por exemplo, entre os dias 30 de março e 1º de abril do ano passado, período em que o Ministério da Saúde publicou uma orientação sobre a possibilidade de uso do medicamento em casos confirmados e a critério médico. No dia 1º, Bolsonaro divulgou nas redes que conversou com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o remédio.

Osmar Terra também se reuniu com Bolsonaro no dia da posse oficial de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, em 16 de setembro de 2020. No evento, o presidente voltou a fazer apologia à cloroquina. Outra reunião de Osmar Terra com Bolsonaro ocorreu em 13 de janeiro deste ano, em meio à crise de falta de oxigênio em Manaus, e contou com a participação de Pazuello. No mesmo dia, Bolsonaro afirmou à imprensa que enviou o então ministro da Saúde a Manaus para “inteferir”, após atribuir o elevado número de mortes por Covid-19 no Amazonas à falta de “tratamento precoce”.

Já os filhos de Bolsonaro, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, mesmo sem ocuparem cargos na administração federal, participaram de quatro reuniões oficiais com o presidente para tratar da pandemia. Os encontros ocorreram no fim de março de 2020 e tiveram a presença de ministros e outros integrantes do governo. Desse total, três reuniões foram realizadas por videoconferência na véspera e no dia em que Bolsonaro falou pela primeira vez sobre a cloroquina em um pronunciamento de TV. No mesmo discurso, o presidente atacou medidas de isolamento social, citou seu “histórico de atleta” e comparou o novo coronavírus a uma “gripezinha”.

PUBLICIDADE Novos depoimentos O empresário Carlos Wizard soma ao menos dois encontros com o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco, número dois da gestão Pazuello. Em depoimento à CPI, Pazuello admitiu que teve ao menos uma reunião com Wizard, Nise Yamaguchi, o médico Roberto Zeballos e outros profissionais de saúde defensores do tratamento precoce. Pazuello afirmou que “não gostou da dinâmica” do encontro e que recebeu aconselhamento dos médicos.

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Nos próximos dias, senadores de oposição e independentes devem abordar o tema na CPI da Covid. Além de Nise, Wizard e o assessor especial da Presidência Arthur Weintraub, que também é apontado como membro do “ministério paralelo”, já foram convocados a depor. Um requerimento para que Osmar Terra fale na comissão foi apresentado e ainda deve ser analisado.

— O assessoramento paralelo tem relevância porque aparentemente é desse comitê que emana a política pública — diz o senador Humberto Costa (PT-PE), que integra a CPI.

O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, que geriu a pasta durante a pandemia de H1n1, em 2009, explica que não há impedimento para que o Ministério da Saúde monte um comitê com pesquisadores, mas ressalta que o ideal é que esse aconselhamento seja feito por sociedades de especialistas:

PUBLICIDADE — O presidente convocar médicos isoladamente para assessorá-lo, embora não seja ilegal, parece irregular. Que critérios foram usados? A maioria dos médicos não é cientista. Você pode ter uma influência nefasta, usando argumentos que não vêm da ciência para tomar decisões.

Enquanto integrantes do chamado “ministério paralelo” tiveram amplo acesso ao presidente, as sociedades médicas e científicas ficaram distantes das agendas no Planalto. A única com participação na lista de reuniões enviada à CPI da Covid foi a Associação Médica Brasileira, que soma duas agendas com o presidente em 16 de abril de 2020.

LINK ORIGINAL: OGlobo

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