As vozes apelativas da meninice

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Não há voltas a dar, pois volta e meia isso me acontece. Sem querer, quando menos espero, oiço as vozes apelativas da meninice. Umas vezes de uma forma imperceptível, outras com uma insistência tão frequente que até parece estar alguém a abrir, furtiva e invisivelmente, as portas mais recônditas do passado, com uma perseverança constante e obsessiva, deixando-me inquieto, pasmado e confuso.

Penso que não serei o único no mundo a ser atormentado por essas estranhas sensações e emoções. O outro, que está bem preso dentro de nós, bastas vezes esquecido e tantas vezes posto de lado ou considerado ultrapassado, teima em afirmar que representa a parcela determinante do nosso eu, por ter precedência sobre nós, enquanto todo humano, afirmando ser ele quem nos fez crescer e desenvolver, tornando-se assim a essência basilar da nossa existência. Salienta, fazendo vincar bem essa asserção, que na hierarquia da contagem do tempo de formação, do crescimento e da afirmação, tanto do nosso carácter como da personalidade, sendo ele detentor da antiguidade é naturalmente o primeiro.

Se, com a nítida intenção de nos querermos libertar da sua presença indesejada, o indagarmos a partir de quando é que devemos contar o início do tempo da existência, demora um tanto a replicar e sai com esta resposta evasiva: não sejas preguiçoso, pergunta às tuas recordações, que elas têm tudo registado e cuidadosamente guardado em numerosos ficheiros, quer cronológicos quer temáticos. Caso queiras consultá-las é só fazeres um esforço de memória e depressa encontrarás tudo aquilo que desejas presenciar.

E se, porventura, perguntarmos com quem estamos a comunicar ou interagir, recusa-se a responder, porque esse alguém está bem presente dentro de nós, somos nós mesmos, que em tempos fomos diferentes e agora temos vindo a esquecer aquilo que fomos, como se algum dia pudéssemos libertarmos do passado que trazemos dentro de nós, nos persegue e nos acossará enquanto vivermos.

É verdade que a psicanálise nos ensina que as recordações da primeira infância são muito mais fortes do que as recordações do presente, mas jamais imaginei que pudessem ser tão vigorosas, persistentes e dominadoras.

Nesse preciso momento, vejo-me a trepar por lianas escorregadias, sem medo de resvalar e cair no precipício ou ser mordido por cobras venenosas.

O facto de estar descalço e sozinho não me atemoriza, antes pelo contrário, faz aumentar a minha determinação e a força da vontade, porque só assim poderei acreditar que sou capaz de ultrapassar as barreiras mais difíceis que só os mais velhos conseguem transpor a muito custo e, em regra, apenas em grupo.

Ao realizar esse trajecto de desafio e superação, há um pensamento que me domina e toma conta do meu ser: dê por onde der, tenho de subir este monte íngreme e chegar ao farol situado no Alto dos Pilotos.

No início da ascensão alcantilada, à medida que avançava, nem sempre com os pés correctamente firmados, recordava-me das palavras dos três vizinhos, bastante mais velhos, habitantes do Bairro do Poço do Padeiro, em Pangim, Goa, a dirigirem-se a nós – então crianças reunidas na escadaria a ouvi-los com ar espantado -, e a gabarem-se orgulhosamente da proeza empreendida, olhando-nos com desdenho e afirmando-nos com ar de superioridade:

– Podem não acreditar mas, ontem de manhã, tivemos a coragem de trepar pelas lianas e chegar ao farol. Não imaginem como é difícil e quanto nos custou. Nas passagens mais abruptas e emaranhadas tivemos que dar a mão um ao outro mas, com esforço e perseverança, conseguimos lá chegar. Como somos vossos amigos, fica aqui um aviso: nunca se atrevam a meterem-se naquela perigosa aventura sem irem acompanhados de adultos. Pode ser um autêntico suicídio!

Quando cheguei ao meio da subida, lembro-me de ter tido medo, duvidava se iria conseguir atingir o objectivo pretendido, porque a parte mais difícil ainda estava por vencer. Momentos antes, fixara mal o pé esquerdo e escorregara com lentidão, mas depressa lançara a mão direita para uma liana mais próxima. O susto fora de tal ordem que o coração aflito batera descompassadamente, mas depressa conseguira acalmar e concentrar-me na transposição da parte final da arriscada encosta.

Naquele momento de hesitação recordei-me das palavras ditas por um senhor idoso, visita habitual da nossa casa, principalmente, aos fins-de-semana:

– Quando éramos jovens e subíamos até ao farol, evitávamos olhar para baixo e procurávamos um sítio fixo para onde nos pudéssemos segurar com firmeza e confiança.

Segui o seu conselho e procedi como recomendava.

Esquecendo a possibilidade de poder vir a ser atacado por uma das muitas cobras-capelo que por ali rondavam com frequência, sempre ciosas em defender o seu território, e desprezando as mordidelas dolorosas das formigas, a transpirar abundantemente, cheguei ao topo do monte.

Quando sorridente intentava caminhar em direcção ao farol, deparo com um vizinho boquiaberto que, olhando para mim, pergunta:

– Subiste sozinho pelo caminho das lianas?

– Por favor, peço-te por tudo, não digas nada à minha mãe.

Como estamos no mês de Agosto, mês de férias por excelência, mês de aventuras para os mais jovens, e como na minha provecta idade não posso meter-me em façanhas desnecessárias e perigosas, resta-me pelo menos a consolação de poder recordar os belos anos da meninice vividos na terra onde nasci, a minha querida e saudosa Goa.

Historiador

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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