Archie partiu. Como a «morte suspensa» atrasa e dificulta o luto

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Quatro meses após ter sido encontrado pela mãe em paragem cardiorrespiratória, Archie Battersbee, de 12 anos, deixou de contar com o suporte de vida garantido pelas máquinas. O diagnóstico de morte cerebral, consequência de ter estado mais de 20 minutos sem oxigénio depois de ter participado num desafio que circula nas redes sociais, desencadeou uma luta judicial entre os pais e o Royal London Hospital para evitar o inevitável: a morte efetiva que chegou este sábado às 12h15, quando a criança deixou de ter apoio respiratório artificial. O desfecho aconteceu após a segunda recusa, pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, do recurso apresentado pela família. Aos pais, Hollie Dance e Paul Battersbee, resta agora o processo de luto, que a psicóloga Caroline Martins antecipa como particularmente delicado. «Existem diversos fatores nesta situação que me parecem poder dificultar o processo de luto», afirma ao DN.

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Especialista no acompanhamento de crianças e jovens, Caroline Martins não tem dúvidas de que as circunstâncias do acidente podem gerar nos pais «dúvidas e incertezas», mas também «perguntas constantes (…) que, muitas vezes, não têm resposta». Por outro lado, sublinha, a declaração clínica de morte cerebral é um conceito «complexo de ser processado psicologicamente» pelas famílias, que frequentemente passam por uma dissonância cognitiva. Trata-se da existência de «crenças incoerentes» sobre a realidade. «Por um lado, temos a componente médica que nos diz que a pessoa morreu e que a situação de morte cerebral é irreversível. Por outro lado, ao verem o doente respirar, os familiares e amigos podem tender a ficar com a ideia de que aquele corpo tem vida», explica a psicóloga.

Todos estes fatores contribuem para a negação, uma das fases do luto, que leva os pais a acreditar que existe possibilidade de reverter o estado clínico do doente. A análise encontra validação na opinião de Alexandra Dinis, pediatra intensivista do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC). «Aos olhos dos pais, é um menino que está adormecido, quentinho, rosadinho e tem o coração a bater». Porém, a especialista confirma que nestes casos a recuperação é impossível. «Quando uma pessoa é declarada em morte cerebral, isso é equivalente a um certificado de óbito. A pessoa está morta», aponta Alexandra Dinis.

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Subscrever Estado de morte suspensa Os avanços científicos e tecnológicos ao serviço da medicina permitem hoje enfrentar situações clínicas de extrema gravidade com elevada percentagem de sucesso. Desde pacemakers que promovem os batimentos cardíacos a máquinas capazes de substituir a função pulmonar, as equipas médicas dispõem de ferramentas que permitem salvar vidas que, de outra forma, seriam perdidas. «Se não vivêssemos numa era em que a medicina é altamente tecnológica e avançada, este conceito [de morte cerebral] não existia. Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral desta gravidade, se for deixada por sua conta, o coração pára imediatamente de bater», contextualiza a médica. «Conseguimos substituir quase todas as funções do corpo menos a de um órgão, que é o cérebro», acrescenta.

O caminho até à declaração de morte cerebral é longo e assente em procedimentos exaustivos e rigorosos, exigindo uma série de testes clínicos e, por vezes, exames complementares. Contudo, ainda antes de iniciar a avaliação é preciso garantir que o doente se encontra estabilizado – por exemplo, não pode ter alterações na tensão arterial, nos níveis de açúcar e até a temperatura corporal tem de estar dentro dos parâmetros definidos. Caso contrário, as provas de morte cerebral não são, sequer, iniciadas. «Em termos legais, como [a morte cerebral] é uma afirmação gravíssima, estas provas [em Portugal] têm de ser feitas por dois médicos diferentes, que têm de ter mais de cinco anos de experiência na sua especialidade», descreve Alexandra Dinis. Após todos estes procedimentos, as provas têm de ser repetidas para assegurar que não existe margem de erro. Uma vez declarada a morte cerebral, o doente é mantido «numa morte suspensa» em que as funções vitais do corpo são asseguradas artificialmente, através de dispositivos e medicamentos, até que os seus órgãos possam ser doados «para poder dar vida a outras pessoas», se for considerado elegível para tal.

Sobre o caso de Archie, que permaneceu ligado aos aparelhos de suporte de vida desde o início de abril, a especialista admite ser uma situação «muito difícil de compreender» pela litigância desencadeada pelos pais. «Como pediatra, a coisa mais difícil que temos de fazer na nossa vida profissional é chegar ao pé de uns pais e dizer-lhes que o seu filho morreu. Queríamos que aquilo não fosse verdade para não termos que dizer uma coisa tão horrível», afirma. A voz tremida de Alexandra Dinis denuncia a dificuldade de lidar com uma situação limite como esta, mesmo para quem dedica a vida a tentar salvar doentes. Caroline Martins alerta precisamente para esta outra dimensão, muitas vezes esquecida pela população. «É muitas vezes emocionalmente pesado ser transportador deste tipo de mensagem, podendo ser muito desafiante e desgastante do ponto de vista emocional para os profissionais de saúde», realça.

Quem toma a decisão final? Ao contrário de outras lesões cerebrais em que a escolha pertence à família, em casos de morte cerebral a decisão de terminar o suporte de vida é competência dos médicos. «No caso de uma pessoa que morreu não há escolha nenhuma, é uma ilusão», lamenta a pediatra. É este consenso científico em torno do conceito que explica as sucessivas derrotas judiciais dos pais de Archie, que procuraram manter a criança ligada às máquinas e que chegaram a propor a transferência para uma unidade de cuidados continuados. «Será muito importante validar e legitimar o sofrimento emocional destes pais», afirma Caroline Martins, que considera o recurso a apoio psicológico «essencial» dado «o potencial de luto patológico» que uma situação como esta pode ter.

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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