'Apoio Ciro, mas discordo dos ataques ao Lula', diz Rodrigo Neves em entrevista

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RIO – Pré-candidato do PDT ao governo do Rio, o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves minimiza a ausência de um arco de aliança para apoiá-lo, diz não compactuar com ofensas de Ciro Gomes a Lula e mira críticas tanto em Cláudio Castro (‘homem da mala do pastor Everaldo’) quanto em Marcelo Freixo (‘você entregaria um carro a quem nunca dirigiu?’)

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O senhor mantém sua candidatura mesmo sem ter uma aliança do tamanho da dos adversários e tendo até deputados do PDT se aproximando do governador Cláudio Castro. Não vai acabar desistindo diante de tanta dificuldade?

Minha candidatura é irreversível. Já tenho o apoio declarado do Cidadania e do Patriota, e setores do PT, PCdoB, PV e PSB também caminharão conosco. Estão querendo reproduzir no Rio uma polarização artificial. Ao contrário do quadro nacional, as pesquisas espontâneas apontam que quase 80% da população ainda não têm candidato a governador. Eu tenho um baixo índice de conhecimento da população. Em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, onde sabem quem eu sou, vou bem nas pesquisas.

Até o acordo com Eduardo Paes não foi adiante, depois de anunciado. O que houve ?

O Eduardo está com a prioridade de eleger deputados federais para fortalecer a sua liderança nacional. Seria uma aliança estratégica e até mesmo natural, porque nós governamos Rio e Niterói, os dois maiores orçamentos do estado. Converso com o Felipe Santa Cruz (ex-presidente da OAB lançado pré-candidato por Paes) quase toda semana. É um excelente advogado, mas essa não é uma eleição para outsider. É uma eleição de entregas, e a população vai querer alguém testado, sobretudo depois de Marcelo Crivella e Cláudio Castro. O governador foi a vida toda o carregador de mala do Pastor Everaldo (presidente do PSC), um assessor. Ele não governa, é teleguiado, loteou os órgãos do estado com deputados amigos. Mas, por ora, está se beneficiando da indefinição nas alianças.

PUBLICIDADE O campo da esquerda também está apresentando a candidatura do deputado federal Marcelo Freixo. Por que o senhor se considera mais capaz do que ele para governar o estado?

O Freixo é um bom parlamentar, mas nunca se esforçou para adquirir experiência no Executivo. Você entregaria o seu carro para uma pessoa que nunca dirigiu na vida? Ainda mais numa estrada esburacada e perto do precipício. Freixo sempre criticou o Lula por fazer um governo moderado. Não adianta ele vir agora com um banqueiro para dizer que é amigável ao setor privado. Que Freixo é esse que surgiu de seis meses para cá? O povo não é bobo.

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Mesmo assim, a aliança entre PT e Freixo segue encaminhada…

Cláudio Castro e Jair Bolsonaro estão torcendo por isso. A rejeição dele é alta. Vale lembrar: Freixo saiu do PT em 2004 atacando o Lula. Em 2016, não quis o apoio dele na eleição contra o Crivella para prefeito do Rio. Em 2019, disse que o «Lula livre» não deveria ser prioridade. Aí agora virou Lula desde criancinha.

PUBLICIDADE Não foi a mesma coisa que o senhor fez ao deixar o PT em 2016, no auge da operação Lava-Jato, dizendo estar «desconfortável» com a sigla? Mudou de opinião para ter apoio do Lula?

Lula sofreu «lawfare» (uso indevido dos meios jurídicos), como eu sofri. Mas não podemos negar que o (Antonio) Palocci (ex-ministro da Fazenda) recebeu milhões de reais em propina. Isso, evidentemente, merece uma autocrítica. Não estou mais no PT para comentar questões domésticas do partido. No fundo, boa parte dos problemas de corrupção derivam desse modelo de presidencialismo, e o Ciro (Gomes) tem falado sobre isso corretamente.

Entre os ataques de Ciro ao PT, estão menções de que Lula «se lambuzou no poder» e que sabia de desvios na Petrobras. O que acha das frases e qual o seu preferido entre os dois?

Ciro é nosso candidato. Ele é muito preparado e tem dado uma contribuição na agenda pública quando coloca em evidência a questão da desindustrialização e do rentismo. Agora, eu discordo dos ataques pessoais ao ex-presidente Lula. Acho que ele (Ciro) tem que se espelhar um pouco no Brizola de 1989, que foi atacado implacavelmente pelo PT, mas não perdeu o fio da história. Lula foi o melhor presidente desde a redemocratização, e não podemos desconsiderar a necessidade de diálogo com as forças democráticas.

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O senhor foi preso em 2018 pela Lava-Jato, com base na delação premiada do empresário de ônibus Marcelo Traça, e segue réu por corrupção por supostos desvios de R$ 10 milhões em verba para gratuidade de passagens. Como lidar com esse tema na campanha?

Foi uma prisão absurda e ilegal. A acusação de organização criminosa e formação de quadrilha foi arquivada sem sequer abrir o processo. O delator diz que nunca tratou nada comigo. O procurador na época omitiu dados do Coaf que corroboravam a minha idoneidade, disse que minha mulher era dona de uma empresa da qual nunca ouvimos falar. O Ministério Público se manifestou recentemente pedindo a extinção de um dos processos (por improbidade administrativa).

Mas o senhor entende que o eleitor fluminense está traumatizado com o histórico de prisão de cinco ex-governadores (Moreira Franco, Anthony e Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão) e esse será um tema explorado por seus adversários inevitavelmente?

Acho que o Cláudio Castro tem muito mais coisas a explicar. Houve delações com fatos contra ele, como o episódio da mochila. Até o Freixo vai ter que explicar o Lula. Ele foi condenado, eu não. Depois de todo o arbítrio que sofri, retornei à prefeitura de Niterói, saí com 85% de aprovação popular, e o meu sucessor (Axel Grael) venceu a eleição com 62% dos votos.

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Sua gestão em Niterói foi beneficiada pela receita dos royalties do petróleo, com injeções de mais de R$ 1 bilhão por ano no segundo mandato, e, com a alta do barril, esse tipo de recurso está em alta no Rio. Como lidar com essa verba variável e fazer esse recurso render?

É verdade que houve uma certa acomodação da elite política do estado com os recursos dos royalties. Mas é evidente que, diferentemente da Escandinávia, que guarda 90% dos recursos dos royalties e investe 10%, precisamos muito colocar dinheiro em infraestrutura. É preciso reverter o processo histórico do esvaziamento econômico do Rio e priorizar o emprego. Minha primeira ação como governador será implementar um Programa Emergencial de Trabalho e Renda. Quero chamá-lo de New Deal Ecológico. Serão frentes de trabalho para recuperar escolas e unidades de saúde abandonadas e construir 100 mil unidades habitacionais. Paralelo a isso, temos que fazer o dever de casa da reestruturação das contas do estado.

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O senhor pretende revisar ou renegociar o regime de recuperação fiscal?

PUBLICIDADE Temos que cumprir com o que a gente precisa agora, mas precisamos repactuar com o próximo presidente um acordo de recuperação fiscal para fazer investimentos sociais. Sem o acordo, o Rio teria quebrado de novo, como quebrou em 2015. O atual governo não está fazendo nada do ponto de vista de incremento de receita ou de redução de despesas.

Em 2021, houve R$ 20 bilhões adicionais de receita pela concessão da Cedae e a alta dos royalties…

Ele (Castro) está torrando esses recursos de maneira eleitoreira. Além disso, nos três anos anteriores não houve incremento de receita, e a despesa se manteve estável ao custo de congelamento de salários dos servidores e o uso de recursos para dar cargos a aliados. Mesmo assim, o acordo segue pendente, porque o estado está prometendo coisas irreais para a União como, por exemplo, arrecadar R$ 19 bilhões na securitização da dívida. O estado arrecada R$ 500 milhões com isso por ano e conseguiria no máximo R$ 6 bilhões. Nem o maior mágico vai conseguir isso.

Na época das UPPs, o senhor era prefeito de Niterói e viu crescer a migração de criminosos. O que acha do atual programa do governo, o Cidade Integrada?

É claramente um programa eleitoreiro. O nome do programa é Cidade Integrada, e o Eduardo Paes falou que a prefeitura nem tinha conhecimento do programa. Como pode? Todas as políticas mais bem sucedidas no mundo de prevenção à violência contaram com a participação do poder local. Em quatro anos, não houve política de segurança pública e, às vésperas da eleição, inventaram um programa.

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O senhor é favorável ao uso das câmeras por policiais militares?

Claro.

E da volta da Secretaria de Segurança ?

Não sei a secretaria, mas uma agência de segurança. Com relação direta com o comando do estado para fazer a interface com a Polícia Federal, Forças Armadas e as prefeituras.

Antes do senhor, as duas principais experiências de gestão do PDT no Rio foram com Leonel Brizola no governo do estado e Jorge Roberto Silveira na prefeitura de Niterói. Ambas terminaram sob críticas e sem eleger sucessores. Mais do que isso, Silveira terminou em terceiro lugar ao deixar a prefeitura para disputar o governo, e Brizola teve sucessivos reveses após o segundo mandato, como a sexta colocação para o Senado, em 2002, na última eleição que disputou. Teme repeti-los?

Brizola tem três qualidades que são referência para mim: o amor ao Brasil, à democracia e à educação. Se não tivéssemos abandonado o conceito dos Cieps, não teríamos perdido gerações de jovens. O prefeito Jorge Roberto sofreu aquilo que eu chamo de síndrome do terceiro mandato. É um desafio enorme que seja melhor do que o primeiro e o segundo. Evidentemente que os problemas atuais do Rio são mais complexos do que eram na década de 1980. Estamos falando do maior desafio de gestão e de governança dentre os 27 estados do país.

LINK ORIGINAL: OGlobo

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