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Estados entram em colapso, e Brasil precisa adotar lockdown para conter escalada da Covid-19, afirmam especialistas

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Entornointeligente.com / RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA — O agravamento da pandemia da Covid-19 está levando os sistemas hospitalares de diversos estados ao colapso, de Norte a Sul do país. Especialistas em saúde são unânimes em afirmar que é preciso restringir a circulação de pessoas para conter a escalada das últimas semanas.

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Entrevista:   ‘Há grande chance de um colapso nacional. A população precisa acordar para a dimensão da nossa tragédia’, diz Miguel Nicolelis

Nesta quinta-feira, o país registrou o pior número de mortos em 24 horas de toda a pandemia. Foram 1.582 óbitos registrados em apenas um dia, com recorde também na média móvel de mortes, que ficou em 1.150, 8% a mais do que há duas semanas. A média de óbitos está acima de mil desde o dia 21 de janeiro.

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Já são 251.661 vidas perdidas e 10.393.886 de pessoas infectadas pelo vírus, segundo os dados compilados pelo consórcio formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S.Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, com informações das secretarias estaduais de Saúde.

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Também ontem, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, se reuniu com representantes de secretarias estaduais e municipais para fazer um alerta sobre a piora da pandemia. Ele destacou que a velocidade de transmissão de novas cepas tem levado a cenários de alta em estados que, há um ano, não estavam nesse patamar:

Estamos enfrentando nova etapa da pandemia, hoje o vírus mutado nos dá três vezes mais a contaminação, e a velocidade com que isso acontece em pontos focais pode surpreender o gestor em termos de estrutura de apoio. Essa é a realidade que vivemos hoje no Brasil. Não está centrado apenas no Norte e Nordeste, como vimos no ano passado, hoje você vê outros locais que em momentos passados não estavam impactados nesta época do ano. E precisamos estar alertas e preparados para isso

Segundo Pazuello, há três estratégias principais para combater a pandemia: o que chamou de “atendimento imediato” nas Unidades Básicas de Saúde, a capacidade de estruturação de leitos clínicos e de UTI, e a vacinação. Em relação ao último tópico, o ministro afirmou que o Brasil está fazendo de tudo para adquirir novas doses

— A vacinação está tendendo à estabilidade em termos de produção e quantidade de doses, já chegamos, em 40 dias de vacinação, de 13 a 14 milhões de doses distribuídas (…). Estamos negociando com todas (as vacinas)

PUBLICIDADE Ao lado do ministro, o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Carlos Eduardo Lula, afirmou que já há 15 estados com ocupação de leitos superior a 90%

— A gente nunca teve tantos estados com tanta dificuldade ao mesmo tempo, seja pela circulação de novas cepas, seja pelo cansaço da sociedade que está vivendo isso há tanto tempo. A sociedade tem que entender que não é hora de fazer festa, não é hora de estar junto, porque o que a doença precisa é de ambientes fechados, com pouca circulação de ar, e muitas pessoas no mesmo local

Segundo o médico sanitarista Oswaldo Yoshimi Tanaka, diretor da Faculdade de Saúde Pública da USP, os novos casos, muitos por conta da nova variante do vírus, estão proliferando em adultos jovens que, diferentemente de outros momentos da pandemia, estão indo para a UTI, onde ficam por muito tempo

Eles vêm ficando 20, 25 dias, então os leitos têm pouca rotatividade. Os idosos morriam, os jovens morrem menos, mas ficam mais tempo na UTI e saem com mais sequelas — diz o médico, que se diz muito preocupado com o comportamento da população brasileria: — O comportamento latino de estar junto é mais forte do que a preocupação de evitar o risco de ficar doente. Não temos um sentimento coletivo de solidariedade. Lockdown funciona no Japão, Coreia, Alemanha, mas no Brasil não vai funcionar. Nós não temos espírito solidário, nem senso coletivo. É impossível. Essa sociedade não suporta

PUBLICIDADE Esgotamento da rede hospitalar em SC e RS Na região Sul, uma das mais afetadas pela alta de casos, os estados de Rio Grande do Sul e Santa Catarina enfrentam o esgotamento da capacidade de suas redes de UTIs . O governador gaúcho suspendeu atividades em locais públicos entre 22h e 5h e colocou 11 regiões na chamada “bandeira preta”, classificação local de risco altíssimo de contágio. E o secretário de Saúde de Santa Catarina, André Motta, afirmou que o sistema de saúde já enfrenta colapso e pediu aos prefeitos medidas para diminuir a circulação de pessoas

Ontem, a Bahia anunciou restrição total das atividades não essenciais a partir das 17h de hoje, até às 5h da próxima segunda-feira. O governador baiano, Rui Costa (PT), afirmou que só funcionará o que for “saúde pública ou venda de alimentos”. A medida vale para todos os 417 municípios. Em Salvador, as praias e passeios de escuna já tinham sido proibidos anteontem

No Piauí, Teresina atingiu 100% de ocupação de UTIs nesta semana, levando o governador do estado, Wellington Dias (PT), a decretar toque de recolher entre 23h e 5h. Medidas semelhantes foram adotadas em Goiás, Pernambuco, Ceará, Paraíba e São Paulo, que nesta semana chegou ao maior índice de internações de toda a pandemia . O governo paulista anunciou anteontem a restrição na circulação de pessoas entre 23h e 5h da manhã, até 14 de março

PUBLICIDADE Nau sem rumo Para a especialista em saúde pública e sanitarista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ligia Bahia, o lockdown é uma medida cientificamente comprovada, e é preciso fazê-lo de forma “radical e por pouco tempo”

— É bom que governadores estejam efetivando políticas mais radicais de isolamento social, porque a gente vai conseguir ver na prática uma diminuição (do contágio). É um esforço louvável que um governante se apresente como intérprete das orientações científicas. São medidas bem-vindas, corretas, e a gente bate palmas para os governadores que fizerem isso. O Brasil vai ter menos gente morrendo

O médico sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão explica, porém, que no Brasil não se está vendo o lockdown, mas sim medidas restritivas

Impedir circulação das 23h às 5h, quando 90% das pessoas estão em casa, é uma medida inócua. Uma coisa que dura de hoje a segunda-feira não consigo entender bem, é claramente insuficiente. Como jogamos fora uma coisa preciosa que é a coordenação nacional, estamos navegando num nevoeiro denso sem timoneiro. Os gestores estaduais e municipais foram abandonados à própria sorte, e a sociedade idem, não há comunicação, transparência ou orientação. Gestores, governadores ou prefeitos não têm a postura de sentar com os cientistas e tomar as decisões que devem ser tomadas. É porque tem um custo de político, e estão mais de olho nas urnas do que na defesa da vida

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