A recandidatura não está decidida, mas presidenciais são para ganhar por 50% (mais um voto) - EntornoInteligente
Entornointeligente.com /

Era só nevoeiro, não se via o Caldeirão, a cratera vulcânica do Corvo. O ponto tinha desaparecido da agenda por causa do mau tempo – e desapareceu também da vista porque mal se via um palmo à frente do nariz –, mas foi o primeiro lugar a que o Presidente da República foi levado depois da aterragem turbulenta na ilha. Havia três copos à espera no cimo da montanha, a 600 metros de altitude: Vasco Cordeiro, presidente do Governo Regional, tem um para si, outro para Marcelo Rebelo de Sousa e outro para José Manuel Silva, o presidente de câmara do Corvo e serve-lhes o licor de Nêveda, tradicional da ilha. Marcelo incita-o a beberem de um só trago, e emborcam. Cordeiro serve um segundo copo que bebem mais devagar (ainda tomará um terceiro copo num supermercado – “e ainda nem almocei…”, diria). Depois, no meio daquele nevoeiro todo, o PR olha para o telemóvel, diz que só andou 880 metros hoje, costuma andar seis quilómetros por dia, e assim decide que vão todos descer a estrada do Caldeirão até à vila, ao frio e à humidade.

A descida incita à conversa, e Marcelo tem sempre conversa: conta aos anfitriões como foi a aterragem na curta pista do Corvo no avião da Força Aérea e que acompanhou no cockpit: primeiro foi “vento lateral” de esquerda, depois “de direita”, como os problemas da “governação ao centro”, mas “a vantagem do Presidente é que está acima do vento”, como quem diz dos partidos, e aterrou ao meio da pista e em segurança.

Ao caminhar, também falou de “caminho” – do caminho que fará este ano -, mas quando se falou de candidatura, travou. “Os comentadores querem que eu seja, falam como se eu fosse, mas não sou. Ao contrário do que dizem os comentadores, nada está decidido”, ia comentado o ex-comentador, para mais tarde repetir, já filmado pelas televisões, que ainda não é candidato: “As pessoas confundem as suas previsões e vontades com a minha decisão.” E acrescentava, para travar as perguntas: “A única coisa que digo, e está a começar a chover, sinal divino para que abreviemos a conversa, é que é prematuro falar”, apesar de todos darem a recandidatura como “definitiva”, mas isso “é opinião, não a minha opinião. E quem vai decidir sou eu”.

Mas Marcelo é sempre ambíguo. Logo à chegada, nos primeiros minutos da visita, quando esteve ao balcão de um café a tirar uma imperial (mal tirada, cheia de espuma), ia comentando que os jornalistas agora acham que ele tem de ter 70% de votos (como o Expresso escreveu este sábado), para bater o recorde de Mário Soares, mas isso seria criar “presidentes de primeira e de segunda” – os supra 70% e os infra 70%. Não, para Marcelo. Para ele, “bastam 50% dos votos mais um”, diria informalmente ao balcão, ao lado de Vasco Cordeiro e rodeado de jornalistas. Para quem depois dizia que ainda não tinha tomado uma decisão, estava ali estipulada a meta das próximas eleições. Basta um voto para ganhar (se for mesmo candidato).

Ao longo da caminhada, no ambiente bucólico da ilha com 450 habitantes, o Presidente ia olhando para o telemóvel, a ver quantos quilómetros tinha feito, até encontrar uma manada de vacas a atravessar a estrada, que parou pacificamente a fixar o grupo: “A pecuária olha para nós…”, comenta. “Não sei se o PAN gostaria disto”, diz Marcelo que gosta de carne, “apesar de ter uma filha vegan” e vê as vacas não só como bifes, mas como produtoras do leite e da manteiga, que comprará dali a momentos num supermercado da vila (propriedade dos pais da presidente da Assembleia de Freguesia, que faz questão de o levar ao estabelecimento, onde Marcelo passou uns bons vinte minutos a ver e a comentar produtos de toda a ordem).

A descida da montanha acaba quando o contador do telemóvel presidencial marca 1,25 quilómetros, e quando o presidente da câmara, só de fato e camisa já tem o frio entranhado, e a comitiva se interroga por quanto mais tempo terá de passar a apanhar toda aquela humidade. O culpado, se houver, terá sido o socialista Jaime Gama, que Marcelo disse ter sido quem lhe deu a ideia de fazer uma passagem de ano ou um Natal no Corvo. Estava prometido, e o Presidente cumpriu, mesmo com uma aterragem arriscada, só tem pena que o ex-presidente da Assembleia da República, também ele açoriano, não esteja igualmente na ilha.

Nas declarações que fez depois aos jornalistas, junto a um miradouro sobre a vila do Corvo, o Presidente também reconhece que o discurso de Ano Novo, que será gravado amanhã, é a última mensagem de cariz mais político do seu mandato, e que a de 2021 será mais “inócua”, por já se estar em época eleitoral. Até lá, Marcelo Rebelo de Sousa terá uma agenda internacional intensa “por uma conjugação de fatores” – que o distanciará em ano pré-eleitoral dos assuntos internos -, com viagens à Eslovénia, Bulgária, Índia, Japão, Moçambique. Depois de outubro, seja ou não candidato, o Presidente “não andará a interferir em período pré-eleitoral”, diz aos jornalistas.

A mesa está posta para a passagem de ano, no ginásio da escola. Os guardanapos têm argolas douradas, há balões pretos e dourados pendurados, ultimam-se os preparativos para 200 corvinos passarem o réveillon com o Presidente da República. O discurso de amanhã – que será emitido às 13h03, hora de Lisboa – ainda não está escrito, só tem tópicos, mas será para falar de assuntos “essenciais” e não dos temas correntes do “dia a dia”. Que Marcelo sairá da mais ocidental ilha lusitana para o último ano de mandato? Com avisos à navegação, para serem lidos “com cuidado”? O mar à volta do Corvo está revolto, resta saber como Marcelo avalia a maré política em todo o país.

LINK ORIGINAL: expresso

Entornointeligente.com

Allanamiento a las oficinas de EntornoInteligente

Adscoins New Single

Adscoins

Nota de Prensa VIP

Smart Reputation