'A pluralidade sexual está na ficção e na vida dos leitores', dizem autores e editores de livros para jovens - EntornoInteligente
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SÃO PAULO – No último sábado (7), um pouco antes de agentes policiais chegarem na Bienal do Livro do Rio à procura de livros com “conteúdo sexual para menores” para apreender, o escritor Vitor Martins autografava livros depois de participar de um debate. Uma mulher se aproximou dele, contou que se emocionou muito ao ler “Um milhão de finais felizes”, romance publicado por Martins no ano passado, no qual um adolescente é expulso de casa quando sua família religiosa descobre que ele é gay. A mulher contou que também foi expulsa de casa — por motivos que nada tinham a ver com sua orientação sexual, ela que por acaso é hétero — e, com lágrimas nos olhos, apresentou dois jovens que estavam ao seu lado como sua “família do coração”. Uma expressão que Martins repete no livro.

Bienal do livro XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo XIX Bienal Internacional do Livro, no Riocentro Foto: Ana Branco / Agência O Globo  

Além de “Um milhão de finais felizes”, Martins também é autor de “Quinze dias”, no qual Felipe, um adolescente, tem que dividir o quarto, por duas semanas, com Caio, um menino por quem ele sempre foi meio apaixonado. A proximidade com Caio obriga Felipe a enfrentar, enfim, um aspecto que sempre foi complicado para ele: seu peso. Felipe é gordo. Ele também é gay, mas isso está longe de ser uma questão.

Os dois romances de Martins, publicados pela Globo Livros, exemplificam como a literatura juvenil (hoje chamada de Young Adult) não só saiu do armário como também alcançou leitores os mais diversos, independente da orientação sexual.

— Por muito tempo, livros com personagens LGBT eram de nicho. Hoje, isso mudou. Não importa mas se o personagem é gay ou não — diz Martins, que é com frequência procurado por leitores heterossexuais que se identificam com Felipe e seus quilos a mais. — O jovem quer ver a diversidade sexual representada na literatura não só porque ele talvez seja LGBT, mas porque ele tem cabeça mais aberta e vê essa diversidade nos filmes, na “Malhação” e na escola.

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PUBLICIDADE Antigamente, não era assim. Nos anos 1990, a escritora Luize Valente começou a escrever as histórias de “Do tempo em que o voyeur precisava de binóculos”, que também se passa nesse período. Só agora, em 2019, conseguiu recuperar e lançar os textos, porque o contexto mudou: o casal de mulheres homossexuais do livro não é mais tabu, masapenas “um fio, um ponto da narrativa”. Com os acontecimentos da Bienal, porém, Luize teme que a obra volte a ser “enquadrada”.

— Assusta você ter um livro tachado previamente, que seja enquadrado em um tipo de temática — diz a escritora. — Esperava que esse tipo de coisa já estivesse superado. Todas as histórias do livro têm alguma ligação com homossexualidade, mas isso é só um acaso, elas são universais.

— Do ponto de vista de editora, percebo a tendência da naturalização do protagonismo homoafetivo na literatura. Alguns deles atingem sucesso de público e de crítica, como é o caso de “As desventuras de Arthur Less”, de Andrew Sean Green — diz Renata Pettengill, da Record.

Para Nathalia Dimambro, editora da Seguinte, o selo juvenil da Companhia das Letras, a os jovens leitores, não importa a orientação sexual, quer diversidade na literatura — de raça, gênero, orientação sexual e de histórias.

— Para a nova geração é importante que a literatura represente os jovens em toda sua diversidade, seja de raça, gênero ou orientação sexual. Ao se verem representados, os jovens sentem que há um lugar para eles no mundo e abraçam esses livros — diz Nathalia. — São livros que abordam tabus, temas delicados, sem medo e com linguagem acessível.

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Nas contas de Nathalia, dos 15 livros que a Seguinte vai publicar até o final do ano, cinco têm protagonistas LGBT. Um deles é “Vermelho, branco e sangue azul”, de Casey McQuiston, sobre um principezinho inglês que se apaixona pelo filho da presidente dos Estados Unidos — sim, o presidente americano é uma mulher.

“Vermelho, branco e sangue azul” ainda nem foi lançado, mas já fez barulho nas redes sociais. Legiões de jovens que o leram em inglês começaram a implorar que alguma editora brasileira publicasse o livro. A Companhia das Letras, que já estava de olho nessa história de amor transatlântica, arrematou o livro.

Clichês bem-vindos Um dos que gostaram de “Vermelho, branco e sangue azul” foi João Pedroso, de 21 anos, dono do perfil @semspoiler_, no Twitter, onde fala sobre livros. Pedroso elogiou o bom uso que o livro faz de clichês românticos antes reservados a histórias de amor heterossexuais.

— Essa fantasia representa pela realeza ou pela família presidencial já foi muito representada pela cultura, em filmes como “O diário da princesa” e “A filha do presidente”, e têm lugar cativo no imaginário da minha geração — afirma Pedroso. — Quando terminei de ler o livro, fiquei muito comovido porque, pela primeira vez, pude ver alguém como eu colocado em um contexto que fez parte de toda a minha infância, mas no qual nunca me senti incluído.

PUBLICIDADE Taissa Reis, da agência literária Página 7, especializada em autores infantojuvenis, o uso de clichês não afugenta. Afinal, por séculos e séculos, leitores os mais diversos foram capazes de identificar com os dramas do homem branco narrados pela literatura.

— A literatura LGBT também é universal — disse. — Ninguém precisa pertencer a determinado grupo para se identificar com uma história. Só precisa de empatia.

Colaborou Bolívar Torres

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LINK ORIGINAL: OGlobo

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