A Nau de Ícaro

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Cultor de símbolos, interrogador de mitos, revelador de enigmas, Eduardo Lourenço, que teria feito ontem 99 anos, assinalados em Almeida com um memorial de Graça Morais, é o pensador do regresso português à Europa e de uma nova emancipação. Os últimos anos do ensaísta foram marcados pela reflexão crítica sobre o tempo desse retorno e sobre o desafio de uma nova responsabilidade, centrada no encontro com a modernidade – já que sem memória não há futuro. E leia-se um texto de 1993. «No Museu Real de Bruxelas pode ver-se um quadro de Peter Breughel, o Velho, «A Queda de Ícaro». Apesar do caráter trágico da fábula, esta pintura exprime um sentimento de paz, quase de serenidade. O símbolo da ambição humana mergulha no mar no meio da indiferença de tudo o que o envolve, homens concentrados no seu trabalho, baía serena com algumas barcas, natureza adormecida como num sonho, que acabaria melhor do que o de Ícaro. À direita do quadro, não longe do ponto onde o herói desaparece nas águas calmas, sobressai uma imponente carraca pintada com a minúcia flamenga característica do grande pintor. Tal é a minúcia que podemos ver no alto dos mastros duas bandeiras com as armas de Portugal, o escudo com as «quinas», em memória das cinco chagas de Cristo».

Imaginemo-nos em Antuérpia, à volta de 1560, Portugal era pioneiro da primeira globalização. Meio milénio depois a nau portuguesa regressou a uma Europa em perda influência. O exemplo de Ícaro é perturbador. Voltamos a assistir a um mergulho no mar no meio da indiferença. A expansão antiga era distinta da emigração, não era busca de melhor vida, era, à semelhança de gregos e romanos, a procura de espaço de influência. Colonização e conquista, os objetivos sucederam-se, mas o «Novo Mundo, apesar dos seus sucessos, sentirá sempre no fundo de si mesmo a necessidade de um retorno simbólico ao seu ponto de partida, a Europa e, com o tempo, a todo o universo».

No nosso caso, não fomos nem excluídos nem malditos, apenas um povo, mediador entre o Ocidente e o Oriente, «quase contente de estar ao largo da Europa». Hoje, a «nave Portugal» tem vários tripulantes no mundo, e o nosso jardim para cultivar. É certo que a Europa tem dificuldade em exorcizar os seus demónios, mas nós, com Eduardo Lourenço, tomamos consciência de um destino, idêntico a outros, longe de qualquer providencialismo ou fatalismo… Portugal, Europa e o mundo obrigam a repensar o sentimento e a vontade, seguindo a lição perene de Antero de Quental e dos seus, porque o ensaísta tem no seu código genético a síntese que liga o grito dos jovens de Coimbra e do Casino Lisbonense ao impulso futurista do Orpheu. E assim empunha o estandarte europeu: «A cada um sua utopia (…). Não como uma continuidade óbvia de um passado «europeu» sem identidade, mas como aposta numa Europa, empírica e voluntariosamente construída pelas «várias europas» que são cada uma das suas nações.» Só a heterodoxia permite entender o nosso cadinho, sem saudosismo, ligando razão e sentimento, percebendo a alternância cíclica do otimismo e do pessimismo. «É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e escrevendo-se em nós nos autobiografa sem que a ninguém, salvo essa vertiginosa musa, possamos imputar tão extraordinária façanha». Com o dom de usar as palavras para melhor as adequar ao mundo da vida, o ensaísta não esconde que a essência do género que cultiva, tem a ver com a confissão na primeira pessoa do singular. «Nisso quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhecemos por nossa nos intervalos em que a temos como se de outro fosse». A Nau de Ícaro é um ícone. Dependemos da nossa vontade, para combater a indiferença. «O nosso velho navio ressuscitado voltou ao porto sem soçobrar como Ícaro, que já Camões evocara como símbolo dos que sonham aventuras maiores do que eles».

Administrador executivo

da Fundação Calouste Gulbenkian

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

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