A música dos afectos

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Para o volume de mais de 1300 páginas que reúne os seus dezassete livros de poesia, publicados ao longo de trinta anos, de Minha Senhora de Quê (1990) a Mundo (2021), escolheu Ana Luísa Amaral um título que retoma um verso de um poema de Epopeias , um livro de 1994: «O olhar diagonal das coisas». Esse verso surge num poema onde se fala de amendoins e de cerveja (» À minha frente agora, por exemplo, um grupo com cerveja e amendoins/ Se fosse um tempo antes, conseguia/ fazer de amendoins um qualquer tema,/ descascar um poema devagar/ feito de amendoins, cerveja e gente» ). Um olhar diagonal, enviesado, é este que penetra no mundo profano das pequenas coisas e se eleva a partir daí, transcende a objectualidade e a circunstância que foram o ponto de partida. É assim a poesia de Ana Luísa Amaral: feita de referências ao mundo material, quotidiano e muito doméstico (pelo menos, nos seus primeiros livros), permitindo equivalências entre os gestos funcionais mais prosaicos e a poesia («E descascar ervilhas ao ritmo de um verso: a prosódia da mão, a ervilha dançando/ em redondilha» ), mas no entanto abrindo horizontes mais elevados. Essa dimensão que transcende o material e o quotidiano irá tornar-se muito mais presente e definido nos livros mais recentes.

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