A desinformação, velha prática russa (e não só) - EntornoInteligente

Entornointeligente.com / expresso / Se a Rússia de facto envenenou o seu ex-espião Sergei Skripal, como continua a parecer bastante provável, a sua reação seguiu à letra o script de outras campanhas de desinformação no passado. Há a negação do óbvio, o uso de invetiva (“delirante”, “fantástico” e pior) e a inversão da acusação (várias pessoas ligadas ao Governo russo têm dito que foi o Reino Unido a cometer o crime). Há igualmente o lançamento de sucessivas explicações para criar confusão e gerar entre muitos cidadãos a impressão de que “nunca vamos saber”.

Todas estas técnicas têm uma longa tradição na Rússia e na União Soviética. Acima de tudo, dizem os especialistas do género, não se deve ter medo do tamanho da mentira; quanto maior ela for, maiores as probabilidades de ser acreditada. Hitler explicou isto mesmo no “Mein Kampf”, e não por acaso. Os dois totalitarismos, o nazi e o soviético, desenvolveram e aplicaram muitas das mesmas técnicas.

No caso dos nazis, uma mentira clássica foi a existência de uma conspiração comunista para pegar fogo ao Reichtag. Os nazis aproveitaram o incêndio do Parlamento alemão em 1933 para assumir definitivamente o poder. Embora um comunista holandês com problemas mentais tenha aparentemente sido o autor, não existem provas de mais envolvidos. No entanto, as provas apareceram na altura, ou se não apareceram foram usadas como argumento para eliminar os principais rivais dos comunistas.

Os Protocolos de Sião Outro exemplo clássico de desinformação, praticado na Rússia ainda no tempo dos czares, foram os chamados Protocolos de Sião, um texto que supostamente detalha um plano judeu para controlar o mundo. Sabe-se hoje que foram elaborados pela Okrana, a polícia secreta russa (antecessora da Cheka soviética, que deu origem ao KGB; uma descendência ilustre) mais precisamente pelo seu chefe, que vivia em Paris, durante a última década do século XIX.

A qualidade dessa fraude vê-se pelo facto de ainda hoje ser usada com frequência, no mundo árabe e não só. Isso ilustra outra característica de muitas grandes mentiras, que é o terem vida longa. Outra mentira com substancial longevidade, também de autoria russa, foi a de que a sida teria sido inventada pela CIA. Nos anos 80, quando ainda não se conhecia a origem desse vírus novo e aterrorizador, o KGB pôs a correr que tinha sido criado num laboratório militar americano.

Não que se a origem do vírus já fosse conhecida isso tivesse constituído obstáculo à desinformação. A mentalidade conspirativa consegue absorver quaisquer informações, por mais claras e embaraçosas que seja. O próprio facto de algo ser negado muitas vezes é usado como “prova” de que é verdade. Quanto à forma de divulgar a história, o KGB usou uma velha técnica: fazê-la publicar primeiro num obscuro jornal de um país distante, e a seguir publicá-la num media de maior circulação citando essa “fonte”. Hoje em dia, em vez de um jornal usa-se o Twitter ou um site, mas o resultado é o mesmo.

Difamar a esquerda Os países ocidentais também usaram bastante a desinformação, ainda que não à escala soviética, durante a Guerra Fria e mesmo antes. Um exemplo de escola data logo de 1924, quando a imprensa britânica publicou uma carta alegadamente escrita por um líder bolchevique, Grigory Zinoviev. Surgida numa altura em que a recém-nascida URSS assustava o mundo e o Partido Trabalhista britânico tinha conquistado o poder pela primeira vez no Reino Unido. A carta sugeria que esse partido ia promover uma radicalização da classe operária.

O objetivo evidente era prejudicar eleitoralmente os trabalhistas – a carta foi publicada dias antes da ida às urnas. Mas não resultou, pelo menos no imediato. Ao que parece, terão sido russos ‘brancos’ (isto é, antibolcheviques) a elaborá-la, e os serviços secretos britânicos ajudaram a divulgá-la. Tanto eles como os dos EUA e de outros países fariam coisas semelhantes ao longo do último século, muitas vezes para difamar líderes de esquerda em países democráticos ou em vias de modernizar os seus sistemas políticos.

Isto confirma que na guerra da propaganda não há inocentes. A prática de pôr a circular informação falsa existe há séculos; a diferença é que agora os Estados, ou pelo menos alguns, fazem-no sistematicamente, com departamentos bem financiados que se dedicam a isso em permanência. O advento dos mass media facilitou a prática em larga escala, e a internet permite-a em tempo real e com fontes por vezes impossíveis de localizar.

Mentir sobre a própria mentira Que a Rússia utilizou desinformação maciça nas últimas presidenciais dos EUA, é conclusão das várias agências de informação do país. Embora muitos sejam cético em relação a elas, sobretudo por causa das inverdades que algumas disseram para justificar a invasão do Iraque em 2003, desta vez há unanimidade entre elas, o que não acontecia nem de longe há quinze anos. Quem lesse notícias com atenção facilmente se apercebia da manipulação deliberada levada a cabo pelo então vice-presidente Dick Cheney, que foi ao ponto de criar uma estrutura paralela de ‘ intelligence ‘ quando as que havia não forneceram as conclusões necessárias para justificar a guerra que ia desencadear.

No que toca às eleições de 2016, Donald Trump, o vencedor, mostra-se pouco convencido da conclusão unânime. O que acaba por não surpreender, dado ele ser o mais público e proeminente praticante da desinformação hoje em dia. Um homem capaz de dizer grandes falsidades (in)verificáveis – por exemplo, que viu milhares de muçulmanos em New Jersey a festejar a queda das Torres Gémeas no 11 de setembro – também é capaz de insistir nelas, contra todas as evidências. É igualmente natural que inverta as acusações. Fake news é o que dizem os outros, embora seja quase sempre ele que mente. Nem sequer a mentir sobre a mentira o prejudica.

Claro que boa parte da eficiência da desinformação tem a ver a predisposição dos cidadãos para acreditar em determinadas coisas – incluindo que todos os governos mentem e não se pode acreditar em nenhum. Como escreveu Hanna Arendt em “As Origens do Totalitarismo”, “os líderes de massa totalitários basearam a sua propaganda na suposição psicológica correta de que era possível fazer as pessoas crer nas afirmações mais fantásticas um dia, e confiar que se no dia seguinte houvesse uma prova irrefutável de que eram falsas as pessoas se refugiariam no cinismo; em vez de abandonarem os líderes que lhes haviam mentido, as pessoas protestariam ter sabido disso o tempo todo…”.

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