A vã cobiça

a_va_cobica.png

Entornointeligente.com / Cobiça, além de pecado, é nome de terra. Lá vive a primeira e a mais antiga das fãs, a fidelíssima, que desde há dezenas de anos não falha os cartões de Natal e de aniversário para o ídolo, nascido perto, a sete quilómetros dali, em Cachoeiro de Itapemirim, a qual, sendo terra, também é pecado, pois nela viu a luz. Luz del Fuego, nome artístico de Dora Vivacqua, mulher portentosa e poderosa, ardente feminista e escandalosa escritora, que dançava nua, envolta apenas em cobras, até ser covarde e misteriosamente assassinada na ilha do Sol, onde fundara a primeira colónia nudista da América Latina. A ela voltaremos muito em breve, que bem merece.

Quanto a ele, ao ídolo, nasceu em 19 de Abril de 1941, Dia do Índio, e era filho de pais humildes, os Moreira Braga, que tinham vindo há pouco para Cachoeiro, estado do Espírito Santo, em busca de melhor sorte. O pai era um faz-tudo, especialista em serviços gerais, com vagos conhecimentos de relojoaria; a mãe, dona Laura, costurava para fora, mas o facto de viver no limiar da pobreza, ou abaixo dele, não lhe tirava a vaidade, que a fazia usar óculos cat eye , celebrizados por Audrey Hepburn ou Grace Kelly. Apesar das privações, numa casa sem frigorífico ou fogão a gás, onde não havia sequer dinheiro para comprar bananas, a infância foi feliz, campestre, tão-só trespassada por uma tragédia imensa, da qual o ídolo ainda hoje quase não fala: uma estúpida brincadeira de crianças, tinha ele 6 anos, fê-lo ser colhido por um comboio, desastre sobre o qual existem as mais desencontradas versões, não isentas de mistério, sabendo-se agora, muitos anos volvidos, que obrigou a uma amputação na perna direita, um palmo abaixo do joelho. O homem que o socorreu na tragédia, embrulhando o menino ensanguentado no seu paletó branco e levando-o de carro até à Santa Casa de Cachoeiro para ser operado, nunca foi esquecido pelo ídolo, que lhe enviava todos os discos autografados e chegou, inclusive, a convidá-lo para padrinho do seu casamento. Lembrada foi também a amiga que o acompanhava na brincadeira que redundou em pavorosa tragédia ferroviária e que ele, já ídolo, tornou sua governanta e ama do primeiro filho.

Falamos de Roberto Carlos, pois claro. E o facto de o bom gosto ser raramente associado ao seu nome e à sua música em nada deve tirar a admiração por um trajecto de vida feito contra todas as probabilidades, o fascínio pelo percurso de um menino nascido na pobreza nos confins do Brasil, que apenas aos 12 anos ganhou uma prótese graças a uma subscrição pública lançada por uma tia e que, em 1968, derrotou no Festival de San Remo nomes como Adriano Celentano, Shirley Bassey, Paul Anka e, pasme-se, Louis Armstrong; ou que começou a cantar e a gravar ainda Elvis Presley estava no exército e os Beatles se chamavam Quarrymen e que ainda hoje, aos 80 anos, permanece no activo, com mais de 100 milhões de discos vendidos.

Não foi um caso isolado, bem ao invés, e é espantoso pensarmos nas origens paupérrimas de muitos dos que acompanharam o ídolo na sua ascensão, prova provada de que a música popular teve, por todo o mundo, um papel democratizador extraordinário, mas que tendemos a subestimar. Quando foi para o Rio, na busca de sucesso (e Lady Laura, sua mãe, teve um papel decisivo nessa aposta), Roberto chegou a trabalhar como dactilógrafo no Ministério da Fazenda, com o nível mais baixo de todo o funcionalismo público brasileiro, enquanto a mãe mourejava numa fábrica de roupas e a irmã era balconista de uma sapataria da marca Clark’s. Outros aspirantes a ídolos tinham empregos bem piores: Tony Tornado dormia em comboios, vendia jornais e engraxava sapatos na Central do Brasil; Luiz Ayrão trabalhava como engraxador num quartel da polícia militar, o que não o impediu de compor desde os 11 anos; mais precoce ainda, Tim Maia fazia música desde os 8, isto quando não entregava marmitas pelas ruas com a comida confeccionada pelo pai, cozinheiro popular; Erasmo Carlos (não, não é irmão de Roberto) era filho de mãe solteira, só aos 23 anos soube que o pai estava vivo e ganhava a vida em empregos vários, de paquete num escritório a ajudante de pedreiro, passando por cobrador de uma firma de lingerie .

No início de carreira, conta Jotabê Medeiros numa biografia acabada de sair ( Roberto Carlos. Por isso essa voz tamanha, 2021 ), o cantor tentou afirmar-se imitando o genial criador da bossa e o facto de então ser tratado como “João Gilberto dos pobres” dá bem a noção do meio de onde vinha e do público que visava alcançar, cantando em concertos de bairro ou de beira de estrada que, não raro, acabavam em cenas de pancadaria (uma vez, em Niterói, chegaram a atirar-lhe um mamão à cara…). A bossa era coisa de meninos de elite da Zona Sul; popular mesmo, em todos os sentidos, era o rock feito por grupos com nomes como The Sputniks, The Fevers, The Dry Boys, Os Panteras, Golden Boys, Jordans ou Youngsters; no fundo, a geração que introduziu no Brasil o yé-yé , termo cunhado m 1963 pelo filósofo francês Edgar Morin, num artigo do jornal Le Monde , e logo popularizado por todo o planeta. Em versão tropical, os êxitos britânicos eram adaptados em títulos e letras de antologia, com Taxman a virar Chame o Táxi e Satisfaction , dos Rolling Stones, a tornar-se num delicioso Não Tem Jeito .

A ascensão foi imparável, vertiginosa, e em pouco tempo Roberto Carlos passou de crooner da boate Plaza a estrela do Clube do Rock , um programa para jovens da TV Tupi. O acaso, como sempre, jogou papel decisivo, às vezes em pequenos mas divinos detalhes, como este: durante a transmissão televisiva de um jogo pela TV Record, as câmaras mostraram o presidente da Federação Paulista de Futebol no camarote, ao lado de uma mulher voluptuosa que não era, de todo, a sua esposa legítima. Agastado com a indiscrição, o atrevido dirigente desportivo proibiu as emissões televisivas de mais jogos, o que abriu uma enorme cratera na programação e, logo, a necessidade de a preencher com shows e rubricas de entretenimento. Como nota Jotabê Medeiros na biografia atrás citada, este incidente caricato, aparentemente menor, deu um impulso fundamental para o surgimento do primeiro grande movimento de cultura de massas em todo o Brasil. Roberto Carlos, claro está, cavalgou a onda melhor do que ninguém, com estrondos como Susie, Splish Splash, Quero Que Vá Tudo pro Inferno ou O Calhambeque, entre outras desgraças. Portugal, caso não saibam, ajudou à festa: em 1966, Roberto foi o primeiro cantor brasileiro a sair do país para uma única apresentação-relâmpago na Europa, no Casino Estoril, com ida e volta em menos de 36 horas, uma viagem decisiva para cimentar o seu prestígio na terra natal. E, quando julgávamos que tínhamos batido no fundo, o “Rei” decidiu piorar o seu caso com uma guinada romântica e mística que, a partir de 1970, deu ao mundo coisas como Detalhes , Emoções , Lady Laura , Caminhoneiro , As Baleias , que nos recordam que um dia, numa galáxia distante, todos nós fomos sentimentalões e que, gostemos ou não, a música de Roberto Carlos Moreira Braga faz parte da memória das nossas vidas, fatigadas pela vã cobiça. As canções são perfeitas, absolutamente perfeitas, pois cumprem sem falha alguma o propósito para que foram feitas: conquistar um público o mais alargado possível, socialmente transversal, com melodias que se instalam no ouvido para todo o sempre, mesmo contra nossa vontade, e letras de simplicidade desarmante, fáceis de fixar, escritas num código que todos conhecem e em que todos se revêem – intelectual e, sobretudo, emocionalmente.

Roberto é frequentes vezes criticado, como Pelé, por não ter usado o fulgor do seu nome e da sua voz para criticar a ditadura brasileira, em defesa dos perseguidos e torturados, e até por ter mantido amistosas relações com os sucessivos governos militares, numa cumplicidade que aproveitou a ambas as partes. Em defesa, o ídolo argumenta que a Jovem Guarda, onde se lançou, nunca foi um movimento político ou de intervenção, antes um projecto estritamente musical. Alega também que não deixou de visitar Caetano no seu exílio de Londres e que até lhe dedicou uma música, Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos , mas o facto é que tudo isso só se soube muito tempo depois, já em democracia, e que durante 21 anos julgou-se que aquela canção era uma balada romântica, não mais, tendo sido Caetano a revelar, em 1992, que Roberto e Erasmo a tinham feito em sua homenagem. Além do mais, o Rei, que quase nunca faz comentários de cariz político, sabendo que eles podem alienar uma parcela dos seus fãs, não deixou de defender o impeachment e a saída de Dilma e, pior ainda, de manifestar simpatia pela ascensão de Bolsonaro, talvez por este se mostrar mais próximo do seu catolicismo ultraconservador, que o levou, por exemplo, a apoiar a censura ao filme Je Vous Salue, Marie , de Godard (e a sua mulher a condenar o uso do preservativo, advogando a abstinência mesmo durante o Carnaval).

O seu pecado maior, todavia, não é esse, antes a vã cobiça. Roberto Carlos teve uma carreira conquistada a pulso, o que é louvável, mas também feita ao murro e ao pontapé, esmagando sem piedade todos os que se atravessavam no seu caminho. E, pior ainda, não abandonou essa pulsão mesmo quando já tinha alcançado o cume e era fabulosamente rico, ídolo absoluto, sem nada mais a ganhar e a provar. Os que tentam defendê-lo dizem que sofre de transtorno obsessivo-compulsivo e, por isso tem uma irreprimível tendência para querer controlar tudo quanto lhe diga respeito. Isso não explica, porém, que tenha processado em 1983 o grande jornalista Ruy Castro (que não é propriamente um repórter de escândalos e mexericos) por este ter ousado falar dos seus romances no tempo da Jovem Guarda. Ou que tenha tentado impedir até a publicação de uma tese de mestrado sobre a sua obra, para não falar do caso mais grave, o da perseguição implacável a Paulo César de Araújo, um fã que durante 15 anos trabalhou na escrita da sua biografia, Roberto Carlos em Detalhes , impedida de ser vendida ao fim de encarniçada batalha judicial (anos antes, o autor e o editor de outra biografia, O Rei e Eu , acabaram na miséria). Não há muito, um pacato cidadão chamado Roberto Carlos Vieira teve o infortúnio de abrir, nos confins de Vila Velha, uma pequena empresa com o nome Roberto Carlos Imóveis, que os advogados do cantor aniquilaram à nascença, em defesa dos direitos de autor, gesto tanto mais estranho quanto muitas das canções de Roberto se baseiam, por vezes com proximidade excessiva, a músicas anglo-saxónicas, sem que aos autores originais seja dado o devido crédito (por exemplo, O Caminhoneiro é quase uma cópia de Gentle on My Mind , de John Hartford, cantada em 1969 por Elvis, mas no álbum do brasileiro nem se menciona sequer o nome do compositor).

Roberto Carlos converteu-se, pois, aos 80 anos de vida e de êxitos, numa questão filosófica e existencial, mostrando-nos como é miserável e triste a vã Cobiça, a qual, além de pecado, é nome de terra. Dona Gercy Volpato, a fã mais antiga, ainda por lá vive e todos os natais e todos os aniversários manda um postal ao seu ídolo. Será que ele merece?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

LINK ORIGINAL: Diario Noticias

Entornointeligente.com

Smart Reputation
Boxeo Plus
Boxeo Plus

Smart Reputation