Boris Johnson e a porquinha Peppa

Entornointeligente.com / A cabeleira laboriosamente desgrenhada de Boris Johnson nem sempre o ajuda. Vendo-o agitar aquele prodigioso caos louro, qualquer discurso incoerente fica parecendo ainda mais incoerente. O último provocou considerável escândalo, levando alguns jornalistas a duvidar da sanidade mental de Boris. O primeiro-ministro britânico começou por elogiar os méritos da porquinha Peppa e do seu universo de desenhos toscos, para depois imitar, com admirável competência, o motor de um carro movido a gasolina.

Sobre Margaret Thatcher, cuja cabeleira estava sempre impecavelmente arrumada, e rigorosamente aparafusada ao crânio, corria a piada de que, certo dia, tendo caído ao descer as escadas, fraturara dois cabelos.

Um disparate dito por alguém como Margaret Thatcher, quero dizer, alguém sempre tão impecavelmente arranjado, leva muito tempo a ser descoberto, porque o público acredita que só pode tratar-se de um acerto estranhamente profundo. Mesmo assim, fica difícil imaginar Margaret Thatcher imitando um carro, sem parecer ébria ou completamente louca. Acho ainda mais difícil imaginá-la a elogiar a porquinha Peppa.

Confesso que a primeira vez que vi a minha filhinha assistindo aos desenhos da porquinha tomei um susto. Tanto a simpática porquinha quanto a família, em particular o senhor seu pai, se parecem muito com os rabiscos obscenos dos banheiros masculinos. Não posso afirmar que se trata de uma partida deliberada. Não sei. Talvez os rabiscos obscenos dos banheiros masculinos ingleses não se pareçam com o alegre focinho do Papai Pig.

Boris Johnson manifestou-se particularmente agradado com as ruas muito seguras e as escolas disciplinadas do Peppa Pig World , um parque de diversões, ao estilo da Disneylândia, situado numa floresta, em Hampshire, no sul da Inglaterra. Johnson chamou a atenção para o fato de a porquinha ter sido rejeitada pela BBC, antes de ser comprada por mais de 180 televisões do mundo todo.

Suponho que o sucesso do seriado entre as crianças pequenas, como a minha filha Kianda, tenha a ver com a simplicidade das figuras e dos enredos, que encenam um sem-número de situações do cotidiano. Ao longo dos últimos anos, até por força da convivência, acabei simpatizando com a porquinha. Gosto sobretudo da forma como o seriado mistura ideias de cidadania e conceitos básicos de higiene. Para os criadores da Peppa, é tão importante lavar os dentes quanto salvar o planeta, ensinando os pequenos a reciclar o lixo e a fazer compostagem.

PUBLICIDADE Durante muito tempo acreditei que tanto o cabelo quanto a loucura de Boris fossem um artificialismo que ele viesse cultivando com esforço, para se distinguir da maioria, e assim ascender politicamente. Nas democracias do espetáculo que temos hoje, um político só existe enquanto reparam nele. Talvez isto seja o pior destas democracias. Os ditadores, pelo contrário, podem dar-se ao luxo da discrição. Contudo, começo agora a acreditar que Boris é autêntico, todo ele, começando no cabelo e terminando na loucura. Por um lado, isso torna-o mais simpático. Por outro, convenhamos, um pouquinho mais assustador.

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