Ex-secretário de Estado dos EUA e um dos arquitetos da invasão do Iraque, Colin Powell morre de Covid-19

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Entornointeligente.com / WASHINGTON — Secretário de Estado americano durante o primeiro mandato do ex-presidente George W. Bush e um dos arquitetos da Guerra do Iraque, Colin Powell morreu nesta segunda-feira vítima de complicações da Covid-19. Primeiro homem negro a liderar a política externa americana e a chefiar o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, ele tinha 84 anos.

Em um comunicado divulgado pelo Facebook, a família não especificou quais foram as complicações do coronavírus que causaram a morte de Powell, mas afirmou que ele já havia tomado as duas doses da vacina anti-Covid, amplamente eficazes contra casos graves da doença, especialmente em pessoas saudáveis. Segundo fontes ouvidas pela CNN, o ex-general tinha mieloma múltiplo, um tipo de câncer nas células plasmáticas que compromete o sistema autoimune, deixando o paciente mais vulnerável a infecções.

“Nós perdemos um marido, pai e avô notável e querido e um grande americano”, disse a família na nota, afirmando que ele estava sendo tratado pela equipe médica do Centro Médico Walter Reed, hospital militar na cidade de Bethesda, em Maryland, nos arredores de Washington.

Os principais capítulos da vida pública do ex-soldado nova-iorquino envolvem o Iraque e a família Bush: em 1989, durante o mandato de George H. W. Bush, Powell liderou o Estado-Maior Conjunto durante a invasão do Panamá e, dois anos depois, na primeira Guerra do Golfo. Na época, conseguiu expulsar Saddam Hussein do Kuwait, mas optaram por não o expulsar de Bagdá, onde permaneceria no poder pela próxima década.

Ao lado do então secretário de Defesa Dick Cheney, teve papel-central em redirecionar as ações militares americanas com o fim da Guerra Fria, dando-a o selo que ficaria conhecido como doutrina Powell: com claro apoio político e endosso da opinião pública, a tática era usar força esmagadora e decisiva para derrotar os adversários.

“Colin Powell foi um grande servidor público (…) e muitos presidentes contavam com seus conselhos e experiência”, disse Bush, em nota. “Ele era tão favorito dos presidentes que ganhou a Medalha Presidencial da Liberdade duas vezes. Era muito respeitado tanto em casa quanto no exterior e, mais importante, era um homem de família e um amigo.”

PUBLICIDADE Popular, Powell deixou a carreira militar em 1993 e, por anos, foi cogitado como um possível candidato à Presidência por ambos os partidos. Ele, no entanto, só retornou ao serviço público em 2001, como secretário de Estado de George W. Bush — cargo que abandonaria no fim do primeiro mandato do republicano,  em meio a grandes questionamentos sobre uma guerra do Iraque que ia de mal a pior.

Discurso na ONU O capítulo mais infame da carreira de Powell, o qual ele posteriormente se referiria como um “grande fracasso de inteligência” e uma “mancha” em seu histórico, veio em 5 de fevereiro de 2003. Em uma apresentação ao Conselho de Segurança da ONU, ele destrinchou o argumento americano para uma invasão que começaria no mês seguinte, acusando falsamente o Iraque de Saddam Hussein de ter armas de destruição em massa.

Cheney, à época vice-presidente de Bush, e o então secretário de Defesa Donald Rumsfeld, eram defensores árduos de uma segunda invasão no Iraque para derrubar Saddam Hussein. Seus argumentos ganharam mais força após os ataques de 11 de Setembro de 2001 contra o World Trade Center e o Pentágono, orquestrados pelo grupo terrorista al-Qaeda, de Osama Bin Laden.

Rumsfeld e Cheney, com quem Powell notoriamente disputava o ouvido do presidente, argumentavam que o ex-ditador tinha elos com o atentado que matou quase 3 mil pessoas — apesar de haver múltiplos registros de contatos entre o governo iraquiano e integrantes do grupo terrorista, um elo operacional que o próprio Congresso americano constatou em 2004 nunca ter sido provado. Defendiam, portanto, uma invasão.

PUBLICIDADE Powell, por sua vez, era favorável a outra abordagem: em relatos posteriores, disse que passou meses alertando Bush de que invadir o Iraque poderia ser fácil, mas transformá-lo em um regime democrático não seria. Foi, no entanto, voz vencida: sob ordens do presidente, pediu que a ONU enviasse inspetores a Bagdá para buscarem armas de destruição em massa.

Nada foi encontrado, mas o Congresso americano, mesmo assim, autorizou em outubro de 2002 o uso de força militar contra o Iraque. Segundo Powell, Bush já havia decidido a favor da invasão quando lhe enviou à ONU em fevereiro de 2003 para expor “fatos e conclusões baseadas em inteligência sólida” de que Saddam Hussein teria armas biológicas, mesmo sabendo se tratar de uma mentira.

O discurso, por si só, não lançou a invasão, mas foi suficiente para que parte da opinião pública e dos aliados, como então primeiro-ministro britânico Tony Blair, apoiassem a operação, considerada ilegal pela ONU. A guerra só acabaria quase oito anos depois, em dezembro de 2011, deixando cerca de 5 mil soldados americanos mortos. Não há consenso entre o número de mortes entre civis, mas a organização Iraq Body Count estima que figure entre 185 mil e 210 mil. Outros levantamentos estimam que o número possa chegar a 400 mil.

PUBLICIDADE Consequências pós-guerra Toda a instabilidade criou terreno para o surgimento do Estado Islâmico, que surgiu em 2004 dos restos da filial iraquiana da al-Qaeda, comandada por Abu Musab al-Zarqawi — citado 21 vezes no discurso de Powell na ONU como o elo entre o grupo terrorista e o governo de Saddam Hussein.

Aproveitando-se da instabilidade no Iraque e na Síria, prinicipalmente após a guerra civil que começou em 2011, o grupo realizou uma série de ataques e fez campanhas para aumentar seus quadros. Três anos depois, lançaria a ofensiva contra as cidades de Mosul e Tikrit e, no auge de sua força, chegou a ter o controle de um terço do território sírio e 40% do território iraquiano com o seu califado. O Iraque, por sua vez, é um Estado falido, marcado pela pobreza, injustiça e violência.

Nascido em 5 de abril de 1937 no Harlem, em Nova York, Powell é filho de imigrantes jamaicanos que trabalhavam em fábrica texteis. Após o ensino médio, se formou em Geologia na Faculdade da Cidade de Nova York, onde se inscreveiu para o Exército americano, servindo duas missões no Vietnã. Antes de ser chefe do Estado-Maior, foi também a primeira pessoa negra a servir como conselheiro de Segurança Nacional, de 1987 a 1989.

Uma das principais figuras públicas a morrer de Covid-19, Powell havia se distanciado do partido dos últimos anos, particularmente durante o mandato de Donald Trump, afirmando que não reconhecia mais a legenda. Chegou inclusive a participar da convenção do Partido Democrata de 2020 que confirmou a candidatura de Joe Biden à Presidência. Nas eleições de 2008 e 2012, declarou voto ao democrata Barack Obama, chamando-o de uma “figura transformadora”. Em 2016, também declarou voto em Hillary Clinton.

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LINK ORIGINAL: OGlobo

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