O Douro quer ser ainda mais Verde

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Entornointeligente.com / Consegue dizer mais de centena e meia de palavras por minuto. Sabe de cor as histórias de quase (ou todas) as pedras da região, monumentos, capelas e recantos, serranias e zonas ribeirinhas. Quem o conhece há muitos anos chama-lhe simplesmente “professor”. Quem não o conhece, até pode ser levado a crer que engoliu uma enciclopédia, ele que fez o curso de Românicas e dedicou grande parte da vida profissional ao ensino dos mais novos no Português, Francês e na Literatura. Mas é a contar histórias que Pereira Cardoso se sente em casa. “Eu sempre fui interessado. Já por natureza estudo. E gosto”, diz este apaixonado por tudo o que diga respeito às tradições, à cultura, gastronomia, paisagem e tudo o mais que se possa imaginar acerca do Douro Verde . Ou seja, as terras inseridas na região duriense que produzem vinho verde. Mas não só. Sob a supervisão da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, o caminho está a ser feito.

Comecemos pelo meio da jornada de dois dias que levou a Fugas a percorrer parte dos concelhos de Baião, Resende, Cinfães, Amarante e Marco de Canaveses – o tal Douro Verde. Atravesse-se o rio desde as Termas das Caldas de Aregos até ao apeadeiro de Caldas de Aregos. São pouco mais de dez minutos pelo meio das águas do Douro, onde o lento ronronar do motor nos embala rumo aos caminhos percorridos por Jacinto n’ A Cidade e as Serras , de Eça de Queiroz. Deixemo-nos deslumbrar pela paisagem daquele verde agreste do Douro de transição e subamos até à Fundação Eça de Queiroz.

Foto João Bernardino Para quem não conhece o lugar, basta ler a obra póstuma do escritor nascido na Póvoa de Varzim, na qual consta esta transcrição na página oficial da Fundação: “Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo – que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. […] Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro, logo por trás da casa, o monte sobe até aos cimos onde há uma ermida.”

Uma vez entrado, o visitante mergulha no espírito queirosiano da casa que um dia o escritor encontrou pejada de porcos e de galinhas a percorrer salões e quartos de dormir. Dali até ao Restaurante de Tormes é um pulo de gato. E como não provar a canja feita à moda da criada que recebeu o senhor Eça, mais o arroz de favas com galinha dourada e o leite-creme torrado?

Foi nos jardins contíguos ao local de pasto que Pereira Cardoso contou mais uma de mil histórias, desta vez envolvendo “o neto do Eça de Queiroz, D. Manuel de Castro, que era engenheiro agrónomo e esteve em comissão em Angola ” . ” Depois, veio para aqui e a mãe dele, D. Maria, a filha mais velha do Eça, entretanto falecida, é que veio dar um primeiro jeito a esta casa. E depois ele [D. Manuel de Castro] viveu aqui e até foi presidente da Câmara de Baião!”

Foto O professor Pereira Cardoso tem muitas histórias para contar Mário Barros Termas, EN222 e zilhões de degraus Quase ao alcance do braço ficam as Termas das Caldas de Aregos que, de momento, estão em estado de dormência, à espera do final de 2023. Nessa altura, estarão concluídas as obras de recuperação, após um investimento de 5,3 milhões de euros. Mesmo assim, vale a pena visitar este local, cujas primeiras referências conhecidas datam de 1102. Isto por causa das propriedades curativas das suas águas cálidas, “ao fundo do monte Gerôncio”. Em marcha está agora o processo de classificação como “Estância Termal do Douro”, o que lhe dará outro estatuto no universo termal português.

E quando em Resende sê resendense . Deixemos as termas em banho-maria e tome-se de assalto uma caixa de cavacas cozinhadas com lenha de vime. A “culpada” é a Casa Adosinda, onde ainda se utiliza o forno tradicional e uma balança de ferro para a medição das farinhas e dos açúcares, lembrando a D. Graça, que fazia mais de 20 quilómetros a pé para vender as cavacas. Reza a lenda que este doce teria sido feito como bolo de noiva, mas que, dada a ausência de casamento, acabou fatiado.

Para quem se preocupa com as calorias, há bom remédio a uma hora de condução pela EN222 – estrada que tem, segundo diversas publicações nacionais e estrangeiras, algumas das paisagens mais bonitas do mundo . Em Arouca, os Passadiços do Paiva estão à espera para uma bela caminhada . Os quase nove quilómetros de extensão, compostos por zilhões de degraus, devem substituir uma semana de ginásio. Para melhor apreciar a paisagem, e numa perspectiva quase de helicóptero, nada como percorrer a Ponte 516 . Assim baptizada porque tem 516 metros de comprimento, de topo a topo, com 127 tabuleiros de metal de quatro metros cada. Se o tempo está bom, dá mesmo vontade de ficar a meio da ponte, a 175 metros de altura, puxar de uma cadeira e ler um livro…

Foto João Bernardino “Os passadiços farão pelo Paiva mais do que muitas associações ao longo dos anos. Obriga-nos a conservar melhor o território; é geoconservação, geoeducação, que está a ser feita aqui desde o pré-escolar. Queremos trazer cá pessoas, porque só conhecendo é que se pode preservar”, resume Margarida Belém, presidente da Câmara de Arouca.

Vacas, rosas, mosteiro e vinhos Voltamos à fala com Pereira Cardoso, enquanto as rodas do carro vão de novo para a estrada, agora para a Tasquinha do Fumo, no Caminho da Poça do Salgueiro, em Campelo (Baião). Perdidos? O GPS resolve tudo. Nesse entretanto, o nosso “professor” vai contando histórias sobre a origem da raça arouquesa, que terá evoluído da Antiga Pérsia, onde teria o nome de Ur, viajando depois para o Antigo Egipto (Auroque) e, mais tarde, para a Europa e o cantinho agora chamado Arouca. A história, reconhece, não é consensual, pois há quem defenda ter origem no cruzamento feito pelos celtas de várias raças da região. Poderá ser romantismo…

“A vaca arouquesa distingue-se das outras pelos cornos . Como disse um dia um ilustre conhecido, ‘parece que a lua lhes pousa nos cornos’. São arredondados nas pontas. Há perto de 60 anos, haveria na região cerca de 60 mil vacas; hoje, serão pouco mais de quatro mil de raça pura”, explica Pereira Cardoso.

Ainda em Baião, ficamos a saber o motivo pelo qual a designação Douro Verde tem razão de ser. De visita às obras de recuperação do Mosteiro de Santo André de Ancede, pela mão de Siza Vieira, um produtor e enólogo local brindou com nada mais, nada menos do que uma dúzia de vinhos verdes da região. Foram brancos e rosés, mais intensos e mais suaves, com travo a frutos e a madeira, num sem-fim de experiências. Na mesa ao lado, repousavam de forma provocadora alguns dos petiscos da região: bola de carne, empadas, fêveras em vinha d’alhos, alheira de caça…

A dois passos, no adro, está a Capela do Senhor do Bom Despacho, datada do século XVIII. A capela barroca, de planta octangular, contém uma deslumbrante história da vida de Cristo e “571 rosas pintadas”, segundo o nosso “professor” Pereira Cardoso. Nos pequenos nichos que dão a volta interior à capela é impossível não reparar num frade com uma faca gigantesca na mão, prestes a circuncidar o pequeno Jesus. Não fosse alguma coisa correr mal, o autor colocou ao frade umas lunetas com umas lentes dignas de um telescópio…

Depois de tantas comedorias, nada melhor do que terminar a viagem com um passeio de bicicleta na Ecopista do Tâmega. A antiga estação de caminhos-de-ferro de Celorico de Basto é o ponto intermédio da ligação entre Amarante e Arco de Baúlhe, num total de 49 quilómetros. Dali, é possível ver grande parte do monte Farinha. Alugue uma bicicleta eléctrica, pense na canseira dos ciclistas no final da etapa mítica da Senhora da Graça e faça-se à estrada. Vai ver que a ecopista é feita de veludo.

Foto Teatro e canja de galinha Ana Pinto e Rafael Pereira são camaleões do teatro. Vestem a pele de gente com mais de cinco mil anos, de romanos, medievais, renascentistas ou dos nossos dias. O que a circunstância ditar, de Norte a Sul do país e até em Espanha. Ela é professora, ele funcionário da Câmara Municipal de Baião. Juntos desde 2013, formam a companhia de teatro Viajantes no Tempo. Para a rua, já levaram peças de teatro infantil, quadros de animação em feiras temáticas e outras feitas à medida. O que mais os motiva é a literatura. Rafael Pereira conta que já recriaram várias cenas de obras de Camilo Castelo Branco, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino Ribeiro ou Mário Cláudio. São ainda encenadores no grupo de teatro amador Bai’o Teatro, com o apoio da autarquia de Baião.

A Fugas foi encontrá-los na Fundação Eça de Queiroz e Rafael Pereira confessa uma pequena dificuldade: “Sou esquerdino e o Eça era destro e, sempre que como a canja de galinha, faço um esforço imenso para comer com a colher na mão direita.” Mais estranho terá sido recorrer a um coração de porco verdadeiro para encenar um excerto de Fanny Owen, de Agustina Bessa-Luís. Mas nada que demova esta dupla, que tem como desejo “criar novos projectos e levar a cultura o mais longe possível”. A paixão é tanta que nem o facto de terem de ser figurinistas, encenadores, actores, maquilhadores, dramaturgos e outras coisas tais os demove. Haja teatro.

A madeira da cerejeira tem memória As conversas são como as cerejas. Ou será o contrário? Rui Cardoso produz cerejas e vinho na Quinta da Massôrra, Resende, e quando fala das 25 variedades do fruto percebe-se a paixão. Após estudar em Inglaterra e dirigir o departamento de marketing do Instituto do Vinho do Porto, casou-se e voltou à quinta onde ia com o pai em criança passar parte das férias. Agora, dedica-se à experimentação de diversas variedades deste fruto tão sensível quanto desejável. E logo num território tão susceptível. “Resende tem uma orografia muito difícil, o que complica o desenvolvimento das cerejas. Fazemos muitas experiências que não resultam, por causa das condições do terreno e do clima”, diz, explicando que para se saber “se uma árvore resulta são necessários seis anos”. Mas a persistência faz parte da sua vida. Prova disso é o labor diário de vergar os ramos das cerejeiras para que cresçam para os lados e não em altura. A maleabilidade da madeira faz com que muitas das bengalas utilizadas pelos estudantes nas Queimas das Fitas e para usos mais clássicos provenham da zona de Resende (e não só). “A madeira da cerejeira tem memória e podemos fazer dela o que quisermos.”

Uma noite na Quinta do Outeiro Quem chega à Quinta do Outeiro, em Resende, percebe de imediato a imponência do sítio: um edifício senhorial datado do século XVII, que foi casa de nobres portugueses e de descendentes de Guilherme I de Inglaterra. Após muitos anos de abandono, o espaço foi comprado por dois empresários britânicos, que restauraram cada centímetro quadrado da quinta. São cinco hectares para produção de vinhos, azeite, mel e frutos que envolvem os vários edifícios, onde é possível usufruir de quartos, suítes (a cozinha está incluída em muitos dos espaços), casas de campo, três piscinas, um jardim histórico, uma capela santificada, locais para vários tipos de eventos… Produz ainda vinho da gama Rocaille, a próxima grande aposta, como é possível ver na adega. Além de Resende, é possível participar em actividades como caça e pesca, observação de aves, provas de vinho ou caminhadas pela serrania. Quem sair do Porto, pode contar com apenas uma hora de viagem via A4. Uma vez lá chegados, ficamos rendidos à sumptuosidade do lugar e da paisagem que embala o olhar.

Dolmen: em nome da tradição Tem como missão “a promoção do desenvolvimento da região, numa perspectiva integrada, valorizando os seus recursos endógenos naturais, culturais e humanos, assente na preservação dos […] saberes, sabores e valores” do Douro Verde. Falamos da Dolmen, uma entidade ao serviço do desenvolvimento local. Presente nos seis municípios (Amarante, Baião, Cinfães, Marco de Canaveses, Penafiel e Resende) abrangidos por aquela designação, a Dolmen procura desenvolver parcerias entre os vários actores locais, na promoção e desenvolvimento das tradições culturais regionais. Como refere Elsa Pinheiro, coordenadora-geral desta entidade, “o objectivo é fazer com que os municípios se unam em torno de um objectivo comum, que é o de levar longe o nome da região do Douro Verde”. A título de curiosidade refira-se que o nome Dolmen foi inspirado pelo monumento megalítico situado na serra da Aboboreira. Outro dos locais imperdíveis para quem quiser perder-se por terras do Douro Verde.

A Fugas viajou com o apoio da  CCDR-Norte

LINK ORIGINAL: Publico

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