Em curso sobre a história da diplomacia, tucanos e petistas esquecem rixa e fazem coro contra Bolsonaro

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Entornointeligente.com / Em meados de 2012, no governo de Dilma Rousseff e após vários anos de colaboração entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, o Mercosul anunciou a incorporação plena da Venezuela ao bloco, um sonho que o líder bolivariano almejara desde sua chegada ao poder em 1999.

Nunca foi segredo a sintonia fina que existia entre Brasília e Caracas e a decisiva colaboração do Brasil de Lula para que o chavismo conseguisse o que tanto queria. O que para os governos do PT era uma aliança estratégica em muitos sentidos, para seu principal adversário, o PSDB, foi, nas palavras do ex-chanceler Celso Lafer, que ocupou a pasta nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, “coisa gravíssima”, que colocava “em questão 20 anos de esforços da diplomacia brasileira”.

Notícias em imagens nesta sexta-feira pelo mundo Par de sapatos Converse Fastbreak assinados usados por Michael Jordan durante as seletivas olímpicas de 1984 são exibidos antes do leilão em Nova York. Os sapatos devem render entre 80.000 e 100.000 dólares americanos Foto: HANDOUT / AFP Pessoas se curvam diante de um mosaico de retratos dos falecidos líderes norte-coreanos Kim Il Sung e Kim Jong Il, na encruzilhada Dongmun, no distrito de Daedonggang de Pyongyang, por ocasião do 27º aniversário da morte de Kim Il Sung Foto: KIM WON JIN / AFP Dois suspeitos de participar do assassinato sendo levados na mala de uma picape da polícia Foto: VALERIE BAERISWYL / AFP A tocha olímpica chega a Tóquio, Japão, para o primeiro dia do revezamento Foto: PHILIP FONG / AFP Criança migrante desembarca de uma balsa inflável auxiliada por um contrabandista de humanos após cruzar o rio Rio Grande para os Estados Unidos vindo do México em Roma, Texas, EUA Foto: GO NAKAMURA / REUTERS Pular PUBLICIDADE Trabalhadores médicos coletam amostras de teste de residentes passam pela cidade de Ho Chi Minh, no primeiro dia em que o governo impôs bloqueio de duas semanas como medida preventiva para impedir a disseminação do coronavírus COVID-19, no Vietnã Foto: HUU KHOA / AFP Comitê de Ataque Revolucionário da Juventude de Dawei organiza protesto contra o golpe militar em um mercado em Dawei, Mianmar Foto: HANDOUT / AFP O histórico de divergências em matéria externa entre os dois partidos que mais dominaram a cena política brasileira desde a redemocratização é longo. A chamada “diplomacia Sul-Sul” implementada pelos governos do PT, que deu prioridade às relações com os vizinhos da América do Sul e aos vínculos com os então novos sócios do Brasil nos Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul), também foi alvo de uma enxurrada de críticas. Nos anos em que o termo “polarização” era sinônimo da briga entre o PT e o PSDB, a área externa concentrou boa parte do bate-boca. Quem ousasse prever que os dois partidos um dia concordariam sobre alguma coisa poderia ser chamado de louco.

O unificador Eis que Jair Bolsonaro é eleito presidente e põe petistas e tucanos do mesmo lado: ambos frontalmente contrários a sua política externa. Isso ficou claro ao longo do curso História da Diplomacia Brasileira, organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), que abre uma nova frente na área da educação. Na lista de palestrantes estiveram os ex-presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Dilma Rousseff, os ex-chanceleres Celso Amorim, Celso Lafer e Antonio Patriota, e muitos embaixadores, entre eles, Rubens Ricupero, Marcos Azambuja, Gelson Fonseca e Fernando de Mello Barreto.

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Ao apresentar o curso, Ricupero admitiu ter passado muito tempo desanimado, “porque estávamos assistindo à destruição de um patrimônio de séculos”, em referência à gestão de Ernesto Araújo no Itamaraty.

— A pressão da sociedade levou o governo a mudar o ministro das Relações Exteriores. A sociedade se mobilizou, isso mostra que o povo brasileiro preza muito a sua herança diplomática e não quer perdê-la — destacou o embaixador aposentado, historiador da diplomacia e ex-ministro da Fazenda.

Nostalgia Em conversa com Fernando Henrique, o embaixador Azambuja lembrou como o ex-presidente tucano tinha diálogo fluido com vários chefes de Estado do mundo. Em 1992, o governo FHC convocou a primeira cúpula de presidentes sul-americanos, fato também lembrado por Amorim, ministro das Relações Exteriores nos anos do PT no poder.

PUBLICIDADE — O Brasil tinha livre trânsito e encontrava poucas resistências. Éramos eleitos para quase tudo que pleiteávamos. Não éramos vistos como infratores deliberados das regras do jogo internacional, sobretudo em matéria de direitos humanos e meio ambiente. Não éramos uma ameaça aos vizinhos ou à ordem internacional — rememorou Azambuja, que foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador na França e na Argentina.

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Para os bons entendedores, ele não precisou dizer: “quanta diferença com o Brasil de Bolsonaro”.

Ponto fora da curva O espanto com o ex-chanceler Araújo começou com seu discurso de posse, em janeiro de 2019, no qual fez citações inusitadas em latim, grego e tupi e atacou o chamado “globalismo”, jargão da direita para as instituições globais. Depois vieram situações inéditas para o Itamaraty, entre elas o respaldo à iniciativa do presidente de indicar seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, para ser embaixador em Washington .

Em plena pandemia, o ex-chanceler se referiu ao coronavírus como “comunavírus”, provocando imediata reação do governo chinês. Na forma e no conteúdo, Araújo repetiu o roteiro da extrema direita americana. O alinhamento automático do Brasil com Donald Trump foi sua marca registrada até sua saída da pasta em março deste ano. No final do ano passado, Araújo de certa forma resumiu seu legado ao dizer que, se a política externa “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

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No curso do Cebri, até Temer deu o seu recado ao falar da necessidade de recuperar a “tradição de conciliação, da influência da diplomacia em nossa história interna”.

— O preâmbulo de nossa Constituição já indica, fala em pacificação. Existem regras triviais, como a aliança com nossos vizinhos latino-americanos. Sinto que no presente momento não há preocupação grande por essa aliança. Acho isso péssimo para nossos interesses, políticos e comerciais — disse o ex-presidente.

Collor — em cujo governo foi assinado o Tratado de Assunção que em 2001 criou o Mercosul, após anos de negociações — fez coro às críticas ao defender o bloco. Parte do governo Bolsonaro propõe que o Brasil avance, com ou sem a Argentina, num processo de flexibilização do Mercosul.

— Passamos séculos virados de costas para os vizinhos latino-americanos. Era fundamental reverter esse cenário — opinou.

Relação com os EUA A relação com os EUA sempre foi um dos temas de maior discrepância entre PT e PSDB. Um dos episódios lembrados por Dilma em sua apresentação no curso, uma conversa com a professora Maria Regina Soares de Lima, foi o vazamento em 2013, pelo ex-analista de informações Edward Snowden, de documentos da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) que confirmaram a espionagem dela própria e de dirigentes da Petrobras, entre outros. O episódio levou Dilma a cancelar uma visita oficial aos EUA, decisão que continua considerando correta, embora admita que “causou um impacto na relação (bilateral)”.

PUBLICIDADE Num tom conciliador, Amorim, em defesa de seu próprio legado, declarou que nos governos do PT o país consolidou uma política externa assertiva.

—Não concordamos com a Alca (Área de Livre Comércio das Américas, projeto liderado por Washington), criticamos a intervenção no Iraque, mas tivemos uma relação próxima com os EUA— afirmou o ex-chanceler que por mais tempo comandou o Itamaraty (10 anos, incluídos os governos Lula e Itamar Franco).

Acervo digital O curso on-line do Cebri atraiu muitos jovens: dos 1.500 inscritos no curso, 48% têm menos de 25 anos e 23%, entre 26 e 35 anos. Quem não viu as aulas em tempo real entre maio e julho pode se inscrever e assistira todos os vídeos. Em breve, o material será legendado para o inglês para o público internacional.

O leitmotiv das palestras foi o reconhecimento do papel destacado da diplomacia em momentos cruciais da História brasileira e mundial. A delimitação das fronteiras do Brasil no final do século XIX e começo do século XX; a opção pelos Aliados na Segunda Guerra; a defesa de uma política externa independente na Guerra Fria; a reaproximação com os vizinhos da região a partir da década de 1980, e o compromisso com o multilateralismo. Desde a Independência, enfatiza Ricupero, “a diplomacia ajudou a resolver grandes problemas, ajudou a consolidar nosso território e assegurar nossa autonomia”.

PUBLICIDADE A expectativa é de que Carlos França, o substituto de Ernesto Araújo, consiga virar a página de um período considerado nefasto para a casa. A esperança é que se recuperem as tradições diplomáticas que foram abandonadas, tornando a atuação do Brasil no exterior uma razão de vergonha.

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LINK ORIGINAL: OGlobo

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