Tão perto e tão longe: as histórias de quem ficou em quarto lugar na Olimpíada

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Entornointeligente.com / BRASÍLIA — “Eu acho que 4º lugar é um dos piores para se ficar”, brinca Natália Falavigna, ex-atleta do taekwondo, medalhista olímpica de bronze em Pequim-2008. O que pouca gente lembra é que, quatro anos antes de trazer uma medalha para casa, Falavigna ficou no quase: perdeu a luta pelo bronze e voltou de mãos vazias. A Olimpíada cria grandes histórias, novos heróis e até alguns vilões. Mas o que dizer daqueles que quase chegaram lá? O GLOBO conversou com alguns deles.

Talvez não exista posição mais ambígua do que o quarto lugar nos Jogos Olímpicos. Afinal de contas, quem pode se gabar e dizer que já esteve entre os quatro melhores do mundo em qualquer coisa? Por outro lado, o quarto lugar não recebe medalha, não recebe premiação e muitas vezes não recebe o reconhecimento devido.

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Na Olimpíada de Tóquio, alguns atletas ficaram nessa estranha colocação: Darlan Romani, no atletismo, Jacky Godmann e Isaquias Queiroz, na canoagem, e Luizinho, no skate. Todos eles planejam tentar de novo em Paris.

Mas o esporte brasileiro é rico em todo tipo de história sobre o quarto lugar. Uma delas é a de João Eugênio Batista da Silva, um corredor da Paraíba que, aos 21 anos, chegou a uma final olímpica com o superatleta americano Carl Lewis nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984. Prodígio do atletismo brasileiro, criado em família humilde, se surpreendeu com a convocação para os Jogos e por pouco não foi, por vergonha e saudades da mãe.

— Aí eu fui, mas não tinha dimensão do que era aqui, fui para participar. Chegando lá que vi não era brincadeira. É uma coisa grande. Não sabia a dimensão da coisa. Quando vi estava na final — diz Silva.

Não apenas na final: João Eugênio ficou a incríveis quatro centésimos do terceiro colocado, o americano Thomas Jefferson.

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Há também histórias como a de Ricardo Winicki, o “Bimba”, que entrou na última regata do windsurf em Atenas-2004 na primeira colocação. Ao fim da prova, a combinação de resultados o colocou em 4º. O resultado só veio 20 minutos após o fim da regata após os competidores chegarem praticamente juntos (curiosamente a decisão beneficiou um atleta grego).

PUBLICIDADE — Olha, são várias as sensações. Tem a sensação do momento e tem a sensação agora avaliando. Ao mesmo tempo que foi muito doloroso, porque eu entrei em primeiro e só tinha uma regata para acontecer, por outro lado foi a Olimpíada mais legal que eu participei. Estar em primeiro lugar na última regata da Olimpíada foi muito bom — conta o Bimba.

Quarto lugar pode virar história de perseverança Mas o quarto lugar também pode servir de motivação. Neste ano, o exemplo de perseverança ficou na natação: quarto lugar em Londres-2012 e quinto lugar no Rio, em 2016, Bruno Fratus finalmente alcançou seu sonho de uma medalha olímpica nos 50 metros livre. Na ginástica artística, aos 30 anos, a italiana Vanessa Ferrari conseguiu sua primeira medalha após ficar em quarto nas duas últimas Olimpíadas.

Logo após sua prova em Tóquio, emocionado, Darlan Romani prometeu usar o “quase” de 2021 como motivação para o próximo ciclo olímpico, que será de apenas três anos. Nesta sexta-feira, ainda em Tóquio, o atleta brasileiro já iniciou seu treinamento de olho nos Jogos de Paris em 2024.

— Brasil, pode ter certeza. Mais uma vez eu soui quarto, mas eu não quero mais isso para a minha vida. Eu tenho um novo ciclo, é um ciclo mais curto, de três anos. Mas tenham a certeza que eu tô voltando para o Brasil e… se eu dava 200%, agora eu voudar 300% para a gente subir no pódio.

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Bronze em Pequim-2008 e quarta colocada em Atenas-2004, Natália Falavigna, do taekwondo, relembrou ao GLOBO como usou a derrota na Grécia como motivação. A ex-atleta conta que pouco tempo depois da derrota na disputa pelo bronze, resolver focar toda a frustração nos treinamentos, para “treinar mais, melhor e de maneira mais inteligente”. Os resultados começaram a vir a partir do ano seguinte, quando foi campeã mundial. O ciclo extremamente vitorioso a credenciou como uma das favoritas ao ouro em Pequim mas, novamente, a brasileira perdeu nas semifinais.

— Chega em Pequim e eu tropeço na semifinal, eu perco numa decisão de arbitragem. Me vi naquela situação igual à de Atenas e vem o filme na cabeça. Mas eu tinha feito um ciclo muito bom. Foi muito engraçado, mas o que eu recordo daquele dia é quando me chamam no túnel. Ali eu ganho minha medalha. Eu sabia que não seria da forma que tinha sido antes e realmente foi uma das melhores lutas que eu fiz na minha vida, mas depois de quatro anos desse amadurecimento. Quando a medalha vem diante daquelas circunstâncias e pude ver o quanto tive amadurecido — afirmou.

PUBLICIDADE Após perder a medalha em uma decisão controversa na linha de chegada, Winicki também redirecionou seu foco ainda mais. Anos depois foi campeão mundial de windsurf.

— Claro que não fiz corpo mole em Atenas, mas hoje acho que faltou adrenalina, faltou eu ter passado a noite em claro. Faltou eu ter ficado como fiquei no Mundial depois. Nesse Mundial, eu praticamente não dormi. No dia da última regata, não tomei café da manhã, não conseguia comer nada — conta.

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João Eugênio Batista da Silva não teve outra chance nas Olimpíadas. Dois anos depois das Olimpíadas de Los Angeles, foi o primeiro brasileiro a ganhar uma medalah em um torneio indoor, em Paris. Mas sua carreira foi interrompida por falta de apoio. Mesmo antes dos Jogos, treinava e comia na Universidade Federal da Paraíba, sem poder voltar para casa porque só tinha dinheiro para a ida e a volta. O ex-atleta, entretanto, não se arrepende, mesmo só tendo percebido o tamanho de seu desempenho há pouco tempo. Hoje, no aplicativo de mensagens no seu celular, a descrição de seu perfil é “Atleta Olímpico”.

— O que eu queria dizer para esses que ficaram em quarto é que realmente são heróis. São ídolos. São perseverantes, são corajosos. E nunca desistam dos seus sonhos. Sempre vão em busca, porque hoje a tecnologia e a facilidade são maiores do que outrora. Não o conheço mas tenho vontade de conhecer essa juventude que está representando — afirma.

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LINK ORIGINAL: OGlobo

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