"Somos todos Centeno", o slogan a evitar em 2019? - EntornoInteligente

expresso / É no mínimo irónico, ou talvez não, que o novo mantra do Governo – “somos todos Centeno!” – tenha saído da boca de Adalberto Campos Fernandes, o ministro cuja pasta tanto tem sofrido com a gestão orçamental das Finanças. Como se não bastassem as notícias sobre os graves problemas na Saúde e o ping-pong sobre a “má gestão” no ministério dos hospitais, a conferência de imprensa conjunta foi o sinal mais evidente de que as coisas não andam bem entre os dos dois ministros.

Centeno pode vangloriar-se dos seus 0,9% de défice (ou 3% se incluirmos a CGD) – um número que brilha em Bruxelas – mas as boas notícias são também um desafio: a obsessão pelo défice pode tornar-se tóxica pelos impactos no país.

Falo da Saúde como podia referir-me ao combate dos incêndios ou de outras rubricas orçamentais cuja performance tem (a)parecido fortemente condicionada pelo “bom aluno” Centeno. O ministro garante-nos agora que as cativações foram fortemente reduzidas e que o investimento público está a aumentar mas o facto é que esse discurso vale de pouco perante a realidade. E sobretudo face às perceções que se criaram.

Sabermos que há hospitais que mais parecem campos de guerra, que há doentes que passam horas e horas nas urgências, que há listas de espera que chegam às dezenas de anos, investimentos em oncologia que esperam (e desesperam) por uma assinatura das Finanças ou concursos de médicos que só têm o OK de Centeno depois de muito barulho mediático, revela-nos o outro lado dos números mas também uma inversão das prioridades. Subalternização da Saúde ou poder excessivo das Finanças?

É um facto que os ministros das Finanças têm sempre muito peso nos conselhos de ministros: afinal são eles que têm a chave do cofre. Mas não podemos esquecer o que disse o PS de António Costa (e as esquerdas) sobre o executivo de Passos Coelho: que estava a ir para além da troika, a destruir o Estado social, que havia outra receita. Se Passos Coelho foi além da troika, este governo está claramente a superar todas as expectativas de Bruxelas. Com custos evidentes.

Há uns meses, um membro do Governo dizia-me que seria péssimo se o défice ficasse abaixo dos 1,4%, pelo que significaria não só para o discurso das esquerdas – ganhariam novos argumentos para criticar o sobresforço e para pôr o PS no mesmo saco da direita – mas sobretudo pela tal questão da perceção ou, se preferirem, da realidade: para poder fazer figura na Europa, Centeno está a paralisar o país. Mais: pagamos uma enormidade de impostos para sustentar um Estado que não está lá quando precisamos dele. A mesma perceção foi criada depois dos incêndios do ano passado. E do assalto a Tancos. Em ambos os casos, além de outras explicações e apesar de ninguém ter assumido a responsabilidade política, concluímos pelo falhanço evidente do Estado.

É verdade que a situação a que se chegou nos hospitais, na escola pública, nas instalações militares, nas linhas de comboio ou até na ponte 25 de abril não é da exclusiva responsabilidade deste governo. Em todas essas áreas há um incompreensível acumular de desinvestimento. Mas se antes havia um país na quase bancarrota, sem acesso a mercados, dependente de ajuda externa e sem crescimento, agora tudo mudou – até o contexto externo.

É difícil entender que um Governo com folga orçamental e que disse o que disse na oposição, em vez de fazer jus à palavra dada, pareça mais interessado em fazer bonito em Bruxelas. João Galamba precisou de vir lembrar o óbvio: em “2018 e 2019 o país dispensa brilharetes orçamentais”.

O país precisa de boas contas e equilíbrio orçamental mas também precisa de melhores serviços públicos e de mais investimento. Não basta encher o peito em defesa do Estado social. Costa pode orgulhar-se de ter o melhor défice da democracia e o presidente do Eurogrupo sentado no seu Conselho de Ministros. Mas terá de decidir se até 2019 quer levar à letra o “somos todos Centeno” de Adalberto Campos Fernandes. O défice pelo défice não traz mais votos. E a paz social já teve melhores dias. Agora, como disse António Guterres, é fazer as contas.

“Somos todos Centeno”, o slogan a evitar em 2019?

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