'Problema desse escândalo é que Facebook sabia do esquema há três anos', diz especialista - EntornoInteligente

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Diretor de políticas da Web Foundation, Craig Fagan – Reprodução RIO – Diretor de políticas da Web Foundation, Craig Fagan, afirma que o problema do escândalo recente do Facebook é que a empresa sabia do esquema há três anos, mas não informou nem autoridades nem as 50 milhões de vítimas. Na sua avaliação, “a falta de informação é sinal que o Facebook não estava consciente do papel que exerce enquanto empresa”.

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– Daqui a pouco vamos descobrir que outra empresa está usando a plataforma do Facebook para colher informações pessoais dos usuários, usando-as para diferentes finalidades.

Muitas empresas coletam dados pessoais há muito tempo. Por que o caso da Cambridge Analytica chamou tanta atenção?

O problema desse escândalo é que o Facebook sabia do esquema há três anos. Eles sabiam que dados dos usuários foram passados por um acadêmico para esta empresa que faz campanhas políticas com análises psicológicas usando informações pessoais dos internautas, mas não informaram as autoridades, nem as 50 milhões de vítimas. Além disso, as pessoas que fizeram o download do programinha do pesquisador não sabiam que informações dos contatos foram repassadas para a Cambridge Analytica. Essa falta de informação é sinal que o Facebook não estava consciente do papel que exerce enquanto empresa.

É possível que existam outras empresas que façam a mesma coisa?

Com certeza, sim. Daqui a pouco vamos descobrir que outra empresa está usando a plataforma do Facebook para colher informações pessoais dos usuários, usando-as para diferentes finalidades.

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A punição de suspender as partes envolvidas é suficiente?

Acho que não. A primeira coisa que eles precisam fazer é alertar aos usuários que tiveram seus dados utilizados pela Cambridge Analytica. As vítimas têm o direito de saber. São 50 milhões de pessoas que nem sabem que suas informações foram usadas em experimentos psicológicos com fins eleitorais. Eu posso estar nessa lista, você pode estar nessa lista, mas a gente não sabe.

E o Facebook precisa responder por que, apenas quando soube que o “New York Times” e o “Guardian” iriam divulgar a história, resolveu vir a público e suspender a Cambridge Analytica da rede. Quando é uma foto erótica, eles agem rapidamente, mas neste caso levaram três anos para tornar essa informação pública e suspender os envolvidos.

Veja também Escândalo do Facebook: Zuckerberg admite erros e diz que empresa precisa fazer mais Zuckerberg promete defender integridade nas eleições no Brasil Facebook pode trazer ferramenta de transparência até as eleições Facebook entra na lista suja de investimentos do banco Nordea Não parece que o Facebook está transferindo a responsabilidade para a Cambridge Analytica?

Acho que a responsabilidade é de todos. Realmente, é o Facebook que tem os seus termos de uso e suas práticas para identificar violações, o que é normal. Mas é óbvio, para mim, que havia uma falha na política deles para controlar o uso dos dados da plataforma para fazer pesquisas. Não é dizer que o Facebook não deva abrir espaço para os cientistas, mas é preciso regras e controle.

Por outro lado, sobre o pesquisador Aleksandr Kogan, da Universidade Cambridge, a gente precisa saber melhor qual foi a sua proposta original. Até o momento, ele está dizendo que estava respeitando as políticas do Facebook, mas é preciso aprofundar as investigações.

Da última parte, a Cambridge Analytica. Parece que ela se aproveitou incorretamente dos dados, mas até que o caso ganhe transparência a gente não pode dizer quem é o maior culpado. O que podemos afirmar é que cada parte teve sua parcela de responsabilidade.

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Esse episódio mostra que esse modelo de troca de serviços gratuitos por dados pessoais é uma ameaça para a democracia?

Como disse o Tim Berners-Lee, criador da web e nosso fundador, esse modelo precisa ser superado. A troca dos nossos dados pessoais por serviços é problemática e precisamos pensar para o futuro de uma web aberta e transparente. Então, acho que esse modelo que conhecemos atualmente, que continua avançando com mais empresas controlando mais informações, ameaça o futuro da web segura, lúdica e plural.

É possível que nós, usuários da web, consigamos reconquistar o controle sobre os nossos dados pessoais?

É preciso! Uma pesquisa realizada em 23 países, incluindo o Brasil, mostrou que quase 60% dos entrevistados brasileiros sentiam que a tecnologia estava ameaçando o futuro da privacidade. Mais que isso, um em cada dois pesquisados não quer que suas informações, como localização, compras e buscas na internet, sejam automaticamente coletadas. Então, acho que para termos confiança nessa plataformas no espaço digital a mudança é necessária. Esse modelo que conhecemos não está funcionando.

Na União Europeia duas leis estão sendo debatidas. Em maio, uma lei de proteção de dados dará aos cidadãos dos países europeus o direito de controlar as suas informações, que poderão ser excluídas ou transferidas dos servidores das empresas. Uma outra diretriz pretende melhorar a privacidade, a chamada lei de cookies. A ideia é que os sites terão que alertar sobre o uso de cookies, ou seja, os dados não poderão ser coletados automaticamente. São duas mudanças para melhorar a privacidade digital dos internautas.

‘Problema desse escândalo é que Facebook sabia do esquema há três anos’, diz especialista

Con Información de OGlobo

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