?Piloto foi dado como morto? - EntornoInteligente

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Pertencia ao quadro das Forças Armadas quando a guerra rebentou em Angola, em 1961. Estava na vida militar desde 1959 e por isso sabia que seria mobilizado para uma das frentes de combate. Foi assim, sem surpresa, que fui mobilizado para a Guiné–Bissau, em fevereiro de 1963. À partida sofri com a finíssima farda de nylon que nos deram em Lisboa. Chovia, fazia um frio de rachar e a farda pouco nos protegia. Mas percebemos a razão quando desembarcámos em Bissau muitas horas depois. Mal se abriu a porta do avião, o clima da Guiné apresentou-se na forma de um calor sufocante, acompanhada de uma humidade insuportável. Conheci de imediato aquele que seria o meu maior inimigo durante aquela comissão.

Piloto desaparecido

Fui colocado na Base Aérea nº 2, em Bissalanca, nos arredores de Bissau. O serviço era relativamente tranquilo, estava encarregue da gestão dos combustíveis das aeronaves da Força Aérea e ali nunca nos sentimos em perigo. O inimigo estava na mata e nunca se aproximou da capital da colónia, Bissau. Mas ali ouvíamos as transmissões e conhecíamos o movimento dos helicópteros e aviões que traziam feridos e mortos das zonas de combate. Nunca quis ver o desembarque das vítimas, mas percebíamos que a guerra que se travava no terreno era muito dura.

Um dos momentos mais marcantes da comissão aconteceu em maio de 1963, quando o avião pilotado pelo tenente António Lobato foi abatido. Era um homem que conhecíamos bem. Passava por nós na base de Bissalanca e cumprimentava toda a gente. Ele e a sua mulher, que o acompanhou em África. O aviador foi dado como desaparecido e todos o julgavam morto. Só muito mais tarde se percebeu que tinha sido capturado pelo inimigo e seria libertado já em 1970, numa operação dos portugueses na vizinha Guiné-Conacri.

A minha comissão durou 26 meses, mais dois do que era suposto. Foi difícil, mas tive mais sorte que um pobre alferes que morreu num acidente de viação no próprio dia em que ia a Bissau buscar as malas para regressar.

Em Moçambique

Voltei a casa em maio de 1965. Em outubro casei-me e dois meses depois já estava nomeado para uma nova comissão, desta vez em Moçambique. Mas a mobilização tardou, e só em agosto de 1966 tive ordem de partida. A minha mulher era professora e tinha completado o ano letivo. Disse então ao meu comandante que só partia para África se fosse com ela. A muito custo, lá consegui um lugar para ela no avião. Em Moçambique o clima era melhor e vivi bons tempos em Nampula. A minha mulher ficou a dar aulas em Murrupula, a 80 km, e víamo- -nos quando era possível. Lembro um episódio na represa de Nampula, em 1967, em que fui salvo de morrer afogado por um homem que nunca mais vi. Quando recuperei do susto, já ele tinha desaparecido. Ainda hoje gostaria de o conhecer, para lhe agradecer o bem que me fez.

Voltei a Portugal em 1968, já com uma filha e o segundo filho na barriga da mãe. Mas ainda haveria de me esperar uma terceira comissão, desta vez em Angola. Conheci Luanda em 1972, uma cidade fantástica, onde tive uma vida boa com a família. Mas tudo se precipitou após o 25 de Abril de 1974, quando o caos se instalou. Regressei no final desse ano, aliviado por ter escapado à anarquia que se tinha abatido sobre Luanda. Fui militar até 1990, altura em que passei à reserva.

Comissão: Guiné, 1963-65. Moçambique, 1966-68. Angola, 1972-74.

Unidade: Força Aérea

Autualidade: Casado, tem quatro filhos e nove netos. Aos 76 anos, vive em Leiria

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